Para uma fórmula geral do medo contemporâneo. Temos todos os motivos para ter medo. Todos, ou quase. O amanhã — e esta é praticamente a nossa única certeza — trará o seu rol de horrores, o seu cortejo de cadáveres, a sua enxurrada de ameaças. O amanhã será pior, ou quase pior, para quase todos, quase em todo o lado. Pior para o ambiente, pior para a saúde física e mental, para os serviços públicos, para a educação, para a democracia, para a paz. Podemos tentar resumir isto numa fórmula, que seria a fórmula geral do medo contemporâneo: o medo de que não haja futuro, salvo o de uma ecosfera em chamas, devastada pela guerra, vigiada por drones dotados de Inteligência Artificial nas mãos de tecno-bilionários que ajudam regimes ditatoriais a perpetuar o poder de uma minoria (branca, se possível). Trata-se, no mínimo, de uma situação pavorosa. Como sobreviver a ela, psicologicamente? E como escapar à política do medo — à fobopolítica que perpetua esta situação — de modo a não apenas sobreviver, mas a poder esperar uma vida melhor, mais justa e bela?
Nem sequer o fim do mundo. Poder-se-ia argumentar, porém, que esta dita «situação pavorosa» não descreve algo verdadeiramente contemporâneo. Não será ela apenas uma versão corrente do velho medo do fim do mundo? Nada de novo, dir-se-á. O apocalipse tem um travo a déjà vu, acrescentar-se-á. Assim sendo, para quê preocuparmo-nos? Mais vale rever os bons e velhos filmes distópicos e encontrar neles algum consolo: «Já aconteceu antes», murmuramos diante dos nossos ecrãs. Acredito, ainda assim, que aquilo com que hoje nos confrontamos é um fenómeno de outra ordem — tanto mais quando, em vez de um ecrã (de cinema ou de telemóvel), espreitamos o buraco escavado por uma bomba. Há quem diga que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Hoje, porém, começa a ser possível imaginar o fim do capitalismo sem que isso nos modifique, emocionalmente, como se o medo — que invade e afecta todas as dimensões da realidade, todas as populações, ainda que em diferentes graus e segundo regimes de realidade ainda por identificar — se tivesse tornado resistente a qualquer dissolução política. Afinal de contas, o fim do capitalismo tal como o conhecemos poderá dar lugar a uma economia da morte ainda mais opressora, tecnologicamente repressiva e genocida. É bem possível que tudo acabe, e que nós acabemos sem nada, dizemos a nós mesmos.
Inferno e visão. Isto poderia ser uma visão do inferno. Mas é o inferno da visão que ilumina este mundo interminável, este mundo que desaba depressa aqui, mas demasiado devagar além. É o inferno das imagens que nos chegam da Palestina, do Líbano. E do Haiti e da Ucrânia. Imagens e descrições da crueldade dos seres humanos, que parecem incapazes de ver que podem ver. Alucinações algorítmicas que desfiguram o mundo com a sua mediocridade (AI slop, o refugo da Inteligência Artificial). O inferno de ver e saber o que está a acontecer e não poder fazer nada, de dizer a si mesmo que nada há a fazer enquanto se tenta fazer qualquer coisa, de acrescentar que se poderia ter feito uma coisa diferente, que talvez ainda se possa agir, quem sabe, se, se…



Partilhar artigo