Vista de Delft

Istambul

Kaya Genç

O escritor turco Kaya Genç passeia pela sua cidade, Istambul, à maneira de um flâneur que, nas suas deambulações, vai descobrindo os vestígios culturais e os estratos históricos da cidade, que se revela assim uma riquíssima metrópole cultural.

Ivan Aivazovsky, Vista de Constantinopla ao luar, 1846

Ivan Aivazovsky, Vid Konstantinopolya pri lunnom svete [Vista de Constantinopla ao luar], 1846. © State Russian Museum, St Petersburg

Recentemente, numa manhã de Novembro, deambulei pelas ruas de Yeşilköy, um bairro de Istambul cujo nome em turco significa «Aldeia Verde». Halit Ziya Uşaklıgil, o primeiro grande vulto do romance realista na Turquia e autor de Aşk-ı Memnu (Amor proibido), um dos livros em língua turca mais populares alguma vez escritos, morou ali, numa mansão, na década de 1920. Era um dia ensolarado, pouco condizente com a estação do ano, quando percorri as ruas pacatas de Yeşilköy. As plantas verdejantes trouxeram-me ao espírito a vida tranquila, em harmonia com o seu temperamento, que Uşaklıgil levou naquele lugar. Dedicava os tempos livres à jardinagem, um dos seus passatempos favoritos de infância, que teve o condão de lhe aliviar a velhice. Tendo passado os últimos anos de vida em Yeşilköy, o romancista foi ali sepultado em 1945.

Foi Uşaklıgil — o nosso Gustave Flaubert — que, em 1930, propôs que o bairro, até então conhecido como San Stefano, passasse a chamar-se Aldeia Verde. Segundo Evliya Çelebi, cujo livro de viagens Seyahatnâme é uma obra-prima da prosa turca, o nome original da localidade deriva de Estêvão I de Constantinopla, o patriarca ecuménico desta cidade entre 886 e 893.

Naquele dia quente de Novembro, caminhei sob árvores frondosas. Passei pelos comerciantes da zona, que se preparavam para abrir as suas lojinhas vetustas. E dei-me conta de um facto estranho. Nunca até então apreciara devidamente aquela estância balnear recatada, não obstante morar em Istambul há quarenta e cinco anos.

Durante muito tempo, Yeşilköy foi para mim sinónimo de viagens aéreas. O aeroporto Atatürk, principal terminal de transportes antes da inauguração do aeroporto de Istambul em 2018, situava-se ali. Além disso, o meu tio morou em Yeşilköy na década de 90, nos seus tempos de solteiro. Eu costumava passear o cão dele, um dálmata chamado Dizzy, nas amplas calçadas de Yeşilköy, a fumar Marlboro Lights e a ouvir álbuns dos Pink Floyd no meu Discman.

Até aos alvores do século XIX, Yeşilköy era uma aldeia piscatória. Desde a década de 50, graças à proximidade do mar e ao caminho-de-ferro, converteu-se numa estância balnear muito apreciada. No decurso dos últimos trinta e cinco anos, a construção acelerada expandiu a povoação, fazendo-a crescer imenso. Enquanto adolescente que alimentava o sonho de abraçar a realização e fazer filmes de autor, passeei muitas vezes o dálmata enérgico nas calçadas da localidade, a ouvir The Dark Side of the Moon nos meus auscultadores. Cheio de curiosidade a respeito daquele bairro, vim a descobrir que foi ali que nasceu o cinema turco.

Em 1878, ao cabo de dois anos de guerra, o Império Otomano e a Rússia assinaram um tratado de paz em Yeşilköy, conhecido como Tratado de San Stefano. Os exércitos de Abdul Hamid II haviam sido derrotados, e os russos ocupavam as fortalezas búlgaras e a chamada Rumélia Oriental; pouco depois, as forças britânicas aproximaram-se de Istambul para salvar o sultanato, que funcionava como contrapeso ao poder do Império Russo, e estabeleceram o seu quartel-general em Yeşilköy, dando início às negociações de paz. Ao fim de dez dias, o Tratado de San Stefano foi assinado pelos emissários turco, britânico e russo. O edifício onde o acordo foi assinado em Março de 1878, situado à beira-mar, foi mais tarde demolido.

