Portfolio

AMVK: Palet

Anne-Mie Van Kerckhoven (AMVK)

Este portfólio, preparado para a Electra por Anne-Mie Van Kerckhoven (AMVK), é muito representativo do seu trabalho. Nele, como diz na apresentação que nos faz, está presente a relação fundamental e interpeladora entre erotismo e tecnologia, olhada de um ponto de vista feminino. Tal relação é inseparável da reflexão crítica e inovadora que a artista belga tem feito sobre arte, ciência, política, sociedade, imagem e comunicação. Todas estas questões atravessam a vasta obra de AMVK, marcada por um pensamento muito forte e original, e que usa como médiuns a pintura, o desenho, a colagem, a instalação, a arte digital, a videoarte e a música. Anne-Mie Van Kerckhoven tem uma longa carreira reconhecida e consagrada por importantes distinções. Nela, há uma permanente atenção ao que acontece no mundo, aliada a uma memória cultural viva e inquieta.

Anne-Mie Van Kerckhoven Why We Hate Star Trek [Porque odiamos o Star Trek], 2008

Anne-Mie Van Kerckhoven, Porque odiamos o Star Trek, 2008. © AMVK / Galerie Barbara Thumm, Berlim / dépendence, Bruxelas

O progresso tecnológico contemporâneo tem um enorme impacto na psique humana. Os sentimentos de luxúria, inicialmente estimulados e posteriormente reprimidos, são canalizados através dele e processados de um ponto de vista económico. Ao afirmar, em 2005, que «a tecnologia odeia o sexo», o filósofo francês Jacques Attali estava a sugerir que tudo aquilo que a tecnologia recupera sublimou sentimentos eróticos. A resposta à necessidade de erotismo na nossa sociedade intelectualizada seria um excesso de dispositivos tecnológicos. Outro filósofo crítico do presente desenvolvimento tecnológico é o anarco-primitivista americano John Zerzan. Apesar de, e também por ele próprio ser um produto da cultura de consumo norte-americana, Zerzan acabou por declarar guerra a tudo o que tenha que ver com tecnologia. O modo como o faz no seu livro Correndo no Vazio: A patologia da civilização (2002) é revolucionário. Incorporei as suas ideias na minha série Palet (2005–2008), na qual parti de doze páginas duplas da revista homónima holandesa de pin-ups da década de 60. Cada peça tem o título de um dos capítulos do livro. Também incluí excertos de um texto/poema da década de 80, que fala do erotismo e do amor de uma forma clínica e tecnológica.