Editorial

Psicocracia

José Manuel dos Santos e António Soares

Há palavras cujo futuro as tornou mais fidedignas do que o presente em que foram ditas. Seja como for o que foi, esta tornou-se uma declaração lendária, que se inscreveu para sempre na tumultuosa história da psicanálise. Essa frase e a circunstância em que foi pronunciada deram ao psicanalista Jacques Lacan motivo para fazer uma narrativa e uma exegese, cheias de consequências doutrinais, no seu texto «La chose freudienne» (Écrits).

Annie Besant e C. W. Leadbeater Thought-Forms, figures 11 (Radiating affection

Annie Besant e C. W. Leadbeater, Formas-pensamento, figura 11 (Afeição radiante), 1905. © Mary Evans Picture Library, Londres © Mary Evans / Scala, Florença

A história pode contar-se como tem sido contada: Sigmund Freud, acompanhado de dois dos seus colaboradores mais próximos, o húngaro Sandór Ferenczi e o suíço Carl Gustav Jung, chegava, pela primeira e única vez, aos EUA. Foi no dia 29 de Agosto de 1909 e a Europa ainda vivia a ilusão áurea de uma bela época que não parecia disposta a aproximar-se do seu fim.

O fundador da psicanálise, esse engenhoso mitógrafo da mente humana, mostrava-se vestido com a elegante exactidão do estilo vienense daqueles tempos memoráveis. A sua distinção no trajar, que não desconhecia um sagaz significado simbólico e não estava isenta de uma subtil melancolia estética, manifestou-se com uma presença muito visível nas fotografias feitas durante esta expedição ao Novo Mundo.

Quando o navio em que viajavam se aproximou, lentamente, do porto de Nova Iorque, na foz do rio Hudson, e logo se avistou a Estátua da Liberdade, com o braço erguendo a chama altiva com que pretende iluminar o mundo e mesmo o Universo, o autor de A Interpretação dos Sonhos e de Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, mas também de Totem e Tabu e de O Mal-Estar na Civilização, exclamou para os seus colegas de missão: «Eles não sabem que nós lhes trazemos a peste.»

Freud tinha sido convidado pelo pedagogo, psicólogo e pioneiro dessas disciplinas, Granville Stanley Hall, para fazer cinco conferências sobre a psicanálise, comemorando com elas os vinte anos da Clark University, em Worcester, Massachusetts, de que o anfitrião era presidente.

O perseverante e imaginativo perscrutador dos complexos, pulsões, reminiscências, motivações e traumas, depositados no fundo escondido do inconsciente humano, detestou a excursão aos EUA e não apreciou a experiência de convívio com a maioria dos cidadãos do vasto país de Abraham Lincoln e de George Washington.

Não gostou da sociedade americana, com a sua competitiva e grosseira brutalidade, e detestou a sua insana voracidade material. Por isso, nunca se mostrou disposto a repetir a viagem — não voltou mais a essas terras violentas e desmedidas, onde a psicanálise se iria tornar uma religião apostólica e um quase obrigatório e generalizado culto salvífico, transformando-se, naturalizada e domesticada, num valioso produto americano de exportação.

Nestes rasteiros e raivosos anos que estamos a viver, trazermos até nós o venenoso comentário de Freud sobre a peste psicanalítica, proferido numa voz portadora de uma amarga ironia trágica, devolve-lhe um inquietante sentido profético. É como se os norte-americanos quisessem retribuir agora a aversão que o médico europeu, fundador da psicanálise, lhes dedicou, fazendo daquilo de que a anunciada peste trata uma ameaça de contágio pandémico e uma onda de insanidade que está a alastrar pelo mundo.

Assim é e assim vemos que é. Assistimos, em todas as horas e minutos, à exibição indecorosa de uma perversão mental com sintomas psiquiátricos públicos que, para compreendermos melhor as suas manifestações exuberantes e conhecermos mais acertadamente as suas causas profundas, nos impõe a urgência do recurso ao pestífero divã.

