Livro de Horas

«Hora da angústia, hora da lucidez.»

Marie Darrieussecq

A escritora Marie Darrieussecq é um nome cimeiro no actual panorama francês da ficção narrativa, com enorme projecção internacional. O seu percurso, que já conta com algumas dezenas de títulos repartidos por vários géneros, começou com o romance, Truismes (1996), que se tornou um bestseller pouco comum pelo modo como abrangeu públicos de estratos culturais completamente diferentes. Em Portugal foi publicado no ano seguinte com um título diferente: Estranhos Perfumes: História de uma metamorfose. O livro narra de facto a estranha metamorfose da narradora, que se transforma progressivamente em porca. Já aí a escritora mostrava que a experiência literária se aproximava de uma experiência dos limites. A escrita literária e as várias formas de autobiografia estão presentes como questões essenciais em muitos dos seus livros, inclusivamente Não Dormir, a sua última obra traduzida em português.

Kaare Ruud, Série de esculturas-relógio sem título

Kaare Ruud, Série de esculturas-relógio sem título, 2025. © Cortesia do artista e Femtensesse, Oslo © Fotografia: Hordaland Kunstsenter / Mickäel Llorca / Margot Montigny

Vinte e cinco de Fevereiro no País Basco, estão 25 ºC à hora do almoço, um tempo de ficção científica. A macieira está em flor, tal como a camélia, e a região está a rebentar de mimosas, replantadas com sucesso após a grande onda de frio de 1986 que as havia extinguido — eu tinha dezassete anos e andava de trenó debaixo da casa.

Originalmente, na Idade Média, um livro de horas era um livro de tradição católica para acompanhar os rituais litúrgicos associados às horas, com orações, salmos e imagens. Hoje, a imprensa, os diversos meios de comunicação e as redes sociais contabilizam os ataques e as mortes; são o eco do ruído e da fúria do mundo, sem que seja preciso acrescentar mais nada aqui. O mundo explode regularmente em alguns lugares, e, como muitos habitantes desta Terra, absorvo várias vezes por dia a minha dose de clarões alaranjados e de estrondo nos meus meios de eleição. Por enquanto, as notícias não me fazem saltar da cadeira para procurar abrigo o mais rapidamente possível, como acontece com outros escritores noutros países, por isso, considero-me privilegiada. No País Basco, onde nasci, a calma é tão ensurdecedora que os meus vizinhos ficam surpreendidos por eu voltar para Paris, «para todo aquele stress» — mas eu adoro Paris, adoro o seu ritmo, adoro percorrê-la a passos largos. Viver numa cidade tão bela e agitada é, por si só, uma ocupação. Também adoro Paris porque posso sair de lá com frequência.

27 de fevereiro

Passei os dois primeiros meses de 2026 na Índia e depois na Islândia. Nesses dois países antípodas, convivi com pessoas que não se alimentam freneticamente de informação logo pela manhã. O Festival do Livro de Jaipur é talvez a melhor feira do livro do mundo; mas, em torno desse enorme frenesim de leitura, existe a Índia meditativa, as altas colinas do Rajastão, as vacas, os macacos, as pegadas de leopardo, milhares de templos. Poupo-vos aos meus estereótipos indianos, um país ao qual os meus livros me levam com frequência — que abandonei para ir arrefecer os meus neurónios numa residência de escrita no coração da Islândia. Da mesma forma, graças aos meus livros, sou uma cliente assídua da Islândia. Um país ideal para escrever… Mas, à noite, naquela casa isolada à beira de um lago sublime, tinha medo. Ao sabor do congelamento e do degelo, o lago gemia, os sinos de gelo tilintavam. A Islândia é um país assombrado, sobretudo nas noites de aurora boreal — esplendor visual, mas uma atmosfera demasiado mágica: a minha insónia voltou, com o seu cortejo de espectros.

28 de fevereiro

Escolhi a fonte «Avenir» para escrever este livro de horas. «Avenir» é moderno como um pleonasmo. As hastes das letras são finas, as vogais bastante redondas; o Avenir [futuro] acalma-me e consigo ver bem as cores das letras.

Vejo o «a» verde, o «e» cinzento-escuro, o «é» bege, o «i» amarelo, o «o» vermelho, o «u» azul, o «y» cinzento, as consoantes pretas. A sinestesia é uma ligeira perturbação neuronal, bastante comum: uma em cada duas mil pessoas é sinestésica. Rimbaud fez dela um poema célebre. «A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul, vogais». No liceu, como não via as letras da mesma cor que o meu genial predecessor, levantei a mão para pedir explicações sobre esse erro: mas a minha professora não percebia o que eu queria dizer, lia o poema de Rimbaud como um devaneio ou uma metáfora.

Foi ao voluntariar-me no Instituto Pasteur para um estudo sobre a sinestesia que outro teste revelou que também sou prosopagnósica. Esta palavra erudita — do grego prosopon, «rosto» — designa uma perturbação visual caracterizada pela incapacidade de reconhecer rostos. É muito menos poética e mais incapacitante do que a sinestesia. O auge da minha prosopagnosia foi atingido no dia em que o meu filho se sujou na creche e as educadoras lhe trocaram o pijama. Eu procurava um bebé de azul, e não reconheci o meu próprio filho de vermelho… Um grande momento de solidão e embaraço.

