Annie Besant e C. W. Leadbeater, Formas-pensamento, figura 11 (Afeição radiante), 1905. © Mary Evans Picture Library, Londres © Mary Evans / Scala, Florença
A história pode contar-se como tem sido contada: Sigmund Freud, acompanhado de dois dos seus colaboradores mais próximos, o húngaro Sandór Ferenczi e o suíço Carl Gustav Jung, chegava, pela primeira e única vez, aos EUA. Foi no dia 29 de Agosto de 1909 e a Europa ainda vivia a ilusão áurea de uma bela época que não parecia disposta a aproximar-se do seu fim.
O fundador da psicanálise, esse engenhoso mitógrafo da mente humana, mostrava-se vestido com a elegante exactidão do estilo vienense daqueles tempos memoráveis. A sua distinção no trajar, que não desconhecia um sagaz significado simbólico e não estava isenta de uma subtil melancolia estética, manifestou-se com uma presença muito visível nas fotografias feitas durante esta expedição ao Novo Mundo.
Quando o navio em que viajavam se aproximou, lentamente, do porto de Nova Iorque, na foz do rio Hudson, e logo se avistou a Estátua da Liberdade, com o braço erguendo a chama altiva com que pretende iluminar o mundo e mesmo o Universo, o autor de A Interpretação dos Sonhos e de Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, mas também de Totem e Tabu e de O Mal-Estar na Civilização, exclamou para os seus colegas de missão: «Eles não sabem que nós lhes trazemos a peste.»
Freud tinha sido convidado pelo pedagogo, psicólogo e pioneiro dessas disciplinas, Granville Stanley Hall, para fazer cinco conferências sobre a psicanálise, comemorando com elas os vinte anos da Clark University, em Worcester, Massachusetts, de que o anfitrião era presidente.
O perseverante e imaginativo perscrutador dos complexos, pulsões, reminiscências, motivações e traumas, depositados no fundo escondido do inconsciente humano, detestou a excursão aos EUA e não apreciou a experiência de convívio com a maioria dos cidadãos do vasto país de Abraham Lincoln e de George Washington.
Não gostou da sociedade americana, com a sua competitiva e grosseira brutalidade, e detestou a sua insana voracidade material. Por isso, nunca se mostrou disposto a repetir a viagem — não voltou mais a essas terras violentas e desmedidas, onde a psicanálise se iria tornar uma religião apostólica e um quase obrigatório e generalizado culto salvífico, transformando-se, naturalizada e domesticada, num valioso produto americano de exportação.
Nestes rasteiros e raivosos anos que estamos a viver, trazermos até nós o venenoso comentário de Freud sobre a peste psicanalítica, proferido numa voz portadora de uma amarga ironia trágica, devolve-lhe um inquietante sentido profético. É como se os norte-americanos quisessem retribuir agora a aversão que o médico europeu, fundador da psicanálise, lhes dedicou, fazendo daquilo de que a anunciada peste trata uma ameaça de contágio pandémico e uma onda de insanidade que está a alastrar pelo mundo.
Assim é e assim vemos que é. Assistimos, em todas as horas e minutos, à exibição indecorosa de uma perversão mental com sintomas psiquiátricos públicos que, para compreendermos melhor as suas manifestações exuberantes e conhecermos mais acertadamente as suas causas profundas, nos impõe a urgência do recurso ao pestífero divã.
Pouco a pouco, é como se a necessidade inadiável da peste que aquele trio levou para a América do Norte nos fosse agora restituída e demonstrada, aconselhando o socorro da sua portentosa ambição analítica, mas expondo ao mesmo tempo a sua insuficiência para explicar a natureza e o grau desta agressiva monomania predadora do dinheiro, desta obsessão patológica de poder e desta insana e grosseira alucinação exibicionista, que, num insidioso regime de inimputabilidade, tornado também um irresponsável regime de impunidade, estão a poluir o mundo e a empurrá-lo para o abismo.