Pouco a pouco, é como se a necessidade inadiável da peste que aquele trio levou para a América do Norte nos fosse agora restituída e demonstrada, aconselhando o socorro da sua portentosa ambição analítica, mas expondo ao mesmo tempo a sua insuficiência para explicar a natureza e o grau desta agressiva monomania predadora do dinheiro, desta obsessão patológica de poder e desta insana e grosseira alucinação exibicionista, que, num insidioso regime de inimputabilidade, tornado também um irresponsável regime de impunidade, estão a poluir o mundo e a empurrá-lo para o abismo.

Todos os dias, nas televisões e nos jornais, dos órgãos de comunicação mais sisudos aos mais ligeiros, dos mais sofisticados aos mais sensacionalistas, surge uma pergunta: como foi possível a demência ter-se apropriado dos mais altos comandos de um Estado dominante e ter-se instalado nos centros do poder mundial mais decisivos e, a partir deles, ter espalhado o caos por toda a parte? Como foi possível, mesmo depois de permanentes ostentações de loucura perversa, repetidas quotidianamente ao longo dos anos, e a prática de actos de delírio psicótico, que uma multidão de gente continue a aplaudir furiosamente das bancadas, reais e virtuais, o que se passa na desvairada arena deste novo e global coliseu romano?

Do mais exibicionista dos gladiadores deste circo podemos dizer aquilo que o narrador de um romance do escritor norte-americano Philip Roth, astuto cultor do humor negro e perspicaz conhecedor do seu país e do seu povo (se estivesse vivo, que admirável romance escreveria sobre a América de hoje!), dizia de uma das suas personagens: «Tudo o que tinha funcionado para fazer dele o que ele era não fazia actualmente mais do que dar-lhe o ar de um louco.»

Por todo o lado, a todas as horas do dia e da noite, a política, a geopolítica, a economia e a sociologia são desapossadas do seu vocabulário clássico e das suas metodologias e instrumentos tradicionais de análise, que se viram abundantemente — e porventura inevitavelmente — substituídos pelo léxico das patologias psiquiátricas e dos transtornos mentais mais assustadores e radicais.

Do antigo «tudo é político» passámos ao moderno «tudo é psicológico». Este avassalador movimento actual de psicologização da política, justificado e imposto, a um ritmo trepidante, pelo espectáculo diário do delírio individual, da degradação colectiva e da decadência civilizacional, vem, em todo o caso, culminar um longo processo de psicologização do mundo e da vida, em que todos os acontecimentos, fenómenos, casos, estados e situações são revertidos e reduzidos a aspectos psicológicos, psiquiátricos e psicanalíticos, nos quais tudo se compreende e explica por traumas, tiques, complexos, transtornos, distúrbios, emoções, pulsões, sensações e sentimentos primários ou secundários.

A propósito de tudo e de nada se fala, em sentido literal ou metafórico, real ou figurado, de neurose, psicose, esquizofrenia, paranóia, depressão, mania, alucinação, ansiedade, stress, stress pós-traumático, burnout, trabalho de luto, complexos de superioridade e de inferioridade, fobias e filias, histeria, sadismo, masoquismo, perturbação bipolar, hiperactividade, défice cognitivo e de atenção, transtorno obsessivo-compulsivo, fobia social, síndrome de pânico, sentimentos negativos, tabu, fetichismo, parafilia, catarse, castração, complexo de Édipo e morte do pai, síndrome de Estocolmo.

Ou também de sexualidade, transferência e contratransferência, deslocamento, dissociação, espelhamento, fixação, frustração, gatilho, perversão, pressão, pulsão, denegação, doenças psicossomáticas, somatização, sintomas comportamentais, comportamentos tóxicos, síndrome de borderline, autismo, demência senil, vitimização, empatia, auto-análise, introversão, recalcamento, reversão, ressentimento, self, ego, euforia, disforia, culpa, sublimação, manipulação, mindset, monomania, mitomania e mentira patológica ou compulsiva, mindfulness, libido, megalomania, narcisismo, egomania, voyeurismo, exibicionismo.

