Arca de Noé

A incrível história de Benito Mussolini e de Pietro Nenni

Andrea Prada Bianchi

Este ensaio escrito para a Electra dá-nos a conhecer a amizade entre o ditador fascista Benito Mussolini e o resistente antifascista Pietro Nenni, líder do Partido Socialista Italiano. Essa relação nasceu na juventude de ambos e, apesar de tudo o que mais tarde os opôs, teve uma importância consequente na vida dos dois. Narrativa de um tempo convulsivo e perigoso, em que a vida e a morte se jogavam todos os dias, são nela retratados pessoas e acontecimentos que fizeram a história trágica do século XX. O seu autor é o jornalista italiano, residente em Nova Iorque, Andrea Prada Bianchi, que, entre outros, tem colaborado com o Guardian, Le Monde, Foreign Policy e Jeune Afrique.

retratto nenni

Autor desconhecido, Retrato de Pietro Nenni, 1913. © Archivio GBB / Alamy Stock Photo

O que aqui vou contar é a história de uma amizade. Não vou falar de política nem do estribilho «mas ele também fez coisas boas», tantas vezes usado em Itália pelos nostálgicos do fascismo. É a história de dois homens, Benito Mussolini e Pietro Nenni, nascidos na região da Romanha, no centro de Itália, uma terra aparentemente pacata que gerou um ditador fascista e um líder socialista.

Ambos cresceram em povoações separadas por vinte quilómetros e, provavelmente, conheceram-se em 1910, quando Mussolini tinha vinte e sete anos e Nenni dezanove. O futuro líder dos fascistas era, à época, socialista, ao passo que Nenni — que viria a cumprir o mais longo mandato enquanto secretário-geral do Partido Socialista Italiano — era republicano.

Embora militando em partidos diferentes, travaram as mesmas batalhas políticas e, em 1911, tornaram-se vizinhos na pequena cidade de Forli, na Romanha. Encontravam-se e discutiam política, por vezes chegando a vias de facto. Não eram ainda amigos, mas respeitavam-se mutuamente. «Ligava-os o seu temperamento apaixonado», explicou Paolo Mattera, professor catedrático de História na Universidade de Roma Tre. «Os políticos tradicionais eram conferencistas. Nenni e Mussolini eram tribunos.» Mais importante ainda, partilhavam o ódio pela monarquia e pelo clero, e, em 1911, foram encarcerados durante um ano na mesma prisão, depois de protestarem contra a guerra travada na Líbia pelo Reino de Itália. Jogaram às cartas e às damas, e cantaram juntos «A Internacional». Tornaram-se amigos e, durante certo tempo, chegaram a partilhar a mesma cela. As mulheres de ambos também travaram amizade durante as horas de visita e, certa vez, a filha de Mussolini, Edda, fez chichi nas calças de Nenni enquanto este pegava nela ao colo. As famílias tornaram-se tão próximas que Edda começou a tratar Nenni por «tio».

No livro que publicaram em 2015, Mussolini e Nenni. Amici Nemici, Alberto Mazzuca e Luciano Foglietta traçam o relato mais recente da relação entre estes dois homens. (Este livro foi essencial para a escrita deste artigo, e quaisquer citações não explicitamente atribuídas a outras fontes provêm desta obra.) Por alturas do início da Primeira Guerra Mundial, cada um dos dois amigos escreveu acerca do outro:

retratto mussolini

Autor desconhecido, Fotografia de cadastro de Mussolini, 1903. © Bern Archives / Alamy Stock Photo

«Bravo, Mussolini! Agrada-nos vê-lo agora com os mesmos olhos com que o víamos quando tivemos oportunidade de o conhecer intimamente, nos longos meses de cárcere.»

«Caríssimo Pietro, quero transmitir-te a minha saudação fraterna. Não precisas que te dirija palavras de conforto, assim como não precisaste quando fizemos lado a lado o nosso tirocínio prisional. Sempre que recordo aqueles tempos, sinto-me tão nostálgico… Grande abraço, Benito.»

Nesta época, eis o que Nenni pensava do amigo:

«Ele não é um grande génio nem um grande orador, mas possui uma força moral incomensurável […]. Sem dúvida, entendeu que a Itália precisa de uma revolução política.»

