Portfolio
Kara Walker
Sofia Steinvorth

As obras (desenhos a tinta, grafite e aguarela, colagens em papel, recortes) que damos a ver são do arquivo pessoal da artista americana Kara Walker, que as escolheu para constituírem este «Portfólio» da Electra, aqui apresentado por Sofia Steinvorth. Esta é uma das mais destacadas artistas contemporâneas, com exposições apresentadas no MoMA, no Whitney Museum, no MCA de Chicago ou na Tate Modern, entre outros grandes museus. Para Kara Walker, o passado pode ser tão desconhecido e ameaçador como o futuro. É daí que vêm as sombras e os vultos que nos marcam lugar no presente. Partindo de questões como as de género e de identidade, ou de temas como os do racismo e da violência, este trabalho artístico olha-os nas suas complexidades e contradições. Os belos e inquietantes desenhos de Kara Walker são iluminuras no grande livro do tempo, em que a história se faz, se desfaz e se refaz, com avanços e oposições, ocultações e revelações, palavras de ordem e imagens de desordem.

kara walker

© Kara Walker
Cortesia Sikkema Jenkins & Co.

 

O trabalho de Kara Walker, uma das mais destacadas artistas plásticas americanas da actualidade, inclui silhuetas pintadas, impressões, instalações e filmes, e tem sido apresentado em instituições como o MoMA e o Whitney Museum (ambos em Nova Iorque), o Museu de Arte Contemporânea de Chicago e mais recentemente na Tate Modern de Londres. Em Junho de 2021, a sua próxima exposição individual, A Black Hole is Everything a Star Longs to Be [Um buraco negro é tudo o que uma estrela deseja ser], mostrará mais de seiscentos desenhos no Kunstmuseum, em Basileia, que irão depois para o Schirn Kunsthalle em Frankfurt e para o De Pont Museum of Contemporary Art, na Holanda.

Walker aborda temas políticos e sociais como o racismo, as questões de género, a sexualidade, a violência e a identidade. Embora tenha começado por captar a atenção do público com as suas silhuetas de papel que retratavam cenas da escravatura nas plantações sulistas dos EUA, nos últimos anos o seu trabalho passou das enigmáticas sombras que se tornaram a sua imagem de marca para instalações públicas monumentais.

A mais notável dessas instalações é uma figura negra numa postura de esfinge com vinte e três metros de altura, coberta de açúcar e com um título muito explicativo: A Subtlety, Or… the Marvelous Sugar Baby, an Homage to the unpaid and overworked Artisans who have refined our Sweet tastes from the cane fields to the Kitchens of the New World on the Occasion of the demolition of the Domino Sugar Refining Plant [Uma subtileza ou… a maravilhosa Sugar Baby, homenagem às exploradas e não remuneradas Artesãs que refinaram os nossos doces sabores levando-os dos campos de cana-de-açúcar para as cozinhas do Novo Mundo por ocasião da demolição da refinaria Domino Sugar] (2014). Quando esta peça, comissariada pela Creative Time, foi exibida na antiga fábrica Domino Sugar em Williamsburg, Brooklyn, o crítico da New Yorker Hilton Als descreveu-a como uma instalação resultante da convicção da artista de que «os fantasmas têm impacto sobre nós porque a história não se apaga». De certa forma, aquilo que Als diz sobre esta peça capta a essência de todo o trabalho de Walker — é através de uma relação constante com as sombras do passado que a artista desenvolve uma narrativa histórica capaz de comunicar com o presente. Walker sublinhou numa entrevista:

Na origem da maioria das questões raciais existem factos e vivências— difíceis de apreender mas reais — e à sua volta crescem camadas de exagero e de ficção. Por vezes é impossível saber o que realmente aconteceu, em termos históricos, e pode tornar-se necessário reinterpretar as descrições.

kara walker

© Kara Walker
Cortesia Sikkema Jenkins & Co.

 

kara walker

© Kara Walker
Cortesia Sikkema Jenkins & Co.

 

kara walker

© Kara Walker
Cortesia Sikkema Jenkins & Co.

 

O «Portfolio» deste número apresenta uma selecção de desenhos a tinta, grafite e aguarela, colagens em papel e recortes da série Untitled (2002–04), que até há pouco tempo integrava o arquivo pessoal da artista e não estava disponível ao público. As imagens — numa paleta de negro, bronze e azul claro — coexistem com notas rabiscadas, sugerindo um equilíbrio entre intimismo e subjectividade.

Ao longo da série, a voz de Walker está muito presente: por vezes reforçando e outras vezes distorcendo aquilo que julgamos estar a ver. De facto, a contradição pode ser considerada como um dos seus mais fortes recursos. Na selecção de trabalhos que aqui se apresentam, por exemplo, as linhas suaves dos desenhos e a leveza da aguarela estabelecem um contraste total com a dureza das cenas de opressão, sexo e homicídio, o que reforça a sua violência.

Apesar do repentismo e da espontaneidade destes desenhos, as várias cenas retratadas encontram-se suspensas. Independentemente do cenário, quer a situação seja apreendida como exterior ou como doméstica, há sempre uma ausência de tempo e de espaço que espoleta o tipo de tensão característico dos mistérios por resolver. Porque é que os corpos estão desmembrados? E a quem pertence a mão isolada? E os órgãos sexuais? As situações representadas nos desenhos de Kara Walker transmitem um secretismo conspiratório e institucionalizado que esconde as identidades do opressor e da vítima — é um duplo anonimato que oculta a culpa do opressor e omite a vergonha da vítima.

Embora nem todas as imagens revelem individualmente uma violência directa, no seu conjunto elas provocam uma inquietação que advém da imprevisibilidade do autoritarismo descontrolado. A consequência é um medo avassalador que espreita em toda a parte. É de tal forma assim que a insígnia festiva com que se celebra uma nova vida é representada com a cor agourenta da fisga que poderia pôr-lhe fim. Esse estado de apreensão implacável torna-se uma lente através da qual se vê o mundo, uma lente que envolve tudo, mesmo as paisagens mais inocentes, como em Sentimental scene from the Mississippi Chattahoochee of my youth [Cena sentimental do Mississippi Chattahoochee da minha juventude]. Perante uma realidade violenta tudo tende a ser contaminado por um significado obscuro.

Desta forma, os desenhos de Kara Walker falam da nossa incapacidade para manter o passado no seu lugar; do nosso esforço desesperado para evitar que os fantasmas da história invadam a nossa corporalidade presente. Entre sonhos, pesadelos e momentos de lucidez, vivemos uma vida assombrada.

*Tradução de Isabel Pettermann

Bibliografia

Hilton Als, «The Sugar Sphinx», The New Yorker, 08.05.2014. Stillman Steel, «In the Studio: Kara Walker with Steel Stillman», Art in America, Maio de 2011, pp. 88–95.