Terrestres ou marítimas, subterrâneas ou aéreas, urbanas ou rurais, antigas ou modernas, duras ou suaves, visíveis ou invisíveis, é nas infra-estruturas que estão os desejos cujos fios as mãos astuciosas da nossa audácia ou da nossa loucura urdem, os recalcamentos que os nossos sonhos revelam ou denunciam e a falta de investimento libidinal (e financeiro) que o nosso sistema de sofreguidões coercivas desvia para outros fins mais efémeros e provisórios, mas mais rentáveis e mais ostentatórios.
É nelas que estão as reservas, os complexos, as pulsões, as tensões, os traumas, as falhas, os anseios, as ameaças, os conflitos, os perigos. É delas que provêm e se manifestam os lapsos denunciadores, os actos falhados, os sintomas intimidantes, os impulsos descontrolados, os silêncios significantes.
A aproximação das palavras «infra-estrutura» e «inconsciente» é feita, desde há muito tempo, por psicanalistas e antropólogos. É como se o inconsciente, individual ou colectivo, fosse uma infra-estrutura da vida psíquica ou dos sistemas culturais e é como se a infra-estrutura fosse o inconsciente do mundo material, energético ou imaterial.
Não admira, por isso, que a tragédia, o inconsciente e a infra-estrutura se aliem nas denotações e nas conotações que geram e fundamentam. A psicanálise da tragédia, da Grécia Antiga aos nossos dias, de Sófocles a Beckett e a Bergman ou Gus Van Sant, de Ésquilo a Goethe e a Lars von Trier ou Béla Tarr, de Eurípides a Ibsen e a Pasolini ou Kurosawa, mostra que o lugar de onde o trágico e as suas mitologias se originam, com as declinações e derivações delas, está no inconsciente. Nos nossos discursos sobre tudo isso, é como se o literal fosse o inconsciente e a infra-estrutura do metafórico.
Antes de Sigmund Freud e de Carl Gustav Jung, Friedrich Nietzsche, com o sobrenatural instinto que tinha para sobreviver a si mesmo, falou da tragédia, do seu nascimento e do seu declínio, com palavras que esclarecem as relações do apolíneo e do dionisíaco, da ascensão e da decadência, do desastre e da superação, do inferior e do superior, da vida e da morte, da ética e da estética, do humano e do natural, do real e do imaginário, do solista e do coral.
Nos últimos tempos, em todo o mundo, no meio do excesso do inútil e da escassez do necessário, das tragédias existenciais e dos dramas sociais, do caos material e das guerras simultâneas e sucessivas, das catástrofes naturais e das perturbações climáticas (maelstroms, tempestades, cheias, sismos, incêndios), das calamidades humanas e dos desastres técnicos (acidentes ferroviários e rodoviários, apagões, pandemias, crises), com os rios caudalosos de notícias e reportagens que geram, ouvimos insistentemente falar de infra-estruturas. É como se, na metafísica, aparecesse, de repente, a física, mesmo quando parece invisível, intangível ou imperceptível a sua presença.
É como se, no teatro, os bastidores, iluminados por uma luz crua e insolente, passassem a ser o palco. É como se as reservas do museu, apanhadas e deslocadas num movimento brusco e indiscreto, passassem a estar, em exibição, na galeria de exposições. É como se as traseiras de uma casa se tornassem, numa insólita inversão das hierarquias tipológicas, a sua frente, a sala para se receber as visitas.
Pensar hoje as infra-estruturas — o que são, o que subentendem, o que significam e o que representam — é dar à nossa atenção um tema decisivo para compreendermos o ethos e o pathos da nossa época. E para, dela e de nós nela, sondarmos as atitudes e os comportamentos, os programas e os planos, os processos e os procedimentos, os empreendimentos e os riscos, os défices e os superavits, os desperdícios e as poupanças. E também a exactidão dos cálculos e a validade dos prazos, a segurança das previsões e a erosão das resistências, a consistência das sustentabilidades e a solidez das instituições, a dimensão das carências e a justificação das urgências.
Pensar as infra-estruturas é procurarmos entender qual é o seu lugar insubstituível — e cada vez mais determinante — nos nossos sistemas de pensamento e de acção, nas estratégias do poder político e do domínio económico, nos nossos regimes de liberdade e de dependência. É tentarmos averiguar qual é o seu papel fundamental nos dispositivos de vigilância e controlo, nos aparelhos de administração e de burocracia, nos mecanismos de fiscalização e de manipulação, nas práticas de especulação, de fraude e de tráfico.