Perante este caudal ininterrupto de psicologismos com a sua linguagem tantas vezes abastardada, transformada numa gíria abusivamente elástica e não raro sem propriedade ou adequação àquilo que quer nomear, falta-nos, ao menos, um inteligente humor irónico ou sarcástico, como aquele que levou um dia o escritor Karl Kraus a afirmar: «A psicanálise é aquela doença mental que se toma pela sua terapia.» Ou Michel Foucault a dizer: «Somos a única civilização em que se paga a alguém para nos ouvir fazer confidências sobre o nosso sexo.» Ou, num registo epistemológico, as alegações críticas de Karl Popper que, recorrendo ao princípio da falseabilidade, negam à psicanálise o pretendido estatuto de ciência.

As redes sociais são o espelho pouco mágico desta fundamental psicologização. Acresce que esta tendência imparável é ainda mais acelerada («a caridade começa em casa», diz o provérbio) pela exibição demencial, no palco do mundo, dos donos dos sistemas, das redes e das tecnologias de informação, de comunicação, de criação e de controlo, os tecno-oligarcas, os novos senhores feudais, os jogadores dostoievskianos de todos os jogos. Esses imperadores tecnológicos querem poder poder tudo para em tudo mandarem e de tudo obterem um lucro torrencial, garantindo, pelos seus portentosos, inéditos e incontrolados meios, mecanismos e instrumentos, uma servidão voluntária ou involuntária, consciente ou inconsciente, directa ou indirecta, activa ou passiva.

Para estes domadores do mundo, a moral é um anacronismo destituído de actualidade, a verdade é a mentira que lhes for necessária ou útil, o respeito pelo outro é uma ideia perigosa e pouco lucrativa. Para eles, o dinheiro é a medida — a única! — de todas as coisas e de todas as pessoas, a desigualdade e exclusão são uma condição sine qua non do êxito; o amor é uma oportunidade de privatização, de propriedade e de posse; a amizade é uma associação cúmplice de interesses, uma satisfação produtiva de desejos e a obtenção conveniente de vantagens e de proveitos; a política (e também a religião) é um instrumento submisso de poder, controlo, instrumentalização, normalização, captura e vigilância para alcançarem os seus desígnios; a natureza é uma fonte domesticada e inesgotável de abastecimento e de consumo; a cultura é uma ameaça de tédio e um gasto inútil e dispensável de tempo; a vida é uma guerra sem lei e sem fim.

Com eles, é como se estivéssemos a assistir, em indecorosa e invasiva permanência, à exibição de um filme de série B de péssima qualidade, no qual, espantados, ofendidos e humilhados, vemos o regresso a um mundo primitivo, cheio de violência e de brutalidade, carregado de som e de fúria. Num cenário percorrido pelo kitsch triunfante e triunfal, a existência é garantida por sucessivos golpes assassinos, é sustentada pela celebração de insolentes ritos venatórios e é assegurada por incansáveis rituais sanguinários.

Como disse recentemente o escritor escocês Irvine Welsh, autor de Trainspotting, «aqueles que representam o 1% da população detêm todos os meios de comunicação, todo o dinheiro e tudo o mais, acreditando-se deuses. Esses oligarcas rodearam-se de bajuladores que repetem os seus absurdos em seu nome, enquanto os que se encontram na base da pirâmide social viram os seus direitos serem suprimidos».

Com o seu propósito totalizador de explicação universal, a excessiva psicologização do mundo e da vida, que se foi ampliando e invadiu todos os domínios, tem levado a uma derrota do pensamento. A psicologização institui-se em círculo vicioso: reflecte o mundo que a reflecte e que se reflecte nele. O mundo passou a ser visto como um campo de jogos psicológicos e a vida transformou-se num projecto terapêutico. Tudo existe para ter compreensão psicológica, veemência emocional, validação sentimental e recompensa egolátrica.

A responsabilidade ética (o filósofo Emmanuel Levinas afirmou que a nossa responsabilidade ética começa no rosto do outro) foi preterida em benefício do autocontentamento, do autoconhecimento, da auto-estima e da auto-ajuda. A procura de qualquer objectividade recua para dar lugar à afirmação de uma subjectividade total, relativista e arbitrária — e o conhecimento foi levianamente trocado pela opinião.

