Assunto

O americano como sintoma

Avital Ronell

Lançando um olhar psicanalítico sobre a América, verificando o culminar de uma «trajectória de destruição flagrante», a filósofa americana Avital Ronell, nascida em Praga, filha de diplomatas israelitas, munida dos instrumentos de uma patologista social, analisa com grande audácia um conjunto de sintomas e obsessões que precisam de ser entendidos com base em premissas filosóficas de Hannah Arendt e Martin Heidegger.

Tenho medo dos americanos.
David Bowie

Winslow Homer, O veterano num novo campo

Winslow Homer, O veterano num novo campo, 1865. © The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque

Em Luto e Melancolia, Freud descreve o sofrimento de que somos tomados — incluindo os surtos maníacos em torno de um objecto que nos escapa — como algo que emana de entidades mortais e irrecuperáveis que não se limitam à perda humana. A pátria dolorosamente expropriada (ou, mais próximo de Celan, a esfera circunscrita de uma árida não-pertença), à medida que se vai afastando, abre crateras no nosso ser. Lamentamos, escreve Freud, a perda de um país, o que denota um sentimento de luto que nos priva da nossa estabilidade com a mesma força com que nos atinge a perda de um amigo a cujo destino efémero continuamos ligados. Ou, abalados e paralisados, sofremos a incapacidade de fazer o luto, ou entramos rapidamente num processo de negação. A perda da pátria, seja por violência ou por erosão lenta, levada pelos ventos do «algo podre» de Shakespeare, tem o efeito desestruturante de largar uma identidade provisória e um frágil ponto de ancoragem. Fortinbras questiona o que nos liga à pátria, um pedaço de terra retalhada pelo qual os mortais lutam numa cegueira tensa. Hoje em dia, os laços de apego, em grande medida ilusórios, ao que ainda concebemos como Estado-nação, ainda que sob realinhamentos pós-nacionais, levam-nos a questionar com renovada urgência como é que bastiões outrora poderosos se voltam contra si próprios, autodestruindo-se, e como gerem as suas respostas auto-imunes ou recaem na tentação suicida. Aqui aprendemos uma lição com Flaubert: alguns suicídios são feios, malogrados e quase sem sentido, de longa duração. Não são inspirados por Empédocles nem mutilados como os de Werther ou Mishima, mas estão mais próximos da devastação de Sylvia Plath; não deixam nada para recuperar, nem mesmo um símbolo ritualístico da mortalidade.

Olhando para uns EUA transtornados, procuro compreender como os ideais (desde o início distorcidos e propagados de forma enganosa) de uma nação poderosa, embora profundamente imperfeita, foram corroídos, em parte por forças evitáveis e pelo abandono flagrante dos princípios básicos das estruturas institucionais, das figuras de autoridade e dos mecanismos de controlo, em parte por um fanatismo inconsciente tanto económico como religioso, ou quaisquer que sejam os laços históricos que continuam a prender o sujeito nacional, apesar de um distanciamento lúcido. Forçada a testemunhar a violência perpetrada contra instituições e corpos vizinhos sob o comando da horda malévola de palhaços do horror, a América tornou-se «irreconhecível», mas porventura reduzida à sua essência, pavoneando-se sob uma autocompreensão perigosamente acelerada que parecia apenas manter-se em parte latente, como se tivesse varrido a ignomínia da supremacia branca sobre a qual o país se construiu. Para mudar momentaneamente de registo, a América modificou os termos do seu ser-para-a-morte.

Em pleno renascimento convulsivo da supremacia branca, nunca totalmente subjugada, os vorazes detentores do poder unem-se em torno de ficções sintomafastidiosas de renovação, um núcleo de impulsos tribais enquadrados por uma soberania vacilante e por níveis de ganância kafkiana que criaram, com requinte dialéctico, a figura esquálida do Artista da Fome, consumido por uma necessidade insaciável. A forma como a América se alimenta não deve escapar à análise — baseada como é em comida de plástico, salsichas alemãs e hambúrgueres, batatas fritas substituídas pelas «batatas da liberdade», drogas, dependência de tecnologia mediática, doses excessivas de ódio e grandes porções de «países minúsculos» sobre os quais escreve Hannah Arendt. O consumo de fast food exibido por Donald Trump, a sua colecção predatória de troféus dourados e até mesmo o seu vício da televisão não devem ser deixados de fora do retrato do narcisista insaciável. Ele é o déspota cada vez mais inchado que não consegue purgar — ou a quem nós, num bloqueio crucial, não conseguimos purgar. Desde o quadro fornecido pelo Nietzsche gastrónomo, com uma pequena ajuda de Platão e de Freud, os hábitos alimentares estão em cima da mesa da cultura politizada. Em todo o caso, servem de base ao populismo de Trump, alimentado pelo que ele devora com avidez, bem como pelas suas recusas fóbicas, incluindo o menu com sotaque francês para o qual Nietzsche mudou estrategicamente ao rejeitar, por sua vez e por preferência, a cozinha germânica. Mas afastemo-nos da mesa, conscientes de que ela nos dá pistas sobre tipos de introjecção e assimilação predatória.

"Lamentamos, escreve Freud, a perda de um país, o que denota um sentimento de luto que nos priva da nossa estabilidade com a mesma força com que nos atinge a perda de um amigo a cujo destino efémero continuamos ligados."