Do indivíduo à sociedade, da política à economia, da segurança à logística, da indústria ao comércio, da cultura à informação, da criação à comunicação, da ciência à tecnologia, da medicina à alimentação, da arquitectura à engenharia, da arte ao design, da publicidade às bases de dados, da ecologia à religião, da informática à robótica, do património à circulação de pessoas, bens, serviços e conhecimentos, da produção ao consumo, da conservação à distribuição, da climatização à higiene sanitária, dos equipamentos aos sistemas, dos materiais às funções — as infra-estruturas são disso tudo o fundamento ou o fulcro e, às vezes, o fiasco.
Das casas particulares aos edifícios públicos, das empresas aos bancos, das fábricas aos escritórios, das oficinas aos lagares, das escolas aos laboratórios, dos hospitais às prisões, dos teatros aos tribunais, dos cinemas aos museus, dos restaurantes às discotecas, dos hotéis aos navios, dos estádios às feiras, das bibliotecas aos arquivos, das igrejas aos quartéis, das lojas, hipermercados e centros comerciais aos armazéns, dos portos aos aeroportos, das estradas e auto-estradas às linhas ferroviárias e de metropolitano, dos parques de estacionamento aos parques temáticos, das pontes às ruas, praças e calçadas, dos espaços verdes aos terrenos agrícolas, das estações de televisão às operadoras de telecomunicações, dos hubs aos ateliers, de todas estas actividades humanas, duradouras ou efémeras, necessárias ou contingentes, obrigatórias ou facultativas, autónomas ou em redes, locais ou universais, interiores ou litorais, as infra-estruturas são uma condição fundamental de funcionamento, movimento, operação, crescimento, manutenção ou renovação.
Sem infra-estruturas, o nosso mundo parava, desligava-se (ou desconectava-se), paralisava-se, desconstruía-se. Ou antes: sem infra-estruturas, o tempo a que chamamos nosso privava-se de passado, de presente e de futuro, perdia a forma e o conteúdo, negava-se, desviava-se, desmentia-se, desorientava-se, desmembrava-se, anulava-se, deixava de ser o que é, tornava-se um outro, diferente, ou mesmo oposto.
No dossier do número 32 da nossa revista, este tema talvez apareça como uma surpresa. Mas, se pensarmos bem, a surpresa seria maior se ele não aparecesse. Ao fazermos do retrato instável e sempre inacabado do nosso tempo um propósito fundador do programa editorial da Electra, a ausência deste assunto capital constituiria um enorme obstáculo à compreensão do que está em causa e uma cegueira que nos impediria de ver (ou de pressentir) aquilo que nos cerca e, em larga medida, nos condiciona, determina e define.
Com a sua formação inicial em engenharia e o seu grande interesse pela arquitectura (chegou a co-projectar uma casa em Viena que se tornou um símbolo material do seu complexo pensamento), Ludwig Wittgenstein recorreu muitas vezes a metáforas técnicas para tornar mais compreensível a sua segunda filosofia da linguagem (as palavras são utensílios dispostos e disponíveis numa caixa de ferramentas). No seu pensamento filosófico da fase mais tardia, as palavras são infra-estruturas cujo sentido depende e decorre do seu uso prático, do contexto social e das regras desse campo. Os signos da linguagem verbal não são apenas objectos visuais e auditivos, nem sinais lógicos. Instituem uma pertença, uma prática e uma partilha material, que é também antropológica, social e cultural, dando assim solidez à nossa existência quotidiana e representando uma certa forma de viver e de estar no mundo.
É de Martin Heidegger a citação comentada na secção «Passagens» desta edição da Electra: «A essência da técnica não é nada de técnico.» Para o filósofo alemão, que deu ao nazismo uma caução e uma colaboração que tornaram moralmente pequena a sua grandeza intelectual, a idade da técnica é a idade em que o humano recua e o Ser deixa de comparecer. Mais do que na máquina e no seu funcionamento, o perigo está na mentalidade técnica que vê o mundo como um stock disponível e o humano como um capital para ser usado, abusado, trocado e gasto, mudando radicalmente a nossa atitude perante a natureza e o nosso modo de habitar a Terra.
