Registo

Isabel II: a mulher-imagem

Marc Roche

Rainha do Reino Unido e chefe da Commonwealth, Isabel II nasceu há cem anos. O seu reinado, o mais longo da história britânica, durou mais de setenta. Ao longo dele, o mundo mudou radicalmente. Mas ela, embora adaptando-se, com uma subtil sabedoria, às transformações dos tempos, manteve-se sempre fiel a si mesma. Tudo passava e a rainha permanecia. Marc Roche, que a conheceu, escreveu para a Electra este ensaio que lança sobre Isabel II um olhar original, em cujo centro está o cuidado com a imagem. Roche viveu em Londres desde 1985, onde foi correspondente, entre outros, do jornal francês Le Monde. Especialista da monarquia britânica e da City, é autor de uma vasta obra, na qual se contam livros de referência, traduzidos em muitas línguas, sobre esta rainha retratada por Andy Warhol e Lucian Freud, Cecil Beaton e Annie Leibovitz.

Isabel II recebe o presidente de Malta

Isabel II recebe o presidente de Malta, 2020. © Fotografia: Victoria Jones / PA Images / Alamy Stock Photo

No final da cimeira da Commonwealth, a grande família ultramarina que junta as ex-colónias e os antigos domínios britânicos, realizada em Harare, em 1991, fui convidado para uma recepção em honra da soberana no Alto Comissariado britânico na capital do Zimbabwe. Para a ocasião, foi montada uma tenda no relvado da residência do Presidente, onde o casal real estava hospedado. Os cerca de trinta circunstantes estão parados, com as mãos atrás das costas, numa imobilidade impressionante. Fui avisado de que seria inútil dirigir-me a Sua Majestade de mão estendida ou exibindo um cartão de visita. Se assim o entender Charles Anson, o director de comunicação do Palácio de Buckingham, a rainha virá até nós. Calma, paciência e indiferença fingida são as melhores armas se esperamos atrair a sua atenção.

«Ela» chega. A tez cor de pêssego, os olhos azuis de olhar directo, o perfil nítido e recto, os dentes magníficos e a permanente do cabelo daquela que personifica toda a nossa história contemporânea são impressionantes. É mais baixa do que imaginei. O etnólogo nómada fica abalado com a pátina inimitável, com o requinte sem igual da quadragésima soberana desde Guilherme, o Conquistador. O chapéu é azul, o vestido, da mesma cor, exibe motivos florais a condizer. Usa luvas brancas e uma mala bege.

Anson aproxima-se de mim e apresenta-me à rainha: «Ma’am, Marc Roche, correspondente do jornal Le Monde em Londres.»

Isabel II está diante de mim, em carne e osso. Avalia-me com um ar misterioso e estende-me uma mão indolente. Com uma voz nasalada, quase inaudível no final das frases, a minha interlocutora faz-me as três perguntas da praxe dirigidas a um estrangeiro nestas circunstâncias: o país de origem, a actividade profissional e há quanto tempo vive no Reino Unido. Depois de ouvir atentamente as minhas respostas curtas desprovidas de interesse, a soberana respira fundo, fecha os olhos, dá um passo atrás e retira-se, pondo educadamente fim à conversa. Desaparece sem eu dar por isso. Uma profissional, não há dúvida.

Ficamos sempre com a sensação de ter visto o monarca mais fotografado e pintado do mundo num museu de cera. Jamais alguém conseguiu ler o que quer que fosse no seu rosto carregado de segredos que nem a sua morte, em 8 de Setembro de 2022, conseguiu desvendar. Mostrava sempre o mesmo autocontrolo nas situações mais dramáticas e nos acontecimentos mais exigentes.

"A soberana domina a palavra, nunca falando demais nem para não dizer nada. Nunca deu entrevistas. Nos seus discursos, tudo é dito de forma sucinta, sem demasiado lirismo nem efeitos teatrais. O tom é sóbrio e sereno. Não se deixa intimidar pelos fotógrafos ou pelas câmaras."