Josef Forster Selbstporträt (Mann ohne Schwerkraft oder Luftgänger) [Auto-retrato (Homem sem gravidade ou aquele que anda no ar)], 1916–1921

Josef Forster, Auto-retrato (Homem sem gravidade ou aquele que anda no ar), 1916–1921. © Prinzhorn Collection, University Hospital Heidelberg

Disse Kant que a democracia é o governo das leis e não o governo dos homens, porque o governo dos homens leva ao despotismo e à tirania. Hoje, a democracia está acossada e pressionada para deixar de ser um regime com fundamentação, racionalidade, regulação, autocontenção, respeitando a separação de poderes e funcionando com contrapoderes e checks and balances. Pelo contrário, está a transformar-se num reality show contínuo, feito da consagração adulatória e submissa do «chefe», e da exploração sensacionalista e grotesca de preconceitos básicos, arcaísmos obscuros, medos irracionais, superstições ancestrais, emoções primárias, instintos primitivos.

A coerência fundamental e fundadora da democracia, estabelecida e desenvolvida na fidelidade aos seus princípios e valores, foi assaltada pela implantação de um sistema premeditado, nómada e oportunista de manipulação propagandística, extorsão emocional e paradoxos lógicos, dos quais o mais absurdo é o que dá pelo nome de «democracia iliberal».

No grande teatro da política anti-racional, populista e demagógica, o «nós» foi trocado pelo «eu», o «vós» pelo «eles», as ideias pelas percepções, os conceitos pelo marketing e pela imagem, os valores pelos instintos, as avaliações pelas emoções e pelos sentimentos, os propósitos pelas seduções, os programas pelas personalidades, as leis pelas lideranças, a cidadania pelo espectáculo, os cidadãos pelos públicos e pelas clientelas, os direitos pelos resultados, os compromissos pelas motivações, a responsabilidade pelo sucesso e pela felicidade, a solidariedade pelo salve-se quem puder.

É por isso que esta psicologização omnipresente é inseparável de uma mercantilização globalizadora, sempre em crescendo, com as suas estratégias (e os seus estratagemas) de marketing e as suas técnicas (e as suas tácticas) de vendas. A psicologização e a mercantilização potenciam-se, pertencem-se e reforçam-se mutuamente, tendo levado à apropriação do Estado pelos três «dês» demenciais do domínio, do delírio e do dinheiro. A eles, juntar-se-ão, se não houver resistência e oposição, outros «dês»: o do défice democrático e talvez mesmo o da ditadura.

É claro que, antes da nossa, outras épocas tiveram a tentação visível de psicologizar o mundo e os que nele viveram, morreram, trabalharam, criaram, amaram, odiaram, sofreram, gozaram, perderam e ganharam. A crescente importância do romance psicológico (também da novela e do conto) na história da literatura dos últimos dois séculos é disso uma prova indesmentível. Interpretar essa acrescida relevância à luz do que está a acontecer nos nossos tempos pode dar-nos a consciência de uma história evolutiva que é portadora de uma tendência que se foi agigantando e que não pode ser compreendida sem se ter em conta as mudanças políticas, sociais e culturais do tempo que a ela corresponde, com a ascensão do individualismo na sociedade burguesa e na economia capitalista.

Para muitos historiadores da literatura, reconhecendo embora a engenhosa e ancestral perspicácia psicológica do Decameron, de Boccaccio, do Dom Quixote de la Mancha, de Cervantes, e do grandioso, complexo e inesgotável teatro de Shakespeare, a pré-história deste género literário começa em 1678, com Madame de Lafayette e a sua obra-prima A Princesa de Clèves, seguindo-se, um século depois, As Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos, e Anton Reiser, de Karl Philipp Moritz.