Mussolini, com efeito, percebera a necessidade da revolução, mas a verdade é que não se tratava da revolução com que Nenni sonhava. De início, porém, este não se deu conta disso, tanto que, em 1919, durante algumas semanas, militou num dos primeiros grupos fascistas de Bolonha.

"Jogaram às cartas e às damas, e cantaram juntos A Internacional. Tornaram-se amigos e, durante certo tempo, chegaram a partilhar a mesma cela. As mulheres de ambos também travaram amizade durante as horas de visita."

«Nenni não sabia ao certo que rumo tomar», referiu Mattera. «Acreditando que o fascismo talvez possuísse ainda um pendor revolucionário, juntou-se à organização política do velho amigo. No entanto, percebeu de imediato que os fascistas eram contra o proletariado e deu-se conta de que enveredara pelo caminho errado.»

As ideias nacionalistas de Mussolini não tardariam a transmutar-se em fascismo, ao passo que Nenni se tornou socialista. À época, «[Nenni] mostrou-se brutal: “Mussolini está a ultrapassar os limites de qualquer controvérsia honesta e decente; arvora-se em detentor exclusivo do patriotismo.” […] Nenni tornou a abordar a questão da amizade: “Liga-nos a Mussolini uma amizade de longa data e um afecto que resiste até à gritaria descabelada dele, e não lhe negamos os méritos que inegavelmente possui. Mas é preciso que ele se mostre razoável e que abandone, se for capaz, o vocabulário dos insultos.”»

As divergências políticas entre ambos tornaram-se inultrapassáveis. A última vez que falaram cara a cara foi em Janeiro de 1922, enquanto caminhavam pela Croisette de Cannes, nove meses antes da Marcha sobre Roma dos fascistas.

«É Nenni, todavia, quem nos conta […] o seu encontro com Mussolini […]: “Os dois noctívagos conversavam sobre o seu país. O destino pusera-os frente a frente em pé de igualdade pela última vez. Uma velha amizade, origens comuns, muitas batalhas travadas lado a lado.” […] Um deles era um antigo republicano convertido em socialista, o outro era um antigo socialista convertido em fascista ou, antes, no líder dos fascistas.»

Segundo algumas fontes, naquela ocasião, Mussolini pediu a Nenni que se juntasse a ele no seu movimento político, mas este recusou.

«Sem se darem conta disso, conversaram até ao alvorecer, mas uma muralha de incompreensão ergueu-se entre ambos; dão por si numa encruzilhada, em posições diametralmente opostas. Nenni comenta: “Nada mais temos para dizer um ao outro.”»

Depois de Mussolini assumir o cargo de Duce, em 1922, Nenni combateu-o e ao regime fascista, noédiscursando e publicando artigos, a tal ponto que ele e a família começaram a ser perseguidos pelos Camisas Negras. Em 1926, a casa onde morava, em Milão, foi alvo de um raide dos squadristi, e Nenni concluiu que chegara o momento de se exilar em França com a família. Ali ficaria até ao deflagrar da Segunda Guerra Mundial, fazendo campanha juntamente com outros exilados antifascistas contra o seu amigo de outrora e contra o alastrar do fascismo na Europa. Mussolini desprezava estes fuoriusciti (exilados) subversivos, encarando-os como inimigos do Estado.

No final de 1942, a Alemanha ocupou a França de Vichy e começou a prender os antifascistas que ali se escondiam. Mussolini não fazia tenções de assistir de braços cruzados. «O regime fascista queria encarcerar aqueles homens, detê-los, levá-los a julgamento, prendê-los», disse Antonio Tedesco, presidente da Fundação Pietro Nenni e um dos mais eminentes especialistas no líder socialista. «No fim de contas, esta sanha persecutória acabou por salvar muitos antifascistas ilustres, evitando que fossem executados ou deportados para a Alemanha. Mas isso só sucedeu porque eram prisioneiros, encarados como inimigos do regime italiano.»