Isabel II recebe Amar Abba

Isabel II recebe o embaixador da Argélia, 2011. © Fotografia: Chris Radburn / PA Images / Alamy Stock Photo

O seu talento? Seguir à risca o guião, de modo a preservar a mística da instituição, cuidadosamente esculpida pelos assessores, pintores e fotógrafos reais oficiais. Graças à forma primorosamente calculada com que se apresentava, acabamos por retratá-la como ela deseja ser vista, e não como a vemos. Nem como ela se vê. Pura arte.

Ao longo de toda a sua existência, Sua Majestade esteve ciente de que a comunicação faz parte do arsenal de qualquer actor numa sociedade moderna. Mais do que exagerar, o desafio é fazê-lo bem. Desde logo, a soberana domina a palavra, nunca falando demais nem para não dizer nada. Nunca deu entrevistas. Nos seus discursos, tudo é dito de forma sucinta, sem demasiado lirismo nem efeitos teatrais. O tom é sóbrio e sereno. Não se deixa intimidar pelos fotógrafos ou pelas câmaras.

Para uma mulher da sua geração, é muito atenta ao visual e ao simbolismo da sua função. É por isso que, durante as missões de reconhecimento antes de uma visita oficial, seja no estrangeiro ou no Reino Unido, os seus assessores organizam o programa em função da localização das câmaras. É dada prioridade às filmagens em locais emblemáticos, como catedrais e castelos, as praias do desembarque na Normandia, o Congresso americano, o Parlamento Europeu ou a prisão de Nelson Mandela… Ela interiorizou a reflexão do publicitário Jacques Séguéla, conselheiro de imagem de François Mitterrand: «A mensagem é a televisão, pois ela é o principal meio de comunicação. Ora, televisão é emoção, e, logo, a mensagem é emoção. Saímos da era da opinião pública para entrar na era da afectividade pública.» Mas atenção: a rainha detesta ter uma câmara apontada para si, odeia dar nas vistas.

"Sentada numa sala dos aposentos reais, diante de uma janela, a rainha ouve as instruções de Leibovitz: Acho que ficava melhor sem a coroa, dava um ar menos formal. A fotógrafa recebe de imediato um olhar gélido de Isabel II. Menos formal?"

Isabel II recebe o Primeiro-ministro da Nova Zelândia

Isabel II recebe o primeiro-ministro da Nova Zelândia, 2011. © Fotografia: Yui Mok / PA Images / Alamy Stock Photo

Apesar do seu desprezo pelos jornalistas, devido aos ataques sanguinários dos tablóides contra a sua família, Isabel II considera os meios de comunicação social um mal necessário. Está ciente de que a existência da monarquia depende em grande medida da sua imagem pública, como o prova a sua célebre frase: «Só acreditam em mim quando me vêem.» Este princípio explica a colaboração nos três ambiciosos documentários da BBC que marcaram a história da televisão inglesa. A famosa reportagem de Richard Cawston, Royal Family, transmitida em 1969, exalta a simplicidade de uma vida familiar, ao mostrar a rainha e a sua família rodeados dos seus cães e cavalos, ou a cozinhar salsichas durante um piquenique na Escócia. Para o programa Elizabeth R, transmitido em Fevereiro de 1992, a rainha autorizou a presença de câmaras durante um ano nas suas actividades oficiais. Nunca a vemos a comer ou a beber. O terceiro episódio, em 2006, estende a passadeira vermelha de intermináveis banalidades bajuladoras.

Mas cuidado com os deslizes! Uma controversa fotografia publicada na primeira página de todos os jornais britânicos em Julho de 1999 evidencia os riscos de popularização da monarquia. A ideia inicial era promover uma nova imagem da soberana, após os erros cometidos aquando da morte da princesa Diana em 1997. O objectivo era destacar a sua empatia em relação à exclusão social. A fotografia mostra a rainha a tomar chá em casa de Susan McCarron, moradora de um bairro social de Glasgow. Vítima de vários AVC, McCarron criou sozinha o filho de dez anos, que está sentado no sofá ao lado da cuidadora. Isabel II bebe uma chávena de chá, mas não toca nos biscoitos de chocolate que lhe são oferecidos. Enquanto isso, o rapaz mete os dedos no nariz. A ilustre visitante e a sua anfitriã conversam sobre decoração de interiores e os cuidados que lhe presta o serviço nacional de saúde. «A rainha estava muito descontraída e simpática», declarou posteriormente a Sra. McCarron.

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