Esta nova concepção de romance foi-se desenvolvendo, atingindo, no decurso do século xix e ao longo do século XX, altos cumes artísticos e alcançado grandes descobertas epistemológicas, que anteciparam prodigiosamente o conhecimento do complexo funcionamento da mente humana e dos comportamentos individuais e sociais, pressentindo o que as disciplinas da psique e das neurociências vieram a postular nos tempos posteriores, até chegar ao nosso.

No século xix, são, entre tantos outros, os casos de O Vermelho e o Negro, de Stendhal, O Pai Goriot, de Balzac, Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë, Jane Eyre, de Charlotte Brontë, Diário de Um Louco, de Gógol, Crime e Castigo e Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski, Anna Karénina e A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, as peças e os contos de Tchékhov, Retrato de Uma Senhora ou O Que Maisie Sabia, de Henry James.

Na primeira metade do século XX, apareceram obras tão novas e decisivas como O Coração das Trevas, de Conrad, Filhos e Amantes, de D. H. Lawrence, Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, Os Moedeiros Falsos, de André Gide, Ulisses, de James Joyce, Mrs. Dalloway, Rumo ao Farol ou As Ondas, de Virginia Woolf, Tonio Kröger ou A Morte em Veneza, de Thomas Mann, Terna É a Noite e O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, Um Eléctrico Chamado Desejo ou Jardim Zoológico de Cristal, de Tennessee Williams.

De então para cá, a ficção universal não mais cessou, não raro com uma autocontemplação acrítica e um calculismo interesseiro, de fazer da psicologia o terreno onde semeia e colhe as suas histórias, o vasto e obscuro antro onde procura os seus reféns e as suas aventuras, os seus casos e os seus crimes, os seus esconderijos e os seus tesouros. Assim, dá à sua voz as palavras que enchem as páginas dos livros de frases inacabadas, exclamações incompreendidas, medos agitados, confissões incertas, suspiros sexuais, insónias alucinadas, orgasmos falhados, sobressaltos alvoroçados, impotências humilhantes, taras obsessivas, frustrações infelizes, fugas atormentadas. A lista desses livros em expansão contínua tornou-se o mapa de um império sobre o qual, como o de Carlos V, o sol não se põe.

Annie Besant e C. W. Leadbeater Thought-Forms

Annie Besant e C. W. Leadbeater, Formas-pensamento, figura 39 (Simpatia e amor por todos, mas influenciada pelo pensamento oriental), 1905 © Mary Evans Picture Library, Londres © Mary Evans / Scala, Florença

Na ópera, a psicologia tem dado à música e aos libretos temas, motivos, personagens e situações que tramam o enredo e criam a atmosfera dramática, melodramática ou cómica. Do Don Giovanni e Così fan tutte, de Mozart (ele antes dos outros), a Electra e O Cavaleiro da Rosa, de Richard Strauss, da Tosca e Turandot, de Puccini, ao Macbeth e Otelo, de Verdi (que teve a ambição de fazer um Rei Lear, sem afinal o ter feito), de Lucia di Lammermoor, de Donizetti, a Wozzeck, de Alban Berg, de A Sonâmbula, de Bellini, a Erwartung, de Arnold Schönberg — os palcos vêem passar por eles a loucura, o crime, a intriga, a suspeita, a dissimulação, o embuste, a usurpação, a avidez, a rivalidade, a raiva, o roubo, o ardil, a manha, a malícia. Também a traição, a cobiça, a vingança, a disputa, o desprezo, o desvario, o devaneio, o desatino, o ciúme, a violação, a indiferença, o amor, o ódio. E o choro, o grito, o uivo, o riso, o sorriso, o esgar, o gesto, a mímica, o ademane, o meneio, o bocejo, o balbucio, o brado.

Com a voz e a representação de Maria Callas, cantora e actriz genial, em alguns dos seus auges dirigida cenicamente por Visconti, as personagens e as obras revelaram os seus mais fundos segredos psicológicos com uma intensidade dramática e musical que mudou a história da ópera.

