O que aqui vou contar é a história de uma amizade. Não vou falar de política nem do estribilho «mas ele também fez coisas boas», tantas vezes usado em Itália pelos nostálgicos do fascismo. É a história de dois homens, Benito Mussolini e Pietro Nenni, nascidos na região da Romanha, no centro de Itália, uma terra aparentemente pacata que gerou um ditador fascista e um líder socialista.
Ambos cresceram em povoações separadas por vinte quilómetros e, provavelmente, conheceram-se em 1910, quando Mussolini tinha vinte e sete anos e Nenni dezanove. O futuro líder dos fascistas era, à época, socialista, ao passo que Nenni — que viria a cumprir o mais longo mandato enquanto secretário-geral do Partido Socialista Italiano — era republicano.
Embora militando em partidos diferentes, travaram as mesmas batalhas políticas e, em 1911, tornaram-se vizinhos na pequena cidade de Forli, na Romanha. Encontravam-se e discutiam política, por vezes chegando a vias de facto. Não eram ainda amigos, mas respeitavam-se mutuamente. «Ligava-os o seu temperamento apaixonado», explicou Paolo Mattera, professor catedrático de História na Universidade de Roma Tre. «Os políticos tradicionais eram conferencistas. Nenni e Mussolini eram tribunos.» Mais importante ainda, partilhavam o ódio pela monarquia e pelo clero, e, em 1911, foram encarcerados durante um ano na mesma prisão, depois de protestarem contra a guerra travada na Líbia pelo Reino de Itália. Jogaram às cartas e às damas, e cantaram juntos «A Internacional». Tornaram-se amigos e, durante certo tempo, chegaram a partilhar a mesma cela. As mulheres de ambos também travaram amizade durante as horas de visita e, certa vez, a filha de Mussolini, Edda, fez chichi nas calças de Nenni enquanto este pegava nela ao colo. As famílias tornaram-se tão próximas que Edda começou a tratar Nenni por «tio».
No livro que publicaram em 2015, Mussolini e Nenni. Amici Nemici, Alberto Mazzuca e Luciano Foglietta traçam o relato mais recente da relação entre estes dois homens. (Este livro foi essencial para a escrita deste artigo, e quaisquer citações não explicitamente atribuídas a outras fontes provêm desta obra.) Por alturas do início da Primeira Guerra Mundial, cada um dos dois amigos escreveu acerca do outro:
![Berenice Abbott Portrait of the Artist as a Young Woman [Retrato da artista enquanto jovem], negativo c. 1930 / impressão c. 1950](/sites/fedpelectra/files/styles/a/public/2026-07/scala_A474457.jpg?itok=UPZc1b69)
![Hannah Höch, Man and Machine [Homem e máquina]](/sites/fedpelectra/files/styles/a/public/2026-07/Man_and_Machine_by_Hannah_Hoch%2C_1921%2C_oil_on_canvas_-_Germanisches_Nationalmuseum_-_Nuremberg%2C_Germany_-_DSC02361%20%28website%29.jpg?itok=xLj2Yg0D)

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