No final da cimeira da Commonwealth, a grande família ultramarina que junta as ex-colónias e os antigos domínios britânicos, realizada em Harare, em 1991, fui convidado para uma recepção em honra da soberana no Alto Comissariado britânico na capital do Zimbabwe. Para a ocasião, foi montada uma tenda no relvado da residência do Presidente, onde o casal real estava hospedado. Os cerca de trinta circunstantes estão parados, com as mãos atrás das costas, numa imobilidade impressionante. Fui avisado de que seria inútil dirigir-me a Sua Majestade de mão estendida ou exibindo um cartão de visita. Se assim o entender Charles Anson, o director de comunicação do Palácio de Buckingham, a rainha virá até nós. Calma, paciência e indiferença fingida são as melhores armas se esperamos atrair a sua atenção.
«Ela» chega. A tez cor de pêssego, os olhos azuis de olhar directo, o perfil nítido e recto, os dentes magníficos e a permanente do cabelo daquela que personifica toda a nossa história contemporânea são impressionantes. É mais baixa do que imaginei. O etnólogo nómada fica abalado com a pátina inimitável, com o requinte sem igual da quadragésima soberana desde Guilherme, o Conquistador. O chapéu é azul, o vestido, da mesma cor, exibe motivos florais a condizer. Usa luvas brancas e uma mala bege.
Anson aproxima-se de mim e apresenta-me à rainha: «Ma’am, Marc Roche, correspondente do jornal Le Monde em Londres.»
Isabel II está diante de mim, em carne e osso. Avalia-me com um ar misterioso e estende-me uma mão indolente. Com uma voz nasalada, quase inaudível no final das frases, a minha interlocutora faz-me as três perguntas da praxe dirigidas a um estrangeiro nestas circunstâncias: o país de origem, a actividade profissional e há quanto tempo vive no Reino Unido. Depois de ouvir atentamente as minhas respostas curtas desprovidas de interesse, a soberana respira fundo, fecha os olhos, dá um passo atrás e retira-se, pondo educadamente fim à conversa. Desaparece sem eu dar por isso. Uma profissional, não há dúvida.
Ficamos sempre com a sensação de ter visto o monarca mais fotografado e pintado do mundo num museu de cera. Jamais alguém conseguiu ler o que quer que fosse no seu rosto carregado de segredos que nem a sua morte, em 8 de Setembro de 2022, conseguiu desvendar. Mostrava sempre o mesmo autocontrolo nas situações mais dramáticas e nos acontecimentos mais exigentes.



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