Nas artes plásticas, os temas psicológicos, nas suas escalas e variações, deram formas, figuras e cores a várias obras de muitos artistas. De Bosch a Hopper, de Vermeer a Hammershøi, de Leonardo a Hockney, de Dürer a Munch, de Lucas Cranach a Delvaux, de Bruegel a de Chirico, de Goya a Marlene Dumas, de Géricault a Beuys, de von Kaulbach a Artaud, de Ensor a Aurélia de Sousa, de Alfred Kubin a Henri Michaux, de Grosz a Kiefer, de Egon Schiele a Max Ernst, de Ticiano a Columbano, de Bernini a Dalí, de Blake a Dubuffet, de Velásquez a Jorge Molder, de van Gogh a Louise Bourgeois, de Paula Rego a Ron Mueck, do gótico ao romantismo, do renascimento ao barroco, do impressionismo ao expressionismo, do surrealismo à arte bruta, das doenças mentais aos labirintos de alma, da loucura à melancolia, dos ex-votos às vanitas, dos transes místicos aos transportes alucinogénios, das fúrias criminosas aos fervores épicos, dos êxtases amorosos aos furores sexuais, no ser humano e no ser humano no mundo, a arte olhou os enigmas mais obscuros da vida e os mistérios mais secretos da mente e do corpo, fazendo desse seu olhar um encontro da luz com a sombra, da realidade com a imaginação, da verdade com a ilusão, do visível com o invisível, do escondido com o mostrado, da linha recta com a curva.

Sobre os temas e motivos que dão aos homens e às mulheres o seu voo (às vezes, de Ícaro e de Nietzsche) e o seu abismo (às vezes, de Sade e de Elizabeth Báthory), o curador Jean Clair fez três exposições memoráveis: Vienne 1880–1938: l’apocalypse joyeuse, L’âme au corps, arts et sciences 1793–1993 e Mélancolie: génie et folie en Occident.

O cinema é uma lente. Nele, o que se mostra aproxima-se ou afasta-se de nós. A mente e os seus acontecimentos fazem-se expressão, olhos, rosto, corpo, movimento, gesto, tremor, situação, relação. Nele, a psicologia é uma visão, uma vidência, uma evidência. Porque, como disse Deleuze, o cinema não se limita a contar histórias — produz imagens que geram pensamentos.

Alguns cineastas levaram essa produção ao limite. Fizeram do ecrã uma película entre nós e o que não sabemos, ou não suportamos, sobre nós mesmos. Filmaram a identidade a desdobrar-se e a fracturar-se, como em A Máscara, de Ingmar Bergman, A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski, Inland Empire, de David Lynch, ou A Mulher que Viveu Duas Vezes, de Alfred Hitchcock. Filmaram o desejo a devorar quem o sente, como em Possessão, de Zulawski, Vergonha, de McQueen, Repulsa, de Polanski, ou A Vida não é um Sonho, de Darren Aronofsky. Filmaram as relações humanas como campo de batalha ou de ruínas, como em Uma Mulher sob Influência, de John Cassavetes, Melancolia, de Lars von Trier, Amor, de Michael Haneke, Annie Hall, de Woody Allen, A Pior Pessoa do Mundo, de Joachim Trier, ou Aquele Inverno em Veneza, de Nicolas Roeg. Filmaram a memória e a perda a refazerem o real, como em O Despertar da Mente, de Michel Gondry, Uma História de Amor, de Spike Jonze, O Sabor da Cereja, de Abbas Kiarostami, ou Viagem a Tóquio, de Yasujiro Ozu. Filmaram a verdade a multiplicar-se, a contradizer-se e a desaparecer, como em Rashomon, de Akira Kurosawa, Spider, de David Cronenberg, ou O Mentor, de Paul Thomas Anderson. Filmaram a solidão a transformar-se em violência, como em Taxi Driver, de Martin Scorsese.