Assim, Yeşilköy viu-se subitamente elevada a símbolo das magnas questões da política internacional. Os jornais europeus publicaram artigos acerca da povoação e da importância do tratado ali assinado nas crescentes tensões globais. Em 1893, Abdul Hamid II aceitou o pedido do czar da Rússia para construir um grande monumento em Yeşilköy destinado a homenagear os soldados russos mortos na Guerra Russo-Turca. Muitos deles jaziam em sepulturas dispersas, e o coronel Pechkov, o adido militar russo em Istambul, propôs que estes cemitérios fossem reunidos num só lugar. Tendo recolhido cinco mil ossadas, sepultou-as em Yeşilköy.

Porque é que Yeşilköy era tão importante para os russos? Esta localidade representava o ponto mais avançado que o Exército russo alcançara na sua ofensiva para conquistar Istambul. Tendo adquirido ali um talhão de terra, o czar contratou o arquitecto russo Bozarov para projectar o monumento, composto por três plataformas simétricas numa planta quadrada, culminando numa torre piramidal encimada por uma cúpula bulbosa.

"Istambul transmite uma impressão de infinitude, tanto física como temporal. A sua população, 18 milhões de pessoas, é mais numerosa do que a de 131 países, incluindo Portugal."

Este monumento, hoje desaparecido, continha numerosos elementos. A fazer fé no que li, o edifício possuía portões magníficos e painéis representando santos, arcos semicirculares e belíssimos trabalhos em ferro forjado. A traça, evocando uma fortaleza, mesclava as tradições bizantina, romanesca e neo-eslava. A parte mais alta do monumento, que servia de torre sineira, era de cor verde-viva.

Depois de os otomanos terem entrado na Primeira Guerra Mundial ao lado da Tríplice Aliança, a Rússia passou a ser novamente uma potência inimiga. Os nacionalistas turcos, ainda ressentidos pela vitória russa de 1878, lançaram uma campanha para demolir o monumento de San Stefano. Não descansariam enquanto aquela torre verde não desaparecesse. Por volta das oito e meia da manhã do dia 14 de Novembro de 1914, três dias após a declaração oficial de guerra por parte da Turquia, assinalando a sua entrada na Primeira Guerra Mundial, o monumento foi dinamitado numa cerimónia pública.

Um jovem oficial otomano, Fuat Uzkınay de seu nome, filmou a demolição. O filme de Uzkınay foi exibido na rubrica das actualidades, nos cinemas de Istambul, para fins de propaganda. Veio a tornar-se lendário por dois motivos: foi a primeira filmagem levada a cabo por um súbdito otomano em território turco e, tal como o monumento nele registado, perdeu-se sem deixar rasto.

Em L’arrivée d’un train en gare de La Ciotat, um brevíssimo filme de 1895, os irmãos Lumière mostram um comboio à escala real que gerou o pânico durante a sua primeira projecção. O monumento de San Stefano desempenhou um papel análogo no cinema turco, assinalando um ponto de partida frágil, precário. Em Paris, dois inventores franceses desenvolveram o cinematógrafo para fins comerciais e, na costa mediterrânica, filmaram um comboio em movimento para darem a ver a sua proeza técnica. Em Istambul, um oficial do Exército otomano dispunha dos recursos e da autoridade para, pela primeira vez no território do califado islâmico, filmar a «realidade». E escolheu retratar a destruição daquele símbolo verde de um Estado inimigo. Terá sido o gesto de Uzkınay um mero acto de propaganda? Creio que foi um esforço para preservar a história e se opor à força destrutiva da modernidade.

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