Roma não tinha forças policiais próprias a operar na região de França onde Nenni e outros exilados italianos viviam, de modo que pediu a Berlim que os prendesse e extraditasse. Um tratamento diferente foi reservado a uma das filhas de Nenni, Vittoria. Também foi detida, mas deportaram-na para Auschwitz, onde morreu (Nenni só depois da guerra teve a certeza de que ela morrera). Demasiado orgulhoso para pedir auxílio a Mussolini, Nenni passou o resto da vida cheio de remorsos, dilacerado pela dúvida: teria conseguido salvar a filha se tivesse pedido ao Duce que intercedesse junto de Hitler?

arca mussolini

Autor desconhecido, Arco do Triunfo erguido em honra da chegada de Mussolini a Verrès, 1939. © Wikimedia Commons

"No fim de contas, esta sanha persecutória acabou por salvar muitos antifascistas ilustres, evitando que fossem executados ou deportados para a Alemanha."

No dia 8 de Fevereiro de 1943, a Gestapo prendeu Nenni, e os agentes informaram-no de que fora detido «por ordem de Mussolini, para ser entregue à polícia italiana». No entanto, não o mandaram para Itália; em vez disso, arrastaram-no numa longa jornada pela Europa, sob custódia dos nazis. Aliás, tal como explicou Tedesco, o governo italiano nem sequer foi informado de que a detenção tivera lugar.

Nenni foi mandado para um cárcere na Paris ocupada, «convencido de que, mais cedo ou mais tarde, seria executado por um pelotão de fuzilamento». Tal não sucedeu e, até ao fim dos seus dias, desconfiou de que fora Mussolini — o amigo de outrora, antigo companheiro de cela, o conterrâneo da Romanha convertido em inimigo — a intervir para lhe salvar a vida. Da sua prisão parisiense, Nenni conseguiu comunicar com a filha Eva, que morava na capital francesa, pedindo-lhe que contactasse a embaixada italiana.

«Nenni pediu explicitamente à filha que se apressasse: “Por favor, escreve para Roma, pede-lhes que intervenham…”», explicou Tedesco, aludindo a um bilhete que encontrou no vasto arquivo de Nenni, guardado na Fundação. «Ele sentia-se apavorado, como toda a gente, ante a perspectiva de ir parar à Alemanha ou à Polónia. Portanto, foi a filha Eva que se deslocou ao consulado e informou o governo italiano da detenção do pai.»

No dia 13 de Março, Nenni deixou Paris. «Confirmaram-me este facto no consulado, cujos responsáveis escreveram de imediato para Roma, perguntando onde estava o papá», escreveu Eva a uma amiga, dando a entender que Roma tomou providências para indagar qual o destino e qual o itinerário de Nenni. No dia 5 de Abril, ao cabo de vinte e três dias em que foi sendo transferido de cela em cela pelos quatro cantos da Alemanha, chegou à fronteira italiana, no desfiladeiro de Brenner. Havia dezasseis anos que não punha os pés no seu país.

Ninguém sabe ao certo o que sucedeu entre a altura em que foi encarcerado em Paris e a sua chegada a Itália. «A zona cinzenta, envolta em bruma, é o momento em que Nenni é transferido das mãos da polícia alemã para as mãos da polícia italiana», diz Mattera. Será que, a dado passo, Nenni esteve a caminho de um campo de concentração? Ou terá sido destinado a um pelotão de fuzilamento? E, em caso afirmativo, será que Mussolini interveio para o salvar?

«Aventam-se duas hipóteses plausíveis», diz Tedesco. «[O historiador] Giuseppe Tamburrano afirma que é possível que os alemães quisessem mantê-lo sob a sua custódia, pois perceberam que ele era uma figura importante e, portanto, um trunfo de que se podiam servir contra Mussolini.» É também possível, segundo Tedesco, que simples erros burocráticos tenham protelado a chegada de Nenni a Itália.

«Aquilo que podemos afirmar sem sombra de dúvida é que Mussolini o salvou indirectamente», acrescentou. «Mas creio que não o salvou propositadamente.» Mattera mostra-se mais cauteloso no que toca a tirar conclusões acerca do papel do Duce no regresso de Nenni a casa, são e salvo, dizendo que «não há provas conclusivas». Por outro lado, Mazzuca e Foglietta referem «um conjunto de testemunhos que confirmam a intervenção de Mussolini para salvar o amigo de juventude das mãos dos alemães e trazê-lo de volta a Itália, indemne».

Aquilo que sabemos é que, em mais de uma ocasião, Mussolini declarou em tom ufano que Nenni lhe devia a vida.

appunto nenni

Nota manuscrita de Pietro Nenni, c. 1962. © Fondazione Pietro Nenni

[...]