A diferença das épocas passadas para a nossa é que o tempo em que vivemos fez da psicologização uma hipertelia egocêntrica, uma cosmovisão redutora e uma tagarelice incessante. Isso provocou, como dissemos e nunca é demais voltar a dizê-lo, danos irreversíveis na política, que se transformou num assunto de líderes e de lideranças, na economia, que se tornou uma performance financeira, na sociedade, que se tornou um ringue de confronto competitivo e sem coesão, e na cultura, que passou a ser uma rivalidade e concorrência de egos, subjectividades, prémios, apresentações, lançamentos, vernissages e certames, tão longe, por exemplo, da impessoalidade defendida por T. S. Eliot ou da despersonalização de Fernando Pessoa.

Mais: tudo ou quase tudo, na cultura, perdeu a ressonância cósmica, o repto moral e o alcance transcendental, tão presente, por exemplo, nas tragédias gregas de Ésquilo, Eurípides e Sófocles, na Divina Comédia, de Dante, nas tragédias de Shakespeare, no Paraíso Perdido, de Milton, na Fedra, de Racine, em A Ilusão Cómica, de Corneille, em A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, de Sterne, no Fausto, de Goethe, ou na Guerra e Paz, de Tolstói.

Perdeu-se esse vasto e intenso ímpeto metafísico, que foi trocado pelo melodrama existencial, o psicodrama conjugal, o microcosmo individual, a novela familiar, o kitsch sentimental, a econometria sexual, a ansiedade estética, o cuidado corporal, o fetichismo desportivo, a ambição mundana, a cupidez financeira, o sucesso superficial, a fama fácil, a insignificância cultural, a saturação comunicacional, o deserto afectivo, as disputas gregárias, as inseguranças psicológicas, os pequenos desastres domésticos, os fiascos profissionais e os falhanços sociais.

Se observarmos, com atenção e discernimento, o modo como «esse laboratório do fim» que foi a Viena de Sigmund Freud, de Karl Kraus, de Ludwig Wittgenstein, de Hermann Broch, de Robert Musil, de Hugo von Hofmannsthal, de Arthur Schnitzler, de Stefan Zweig, de Georg Trakl, de Gustav Mahler, de Gustav Klimt, de Arnold Schönberg, de Anton Webern, de Alban Berg, de Adolf Loos e, mais tarde, de Elias Canetti, de Karl Popper, de Ernst Gombrich, respondeu à crise do fim do Império Austro-Húngaro e a maneira como a cultura do nosso tempo responde à crise que estamos a viver, sobretudo no Ocidente, ficamos esclarecidos sobre as causas e as razões do que nos está a acontecer.

Byung-Chul Han, um filósofo em cuja obra se reconhece, mais do que a revelação de um pensamento forte e original, o talento para reunir, associar e comunicar o pensamento alheio, esclarecido e esclarecedor, deu aos seus livros títulos que formam um catálogo muito eloquente da assustadora situação em que nos encontramos: A Sociedade do Cansaço, Do Desaparecimento dos Rituais, A Salvação do Belo, A Agonia de Eros, A Crise da Narração, No Enxame, Entretenimento e Paixão na História do Ocidente, Sobre o Poder, Rostos da Morte, A Expulsão do Outro, Topologia da Violência, Psicopolítica, A Sociedade Paliativa, Capitalismo e Pulsão de Morte, Infocracia. Este catálogo é também um cartaz da sociedade do espectáculo em que nos recreamos e deprimimos e que não pára de gritar: «The Show Must Go On!»

Em Viena, a uma grande crise foi dada uma resposta inaudita e duradora — levantando-se sobre um trágico ocaso, apareceu um novo amanhecer. Esse pensamento surpreendentemente genesíaco foi como um ouro primacial e valioso milagrosamente extraído da mina extenuada do fim. Teve ele enormes consequências no avanço da criação, do conhecimento e da consciência. Teve ele imensos efeitos sobre o modo como passámos a olhar o mundo, a linguagem, o amor, o ódio, a sexualidade, o sonho, a beleza, a fealdade, o ser humano, a filosofia, a história, a política, a economia, a cultura, a arte, a literatura, a ciência, a cidade, a sociedade, a religião, a vida e a morte.

