Editorial
Mais e menos
José Manuel dos Santos e António Soares

As melhores perguntas são aquelas que respondem por nós. Que aconteceu entre o primeiro editorial escrito e este que agora se escreve? O que aconteceu foi uma revista. Aquela de que esse texto inaugural falava, como Hamlet fala do fantasma do pai. Electra apareceu, foi publicada, lida, vista, noticiada, comentada.

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Hamlet é, aliás, um modo moderno e nórdico de se ser Electra (com Orestes), fazendo da certeza da vontade (nela) uma hesitação da consciência (nele). Diz este príncipe da Dinamarca e da melancolia: «Assim a consciência faz de nós covardes, / E assim o primitivo brilho da vontade / Desmaia sobre a pálida cor do pensamento. / Empreendimentos de grande alcance e grande peso / Torcem por causa disto o seu caminho / E perdem o nome de acção.» (Acto Terceiro, Cena I). Nisso, como notou Hegel, somos modernos com Hamlet.

Ao ser publicada, uma revista acerta contas consigo para, a seguir, as acertar com os outros. É sempre mais e menos do que queremos que seja. Mas esse balanço do número passado é o impulso do número futuro.

Sísifos felizes, como queria Camus, levamos a pedra de cada edição até ao cimo da montanha, sabendo que a sua descida até ao sopé é ainda a garantia de uma nova subida até ao cume. E é para esse cimo que olhamos quando estamos a subir.

Electra e o seu número 1 foram, no tempo depois da sua saída, um lugar atravessado por regozijos, sugestões, conselhos, propostas, louvores. Tudo isso ouvimos e de tudo isso fizemos um catálogo de ideias e palavras, de contentamentos e prudências, num diálogo sem interrupções ou abandonos. Esse diálogo não é a garantia de nada, mas é a condição de tudo.

Este segundo número de Electra confirma, reitera, renova e acrescenta o primeiro número, nos seus propósitos, périplos, pesquisas. Como dissemos no editorial inaugural: «Esperemos que, não deixando de ser o que são, todos os números sejam os primeiros dos seguintes e os últimos dos anteriores.»

No número 2 de Electra passa uma linha que a liga ao número 1 e ao número 3, numa geometria de palavras, pensamentos, imagens. E, como já Euclides sabia, «em geometria não há caminho reservado aos reis». O velho geómetra sabia ainda mais: «Aquilo que é afirmado sem provas pode ser negado sem provas». É por isso que há revistas como esta.

Neste número 2 abrimos a revista ao sol de novos dias e à lua de outras noites. Se a lermos com um tempo que observa, vemos que o mundo se aproxima de nós com a velocidade da nossa atenção.

Um editorial é a porta de uma casa na qual se pode entrar pela janela. E é como aqueles barcos que vão do rio ao mar se não houver nevoeiro, desvio ou desistência.

Poderíamos, aqui, falar deste número, dizendo o seu como, o seu quê e o seu porquê. Soletrar, enunciar, anunciar o índice de cada edição, envolvendo-o explicativamente em palavras menos certas do que as dele, seria desconfiar de nós e dos leitores, acrescentando mais uns gramas de estúpida e inútil redundância ao imenso peso dela que todos os dias se abate sobre a terra. Haverá alguma coisa mais insistente e redundante do que a estupidez?

Esta é uma revista de pensamento e procuramos saber o que isso quer dizer, quando isso quer dizer alguma coisa. Sabemos que, nessa guerra e nessa paz, nunca ninguém ganha se, às vezes, não perder. Mas sabemos também que não é raro ganhar-se quando se ganha.

Afirmou Antonin Artaud: «Todas as revistas são os escravos de uma maneira de pensar e, por esse facto, desprezam o pensamento». E disse Roland Barthes: «Na língua, a servidão e o poder confundem-se inelutavelmente».

Estamos conscientes disto, mas não temos medo disto de que estamos conscientes. É assim que esta revista se pensa consigo, pensando-se também, porventura nos seus melhores momentos, além de si, fora de si, ou mesmo contra si. De tudo isso ela se faz. É nesse jogo de máscaras que o seu rosto se deixa ver.

Uma revista é sempre uma utopia que não se realiza inteiramente em cada número seu. Só assim pode continuar a ser a utopia sonhada do número seguinte. Esse desnível é como a falha das placas tectónicas: pode provocar aberturas, oscilações, abalos, revelações.

É aí que podemos ver o que se esconde quando se mostra. Ou olhar o que se mostra quando se esconde. É então que podemos dizer com Robert Musil: «Não há um só pensamento importante que a estupidez não saiba usar; ela pode mover-se em todas as direcções e vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém, tem apenas um vestido e só um caminho, estando sempre em desvantagem». E concordar com ele quando afirma: «Se a estupidez não fosse tão parecida, a ponto de confundir-se, com o progresso, o talento, a esperança ou o aperfeiçoamento, ninguém desejaria ser estúpido».

Se soubermos isto, o mundo torna-se mais claro — e mais clara se faz a nossa sombra nele.