Todos os dias, nas televisões e nos jornais, dos órgãos de comunicação mais sisudos aos mais ligeiros, dos mais sofisticados aos mais sensacionalistas, surge uma pergunta: como foi possível a demência ter-se apropriado dos mais altos comandos de um Estado dominante e ter-se instalado nos centros do poder mundial mais decisivos e, a partir deles, ter espalhado o caos por toda a parte? Como foi possível, mesmo depois de permanentes ostentações de loucura perversa, repetidas quotidianamente ao longo dos anos, e a prática de actos de delírio psicótico, que uma multidão de gente continue a aplaudir furiosamente das bancadas, reais e virtuais, o que se passa na desvairada arena deste novo e global coliseu romano?
Do mais exibicionista dos gladiadores deste circo podemos dizer aquilo que o narrador de um romance do escritor norte-americano Philip Roth, astuto cultor do humor negro e perspicaz conhecedor do seu país e do seu povo (se estivesse vivo, que admirável romance escreveria sobre a América de hoje!), dizia de uma das suas personagens: «Tudo o que tinha funcionado para fazer dele o que ele era não fazia actualmente mais do que dar-lhe o ar de um louco.»
Por todo o lado, a todas as horas do dia e da noite, a política, a geopolítica, a economia e a sociologia são desapossadas do seu vocabulário clássico e das suas metodologias e instrumentos tradicionais de análise, que se viram abundantemente — e porventura inevitavelmente — substituídos pelo léxico das patologias psiquiátricas e dos transtornos mentais mais assustadores e radicais.
Do antigo «tudo é político» passámos ao moderno «tudo é psicológico». Este avassalador movimento actual de psicologização da política, justificado e imposto, a um ritmo trepidante, pelo espectáculo diário do delírio individual, da degradação colectiva e da decadência civilizacional, vem, em todo o caso, culminar um longo processo de psicologização do mundo e da vida, em que todos os acontecimentos, fenómenos, casos, estados e situações são revertidos e reduzidos a aspectos psicológicos, psiquiátricos e psicanalíticos, nos quais tudo se compreende e explica por traumas, tiques, complexos, transtornos, distúrbios, emoções, pulsões, sensações e sentimentos primários ou secundários.
A propósito de tudo e de nada se fala, em sentido literal ou metafórico, real ou figurado, de neurose, psicose, esquizofrenia, paranóia, depressão, mania, alucinação, ansiedade, stress, stress pós-traumático, burnout, trabalho de luto, complexos de superioridade e de inferioridade, fobias e filias, histeria, sadismo, masoquismo, perturbação bipolar, hiperactividade, défice cognitivo e de atenção, transtorno obsessivo-compulsivo, fobia social, síndrome de pânico, sentimentos negativos, tabu, fetichismo, parafilia, catarse, castração, complexo de Édipo e morte do pai, síndrome de Estocolmo.
Ou também de sexualidade, transferência e contratransferência, deslocamento, dissociação, espelhamento, fixação, frustração, gatilho, perversão, pressão, pulsão, denegação, doenças psicossomáticas, somatização, sintomas comportamentais, comportamentos tóxicos, síndrome de borderline, autismo, demência senil, vitimização, empatia, auto-análise, introversão, recalcamento, reversão, ressentimento, self, ego, euforia, disforia, culpa, sublimação, manipulação, mindset, monomania, mitomania e mentira patológica ou compulsiva, mindfulness, libido, megalomania, narcisismo, egomania, voyeurismo, exibicionismo.
Perante este caudal ininterrupto de psicologismos com a sua linguagem tantas vezes abastardada, transformada numa gíria abusivamente elástica e não raro sem propriedade ou adequação àquilo que quer nomear, falta-nos, ao menos, um inteligente humor irónico ou sarcástico, como aquele que levou um dia o escritor Karl Kraus a afirmar: «A psicanálise é aquela doença mental que se toma pela sua terapia.» Ou Michel Foucault a dizer: «Somos a única civilização em que se paga a alguém para nos ouvir fazer confidências sobre o nosso sexo.» Ou, num registo epistemológico, as alegações críticas de Karl Popper que, recorrendo ao princípio da falseabilidade, negam à psicanálise o pretendido estatuto de ciência.