Agora, neste tempo, que já nem sequer temos o direito de chamar nosso, no qual uma crise, feita de muitas e repetidas crises, todos os dias, perante os nossos olhos sonâmbulos, mostra o seu rosto cavernoso, a resposta que damos é tímida, medíocre, superficial, irresponsável e efémera. Podemos, por isso, dizer que a resposta a esta crise, profunda nas suas raízes e vasta nas suas consequências, revela aquelas tremendas e humilhantes fraquezas que provocaram, ou não conseguiram impedir, a crise a que querem dar resposta e a doença a que desejam dar cura.

Marguerite Yourcenar mostrou uma aversão aos excessos de psicologismo na literatura e na vida. Preferia-lhes uma sabedoria mais antiga e mais universal. Como disse ela, com uma lucidez crua, cruel e cortante, num magnífico ensaio sobre a História Augusta e a decadência do Império Romano:

Toyen and Jindřich Štyrský at a Joint Exhibition [Toyen e Jindřich Štyrský numa exposição colectiva], 1931

Autor desconhecido, Toyen e Jindřich Štyrský numa exposição colectiva, 1931. © Wikimedia Commons

Nós, sempre tão míopes quando se trata de apreciar a nossa própria civilização, os seus erros, as suas possibilidades de sobrevivência e a opinião que dela terá a posteridade, não temos o direito de nos admirarmos que os romanos dos séculos iii ou iv se tenham contentado até ao fim com vagas meditações sobre as vicissitudes da Fortuna, em vez de interpretarem mais claramente os sinais do fim do seu mundo. Nada mais complexo do que a curva de uma decadência.

[…] é a condição do próprio Homem, a noção mesma da política e do Estado que a História Augusta põe em causa — essa massa deplorável de lições mal aprendidas, de experiências mal feitas, de erros tantas vezes evitáveis e nunca evitados de que ela oferece um modelo particularmente perfeito, mas que, sob uma ou outra forma, enchem tragicamente toda a História. Nós estamos mais bem informados sobre a maneira como uma civilização acaba por exaurir-se. Tal não se fica a dever a abusos, vícios ou crimes que são de todos os tempos […]. Os males de que se morre são mais específicos, mais complexos, mais lentos, às vezes mais difíceis de descobrir ou definir. Aprendemos, no entanto, a identificar aquele gigantismo que não passa de falsificação malsã de um crescimento, o desperdício que leva a acreditar na existência de riquezas que já se não têm, a abundância tão depressa substituída pela escassez à mínima crise, os divertimentos organizados a partir de cima, aquela atmosfera de inércia e de pânico, de autoritarismo e de anarquia, as reafirmações pomposas de um grande passado no meio da actual mediocridade e da presente desordem, as reformas que não passam de paliativos e os acessos de virtude que só através de purgas se manifestam; o gosto do sensacional que acaba por fazer triunfar a política do pior, os poucos homens de génio mal secundados, perdidos na multidão dos habilidosos grosseiros, dos loucos violentos, dos honestos desastrados e dos fracos prudentes. O leitor moderno está em sua casa na História Augusta.

Esta leitura tão arguta de uma obra e de um tempo passado é também uma advertência e um alerta para o nosso tempo presente.

Ao dedicar o seu dossier desta edição ao tema da psicologização do mundo e da vida, a Electra observa, analisa e interpreta, sob diversos pontos de vista e com a colaboração de autores variados, um sintoma fundamental da época em que vivemos uma vida todos os dias atravessada por um rio de palavras que a nomeiam — sendo que, para essa prolixa nomeação, a peste de que falava Freud foi aumentando o seu poder de classificação e de caracterização.

A «omnipsicologização» pode afastar e falsificar os juízos éticos. Um psicanalista disse recentemente que, se chamamos louco a um poderoso que está a usar grotescamente o seu poder sobre o seu país e o mundo, estamos a dizer que ele é inimputável. Se dissermos que ele é psicopata, estamos a acusá-lo e a responsabilizá-lo pelo que faz e manda fazer.

Tanto como do louco e do normal, de que não nos cansamos de falar, é do mal e do bem que também devemos urgentemente falar, pois apenas assim podemos avaliar e ajuizar para aceitarmos ou recusarmos.