Antes e depois de Martin Heidegger, outros pensadores têm dado contributos importantes e diversos para uma filosofia da técnica: Platão, Descartes, Henri Bergson, Gilbert Simondon, Hans Jonas, Jacques Ellul ou André Leroi-Gourhan.
Com o desenvolvimento e a expansão acelerada da Inteligência Artificial, uma prodigiosa infra-estrutura feita de poderosas e múltiplas infra-estruturas, torna-se ainda mais imperioso e urgente a criação de pensamento original que investigue e pondere, analise e aprofunde, avalie e questione este novo acontecimento capital e as suas enormes e ainda desconhecidas consequências para o futuro dos seres humanos e do planeta que habitam, tantas vezes com leviana e ameaçadora irresponsabilidade.
Além dos problemas gnosiológicos, epistemológicos e éticos que a IA suscita, apesar das suas virtualidades virtuosas, com os sistemas de criação, informação, comunicação e controlo que lhe podem estar associados, ela representa, sobretudo na actual fase do tecnocapitalismo, que já foi também chamada de tecnofeudalismo, de capitalismo digital, de capitalismo de vigilância e de anarcocapitalismo, um poder inédito e descomunal que pode ser usado — está já a ser usado — contra as instituições políticas da democracia e do Estado de Direito.
Esse poder voraz e avassalador, com o seu ímpeto dominador e hegemónico, pode ameaçar mesmo a nossa herança ética e cultural mais luminosa e pôr em causa o nosso modo de vida e as nossas formas mais pacíficas, tolerantes e civilizadas de convivência.
Nas mãos de alguns, como os políticos predadores e os oligarcas tecno-industriais, este instrumento omnipresente de controlo e manipulação, operado por centros de poder despótico e por redes de comunicação globais e sem regras, propaga formas, evidentes ou escondidas, de liberticídio.
E pondo eles em acção uma visão do mundo segundo a qual tudo o que é bom para os seus interesses é bom para a humanidade, impulsionam, sem freio e sem pudor, com esse instrumento, a selvajaria que troca a cortesia pela brutalidade, os valores axiológicos pelo dinheiro corruptor, os princípios pelos fins, o alter ego pelo ego, o altruísmo pelo narcisismo, a compreensão pela crueldade, o cosmopolitismo pelo provincianismo, o universalismo pelo chauvinismo, a ciência pelo obscurantismo, o conhecimento pelo preconceito, a qualidade pela quantidade, a verdade pela mentira e a decência ética pela pornografia moral. Muitas destas ameaças foram já pensadas em anteriores edições da Electra.
Para o filósofo Michel Foucault, arqueólogo do poder e do saber, os dispositivos materiais que estruturam o espaço (o panóptico é um modelo) são instrumentos de poder que vigiam e disciplinam os corpos e os comportamentos, e controlam as populações e os territórios.
Nesse sentido, as infra-estruturas, fundadas num saber especializado e num saber-fazer eficiente, constituem uma tecnologia securitária e são inseparáveis da racionalidade política moderna.
Segundo o autor de As Palavras e as Coisas e de O Nascimento da Clínica, o conhecimento das infra-estruturas não dispensa a análise dos discursos sobre elas, das leis que as regem e das instituições que as gerem, configurando uma sociologia política ou mesmo uma ideologia das infra-estruturas.
A esta luz, a cidade, o urbanismo, a arquitectura e a engenharia, com as suas sofisticadas, colossais e indispensáveis infra-estruturas, esclarecem-nos sobre o modo como o nosso mundo é governado, nos seus acertos e erros imensos.
Na análise da metrópole moderna, Foucault pertence a uma árvore genealógica que tem Charles Baudelaire e Walter Benjamin nos seus ramos.
Flâneur, dandy e testemunha das grandes transformações haussmannianas de Paris, capital do século XX (como lhe chamou Benjamin), Baudelaire, sobretudo em «Quadros Parisienses», dá à cidade — e aos seus não ditos e não vistos — uma voz dolorosa e onírica, fundadora da nossa modernidade.
Em Portugal, Cesário Verde, visionário do visível, faz na sua poesia uma descrição, ao mesmo tempo exacta e alucinada, de uma Lisboa em transformação infra-estrutural. Anda pela cidade, com uma atenção geométrica, e fala do «chão minado pelos canos», de «gestos de neve e de metal». E canta, com uma voz rasante e rouca, o que vê:



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