Kaare Ruud, Série de esculturas-relógio sem título

Kaare Ruud, Série de esculturas-relógio sem título, 2025. © Cortesia do artista e Femtensesse, Oslo © Fotografia: Hordaland Kunstsenter / Mickäel Llorca / Margot Montigny

1 de março

A minha avó Amatxi morreu em 29 de Fevereiro de 2000: o dia suplementar de um ano bissexto. Amatxi era meio bruxa, mas passou a vida a tentar ser respeitável até à ponta das unhas, que pintava com cuidado, apesar dos seus vários trabalhos manuais. Naquela noite, falou-me em francês e em basco… Tesouro dos sonhos de que nos lembramos… Amatxi guardou ciosamente os meus três primeiros livros, aqueles que ela viu serem publicados. Lamentava que fossem «demasiado difíceis» para ela. Deixara a escola aos onze anos. Penso nela quando me esforço para que a minha exigência literária, a minha ambição de escrever a frase certa, não se dirija apenas a uma elite.

2 de março

Nunca escrevi um diário. Adolescente nos anos 80, gravei um numa cassete. Escrever o que já tinha acontecido aborrecia-me. Nessa altura, já amava apaixonadamente a ficção, essa liberdade de imaginar mundos paralelos para melhor dar a conhecer o nosso. Com o tempo, a não-ficção acabou por me conquistar. «Quando nasce um escritor numa família, essa família está acabada», diz Philip Roth. Também pode acontecer que a família se orgulhe. E, para a minha mãe, a sensação de que as minhas frases lhe fazem um pouco de justiça, ela que perdeu o primeiro filho devido a um erro médico. Todos os meus livros, de ficção ou não, giram em torno desse vazio, em torno de uma criança morta, em torno desse irmão que me precedeu no nada.

"Nessa altura, já amava apaixonadamente a ficção, essa liberdade de imaginar mundos paralelos para melhor dar a conhecer o nosso. Quando nasce um escritor numa família, essa família está acabada, diz Philip Roth."

3 de março

Não vou falar de prosopagnosia, mas de outro problema de reconhecimento, desta vez auditivo: há trinta anos, demorava um segundo a reconhecer um representante da Frente Nacional; há quinze anos, trinta segundos (geralmente, assim que ouvia a palavra «imigração»); hoje, chego a demorar dois minutos. A normalização das suas ideias e dos seus militantes assusta-me. Será que o fascismo se está a normalizar, ou que a norma se está a tornar fascista?

Kaare Ruud, Série de esculturas-relógio sem título

Kaare Ruud, Série de esculturas-relógio sem título, 2025. © Cortesia do artista e Femtensesse, Oslo © Fotografia: Hordaland Kunstsenter / Mickäel Llorca / Margot Montigny

4 de março

Céu azul em Paris. Vou poder passear tranquilamente, ao ritmo que entender. E esta noite, se quiser, voltarei calmamente para casa sem ter de apertar uma chave entre os dedos para matar um possível agressor, como aprendi a fazer aos dezanove anos num curso de autodefesa. Truismes, o meu primeiro romance, nasceu da minha raiva juvenil por ser considerada não como um ser humano, mas como um corpo disponível. No espaço público, o olhar masculino assumia proporções explosivas. O conceito de «assédio de rua» ter-me-ia ajudado a compreender o que me acontecia quotidianamente, mas a expressão não existia nos anos 90 da minha juventude. Que qualquer tipo se permitisse dirigir-me a palavra, mesmo que de forma gentil, ousasse interromper o meu percurso, comentar a minha aparência ou a minha simples presença, ou mesmo seguir-me, ou mesmo tocar-me, o que acontecia frequentemente, por parte de todo o tipo de homens, era uma realidade chocante, mas apresentada como um estado natural — cabia a nós, as raparigas, adaptar-nos. Não se punha a questão de pedir aos homens que modificassem o seu comportamento. Estes conceitos, assédio de rua, assédio sexual, ter-me-iam permitido compreender que não era a única a sofrer essa restrição à minha liberdade de circular, de estudar e até de pensar. Escrevo enquanto caminho, absorta em pensamentos; e os tipos que se permitiam dirigir-me a palavra interrompiam-me. Perturbavam-me e obrigavam-me a conceber estratégias para ter paz. A experiência das jovens mulheres na rua é a de serem constantemente interrompidas nos seus pensamentos.

Tenho cinquenta e sete anos. Deixei de ser assediada de um dia para o outro há dez anos — com as minhas primeiras madeixas brancas. Agora é a vez das minhas filhas, e tudo começou diante dos meus olhos: um tipo no autocarro tentou tocar as coxas nuas da minha filha de doze anos; ela estava de calções — estava muito quente, uma vaga de calor em Junho —, mas terei mesmo de justificar o direito da minha filha de doze anos de usar calções? Quando, na verdade, esse homem é o único culpado, o único a ter um comportamento inadequado. Há toda uma literatura por escrever, nova, dinâmica, excitante, sobre a visão do mundo de metade da humanidade, as mulheres; e a outra boa notícia é que os homens também podem escrever livros novos, os de uma masculinidade que encarasse o mundo sem o querer dirigir, conquistar, tomar: uma masculinidade da gentileza, da aliança, da vulnerabilidade. Nenhum tema é, por natureza, reservado aos homens ou às mulheres. Até o viril Balzac escreveu páginas maravilhosas sobre a amamentação nas suas Memórias de Duas Jovens Esposas. Coragem, senhores, imaginação! Tudo vos é permitido, se despirem o fato demasiado apertado da supremacia.

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