Num livro recente, dedicado ao que Lacan chama a symptax característica da «América», o meu principal objectivo foi investigar, com uma métrica psicanalítica, em que grau a América extraiu de premissas filosóficas a forma peculiar dos seus locais de desastre e destruição1. A minha análise inclui a negação crónica das raízes europeias, da ascendência africana e de outras derrotas sobre as quais se calibra, hoje em dia, uma trajectória de destruição flagrante. Na medida em que ainda tenho domínio sobre os imperativos intrínsecos de reflectir sobre as inflexões e os tropos americanos, tornou-se necessário, entre outras considerações críticas, rever o campo inescapável das aporias irritantes. À luz de uma história especulativa, o trabalho de luto que tem a América como objecto pode coadunar-se, nesta versão, com uma vista aérea reduzida mas intencional, com a precisão metonímica com que Freud liga a gramática do flirt ao país, algo que não abordei no livro: a certa altura, a América encena o roçar, sério/não sério, de uma alteridade que carrega uma nova dobra de desejo, uma relação de auto-anulação com o mundo que se limita a flirtar com a essência e os particularismos tradicionais da solidez nacional. Para sublinhar a questão da rápida alternância de identidades, Freud descreve o momento, no seu tratamento da neurose obsessiva, em que fala dos camiões que costumam transportar e deslocar casas inteiras nas auto-estradas americanas. A figura do desenraizamento tecnológico ganha preponderância, demonstrando uma capacidade de alterar identidade e substância, perturbando uma noção de enraizamento ligada ao lugar e à mística da Heimat, repleta de tropologias de produção própria. Os americanos podem sair de casa de um dia para o outro, pondo de lado uma identidade outrora usada. Seguem a corrente como surfistas com um anseio por laços superficiais, ainda que passageiros. Daí a proliferação de canções sobre voltar à estrada e de arquivos cinematográficos obcecados por perseguições e fugas automobilísticas — a marca móvel do autos, o desenvolvimento da liberdade de um si-mesmo e as suas rotas de fuga sinalizadas. Em certos momentos, Nietzsche aproveita essa visão da leveza americana perante o fardo histórico que representa a ameaça iminente da tradição que tem travado os europeus na concretização das suas fantasias de fuga.

Puppies Puppies (Jade Guanaro Kuriki-Olivo), Liberté Morte [Liberdade morta]

Puppies Puppies (Jade Guanaro Kuriki-Olivo), Liberté Morte [Liberdade morta], 2025. © Cortesia da artista e Balice Hertling, Paris © Fotografia: Aurélien Mole

"Os laços de apego, em grande medida ilusórios, ao que ainda se entende como detentor de características de Estado-nação, levam-nos a questionar com renovada urgência como é que bastiões outrora poderosos se voltam contra si próprios."

Além do inevitável olhar psicanalítico, a minha reflexão foi estimulada pela crítica de Heidegger à América, cujas premissas ele próprio ou os seus comentadores nunca questionaram. Analisando a sua repulsa pela América e a sua capacidade de usar a hipercomplacência de Rilke ao declarar a América uma monstruosidade, constatei que a hostilidade desenfreada de Heidegger se tornara o sintoma de um problema de ordem filosófica que exigia uma análise cuidadosa, avaliando o impasse entre os modos alemão e americano de auto-apropriação e o pendor para a sobredeterminação. Na altura, eu estava a ler o ensaio de Musil «O alemão como sintoma», e via os EUA como um caso extremo da metafísica ocidental, uma influência maligna intrusiva nas articulações planetárias que sublinhava a precariedade dos planeamentos globais. Algumas destas reflexões surgiram antes da reeleição de Donald Trump. A necessidade de um estudo deste tipo ocorreu nos abalos traumáticos de uma revelação niilista, não muito longe das margens corrosivas das avaliações vazias que nós, germanistas, associamos a O Homem sem Qualidades. Para Heidegger, a «América» representava o excesso tecnológico, uma fortaleza esvaziada de espírito e rejeitada pelos deuses. Marcada pelo seu afastamento, a «Europa» de raízes gregas recordou os deuses e os seus emissários, possuía casas onde as divindades ainda habitavam.

Em contrapartida, a América accionou uma enorme máquina de demolição, criando terrenos baldios e complexos habitacionais sombrios numa profusão sem alma. Aqui sigo o jogo de aspas de Heidegger, invertendo o sentido de «espírito» na sequência de Derrida. Seja como for, Heidegger dificilmente está em posição de prescrever memórias sagradas, mesmo que tenha, de certa forma, persuadido Hölderlin a co-assinar o contrato de arrendamento de santuários impregnados de divindade. Ainda assim, algo na América evoca uma corrida desenfreada ao dinheiro — ao mesmo tempo ímpia e com excesso de peças de substituição de Deus, que representa a invasão exagerada de um tipo específico de cristianismo e a rapacidade com que tenta anexar o judaísmo. Em termos freudianos, a obsessão pelo dinheiro revelou um excesso excrementício, um problema cuja origem atribuo ao sadismo uretral. Os adeptos do MAGA tendem a sonhar com moedas excrementícias; estão de fraldas e são incontinentes, como ficou recentemente demonstrado por Steve Bannon ao urinar sobre si próprio — e sobre todos os outros…

[...]

1. Avital Ronell, America: The Troubled Continent of Thought, Cambridge: Polity, 2024. «O americano como sintoma» é uma versão revista do prefácio da edição francesa (Éditions Klincksieck, a publicar) da colecção «Critique de la politique», dirigida por Michèle Cohen-Halimi.