Assunto

Fobopolítica. Uma análise do pavor contemporâneo

Frédéric Neyrat

O filósofo Frédéric Neyrat, professor na Universidade de Wisconsin–Madison, autor de La condition planétaire (o seu mais recente livro), contribui com este texto para uma «filosofia do medo» que integra no seu horizonte de pensamento as formas contemporâneas do terror, da angústia, do mal extremo, da «fobopolítica», isto é, da política do medo.

louise bourgeois

Louise Bourgeois, Sem título, do livro Ode à Ma Mère, 1995 © Fotografia: Scala, Florença / The Museum of Modern Art, Nova Iorque © Louise Bourgeois / ARS, Nova Iorque / SPA, Lisboa
 

Para uma fórmula geral do medo contemporâneo. Temos todos os motivos para ter medo. Todos, ou quase. O amanhã — e esta é praticamente a nossa única certeza — trará o seu rol de horrores, o seu cortejo de cadáveres, a sua enxurrada de ameaças. O amanhã será pior, ou quase pior, para quase todos, quase em todo o lado. Pior para o ambiente, pior para a saúde física e mental, para os serviços públicos, para a educação, para a democracia, para a paz. Podemos tentar resumir isto numa fórmula, que seria a fórmula geral do medo contemporâneo: o medo de que não haja futuro, salvo o de uma ecosfera em chamas, devastada pela guerra, vigiada por drones dotados de Inteligência Artificial nas mãos de tecno-bilionários que ajudam regimes ditatoriais a perpetuar o poder de uma minoria (branca, se possível). Trata-se, no mínimo, de uma situação pavorosa. Como sobreviver a ela, psicologicamente? E como escapar à política do medo — à fobopolítica que perpetua esta situação — de modo a não apenas sobreviver, mas a poder esperar uma vida melhor, mais justa e bela?

Nem sequer o fim do mundo. Poder-se-ia argumentar, porém, que esta dita «situação pavorosa» não descreve algo verdadeiramente contemporâneo. Não será ela apenas uma versão corrente do velho medo do fim do mundo? Nada de novo, dir-se-á. O apocalipse tem um travo a déjà vu, acrescentar-se-á. Assim sendo, para quê preocuparmo-nos? Mais vale rever os bons e velhos filmes distópicos e encontrar neles algum consolo: «Já aconteceu antes», murmuramos diante dos nossos ecrãs. Acredito, ainda assim, que aquilo com que hoje nos confrontamos é um fenómeno de outra ordem — tanto mais quando, em vez de um ecrã (de cinema ou de telemóvel), espreitamos o buraco escavado por uma bomba. Há quem diga que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Hoje, porém, começa a ser possível imaginar o fim do capitalismo sem que isso nos modifique, emocionalmente, como se o medo — que invade e afecta todas as dimensões da realidade, todas as populações, ainda que em diferentes graus e segundo regimes de realidade ainda por identificar — se tivesse tornado resistente a qualquer dissolução política. Afinal de contas, o fim do capitalismo tal como o conhecemos poderá dar lugar a uma economia da morte ainda mais opressora, tecnologicamente repressiva e genocida. É bem possível que tudo acabe, e que nós acabemos sem nada, dizemos a nós mesmos.

Inferno e visão. Isto poderia ser uma visão do inferno. Mas é o inferno da visão que ilumina este mundo interminável, este mundo que desaba depressa aqui, mas demasiado devagar além. É o inferno das imagens que nos chegam da Palestina, do Líbano. E do Haiti e da Ucrânia. Imagens e descrições da crueldade dos seres humanos, que parecem incapazes de ver que podem ver. Alucinações algorítmicas que desfiguram o mundo com a sua mediocridade (AI slop, o refugo da Inteligência Artificial). O inferno de ver e saber o que está a acontecer e não poder fazer nada, de dizer a si mesmo que nada há a fazer enquanto se tenta fazer qualquer coisa, de acrescentar que se poderia ter feito uma coisa diferente, que talvez ainda se possa agir, quem sabe, se, se…

"O medo convoca sempre imagens, mesmo quando não há nada a temer: na escuridão das escadas da cave, imagino monstros, aqueles que conheço dos filmes de terror."

louise bourgeois

Louise Bourgeois, Sem título, do livro Ode à Ma Mère, 1995 © Fotografia: Scala, Florença / The Museum of Modern Art, Nova Iorque © Louise Bourgeois / ARS, Nova Iorque / SPA, Lisboa

 

louise bourgeois

Louise Bourgeois, Greetings: Laughing Monster [Saudações: monstro risonho], 1946 © Fotografia: Scala, Florença / The Museum of Modern Art, Nova Iorque © Louise Bourgeois / ARS, Nova Iorque / SPA, Lisboa

 