As redes sociais são o espelho pouco mágico desta fundamental psicologização. Acresce que esta tendência imparável é ainda mais acelerada («a caridade começa em casa», diz o provérbio) pela exibição demencial, no palco do mundo, dos donos dos sistemas, das redes e das tecnologias de informação, de comunicação, de criação e de controlo, os tecno-oligarcas, os novos senhores feudais, os jogadores dostoievskianos de todos os jogos. Esses imperadores tecnológicos querem poder poder tudo para em tudo mandarem e de tudo obterem um lucro torrencial, garantindo, pelos seus portentosos, inéditos e incontrolados meios, mecanismos e instrumentos, uma servidão voluntária ou involuntária, consciente ou inconsciente, directa ou indirecta, activa ou passiva.
Para estes domadores do mundo, a moral é um anacronismo destituído de actualidade, a verdade é a mentira que lhes for necessária ou útil, o respeito pelo outro é uma ideia perigosa e pouco lucrativa. Para eles, o dinheiro é a medida — a única! — de todas as coisas e de todas as pessoas, a desigualdade e exclusão são uma condição sine qua non do êxito; o amor é uma oportunidade de privatização, de propriedade e de posse; a amizade é uma associação cúmplice de interesses, uma satisfação produtiva de desejos e a obtenção conveniente de vantagens e de proveitos; a política (e também a religião) é um instrumento submisso de poder, controlo, instrumentalização, normalização, captura e vigilância para alcançarem os seus desígnios; a natureza é uma fonte domesticada e inesgotável de abastecimento e de consumo; a cultura é uma ameaça de tédio e um gasto inútil e dispensável de tempo; a vida é uma guerra sem lei e sem fim.
Com eles, é como se estivéssemos a assistir, em indecorosa e invasiva permanência, à exibição de um filme de série B de péssima qualidade, no qual, espantados, ofendidos e humilhados, vemos o regresso a um mundo primitivo, cheio de violência e de brutalidade, carregado de som e de fúria. Num cenário percorrido pelo kitsch triunfante e triunfal, a existência é garantida por sucessivos golpes assassinos, é sustentada pela celebração de insolentes ritos venatórios e é assegurada por incansáveis rituais sanguinários.
Como disse recentemente o escritor escocês Irvine Welsh, autor de Trainspotting, «aqueles que representam o 1% da população detêm todos os meios de comunicação, todo o dinheiro e tudo o mais, acreditando-se deuses. Esses oligarcas rodearam-se de bajuladores que repetem os seus absurdos em seu nome, enquanto os que se encontram na base da pirâmide social viram os seus direitos serem suprimidos».
Com o seu propósito totalizador de explicação universal, a excessiva psicologização do mundo e da vida, que se foi ampliando e invadiu todos os domínios, tem levado a uma derrota do pensamento. A psicologização institui-se em círculo vicioso: reflecte o mundo que a reflecte e que se reflecte nele. O mundo passou a ser visto como um campo de jogos psicológicos e a vida transformou-se num projecto terapêutico. Tudo existe para ter compreensão psicológica, veemência emocional, validação sentimental e recompensa egolátrica.
A responsabilidade ética (o filósofo Emmanuel Levinas afirmou que a nossa responsabilidade ética começa no rosto do outro) foi preterida em benefício do autocontentamento, do autoconhecimento, da auto-estima e da auto-ajuda. A procura de qualquer objectividade recua para dar lugar à afirmação de uma subjectividade total, relativista e arbitrária — e o conhecimento foi levianamente trocado pela opinião.
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