Medo e angústia. Se ao menos pudéssemos saber o que está a acontecer — e o que não está a acontecer — com o medo generalizado; se ao menos pudéssemos saber o que o pavor encobre e revela. Tudo parece difuso, e este é um dos efeitos registados pela fórmula geral do medo contemporâneo. Por isso, tentemos ganhar alguma clareza conceptual — e façamo-lo com a maior calma possível, descartando a culpa por tomarmos tempo para pensar, mesmo quando tudo corre mal, quando tudo arde à nossa volta. Essa culpa apenas atirará mais achas para a fogueira. Comecemos por distinguir entre angústia e medo, com a ajuda da psicanálise e da filosofia existencialista. Digamos, para simplificar, que o medo tem um objecto: podemos identificar o perigo que o provoca, o mal que procura evitar. Por outro lado, na esteira de Freud e Heidegger, podemos definir a angústia como aquilo que não tem objecto: a angústia surge quando nos faltam as palavras, quando algo não pode ser dito nem representado, e de súbito sentimos que o chão nos foge ou estremece sob os nossos pés. O medo convoca sempre imagens, mesmo quando não há nada a temer: na escuridão das escadas para a cave, imagino monstros, aqueles que conheço dos filmes de terror. A angústia, por sua vez, nasce da ausência de imagens, quando a imaginação — entendida como uma trama de sentido, como ecologia de relações, como contínuo material e ontológico — falha. O medo é característico dos seres vivos, ameaçados pela morte enquanto interrupção do contínuo da vida; mas essa ameaça encobre, paradoxalmente, o facto de que já se deu uma outra interrupção: a interrupção geradora da existência.

Deserção do ser, chão instável. A interrupção geradora da existência não é a morte que põe termo à vida, mas a própria origem da existência. Com efeito, os indivíduos apenas existem sob a forma de uma independência ontológica, de uma autonomia, na qual a célula se fecha sobre si mesma, integrando no seu interior o exterior natural que a constitui. Para uma célula, uma planta ou um planeta de ficção científica (pense-se no conto «Vaster than empires and more slow», de Ursula K. Le Guin), estar vivo implica necessariamente uma separação — um distanciamento e um desvio em relação ao não-Eu —, e é por via deste abismo, deste terreno em disputa, que se estabelecerá a comunicação com outros, presentes ou ausentes, visíveis ou invisíveis. O que se sente, então, é angústia, e não medo, sempre que esta deserção do ser — este chão instável — é vivida como tal, sem razão externa que a justifique; sempre que, por conseguinte, se reaviva o trauma da interrupção geradora da existência, que é o preço a pagar por ser verdadeiramente — ao contrário de quem é simplesmente, refugiando-se numa bolha narcisista, blindada, bélica, negando o não-Eu para evitar confrontar-se consigo mesmo. Podemos assim compreender uma das funções fobopolíticas do medo: encobrir a condição existencial que perturba os vivos e o torna presa do nada.

Pavor desumanizante. Poder-se-ia dizer que uma tal análise parece nivelar as diferenças, ocultando assim regimes de realidade muito distintos, resistentes à generalização: a angústia, poder-se-á argumentar, é para quem tem a sorte de não ser bombardeado dia e noite por Estados terroristas sem réstia de alma, empatia ou humanidade. Quando a Polícia espanca alguém com cassetetes, o objecto do medo e da dor é palpável. Embora verdade, invertamos este raciocínio: e se o problema deste mundo estiver justamente no facto de ele produzir uma fórmula de medo que impede parte da humanidade de se reconhecer como humana, mesmo no tormento da angústia? Este pavor desumanizante é o cerne da fobopolítica.

Espanto e assombro. Em La crise du Muntu: authenticité africaine et philosophie (devo esta referência a Norman Ajari, a quem aqui agradeço), Fabien Eboussi Boulaga escreve que «o que vem primeiro para o Muntu não é nem o assombro nem o espanto, mas apenas a estupefacção (stupeur) provocada por uma derrota total». Ao contrário de Sócrates e Aristóteles, que consideram o espanto (thaumazein) como o início da filosofia, Boulaga diz-nos que, para os povos colonizados, a experiência que dá origem ao pensamento é muito mais violenta, muito mais devastadora: não é a experiência de espanto de um sujeito perante o mundo, mas a de um mundo de vencedores que procura manter a sua dominação sobre as pessoas negras através do terror. Para mim, nenhuma revolução política será válida enquanto não considerar imperativo abolir o que impede o espanto. Proibir o espanto equivale a matar crianças — o pavor por excelência —, dado que é graças a elas que um mundo poderá recomeçar.

Extensão do domínio do pavor. Há, portanto, assimetrias claras no pavor, na medida em que nem todos somos tomados pela mesma estupefacção, pelo mesmo terror: a fobopolítica atinge, em primeiro lugar, as minorias. Mas esta distinção — entre diferentes regimes de realidade vivida — não pode servir de pretexto para que os privilegiados se julguem imunes ao que acontece «lá ao longe». Numa entrevista dada em Maio de 2025 à revista Usbek & Rica, a activista e escritora Fatima Ouassak alerta-nos para o facto de que o que está a acontecer em Gaza é «um laboratório do progresso tecnológico genocida», que serve «para se livrar de populações consideradas indesejáveis, nocivas. Já se começa a falar de genocídio por IA». Por isso mesmo, «o que hoje aponta a mira aos habitantes de Gaza pode amanhã vir a apontá-la para nós». Há, pois, um desfasamento temporal, um atraso — mas amanhã este cenário pavoroso pode bem tornar-se realidade em todo o lado, ou quase.

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