Primeira Pessoa

Hito Steyerl: O que pode uma imagem?

Afonso Dias Ramos

Nesta conversa com a Electra, a conhecida cineasta e autora alemã Hito Steyerl fala sobre as complexidades da metamorfose constante da arte e da tecnologia na era da Inteligência Artificial, e sobre a convergência actual entre o crescimento das imagens geradas por computadores e a ascensão de regimes autoritários por todo o mundo.

Hito Steyerl, fotogramas do filme

Hito Steyerl, How Not to Be Seen: A Fucking Didactic Educational .MOV File [Como não ser visto: um raio de um ficheiro .MOV educativo e didáctico], 2013. © Cortesia da artista, Andrew Kreps Gallery, Nova Iorque e Esther Schipper, Berlim, Paris, Seul © Fotogramas: Hito Steyerl

No decorrer das últimas décadas, Hito Steyerl vem desafiando as fronteiras políticas entre a arte e a tecnologia por meio de filmes, palestras e ensaios. Uma das mais conceituadas especialistas em culturas digitais, IA e imagens automatizadas, Steyerl foi destacada em 2017 pela ArtReview como a pessoa mais influente no mundo da arte contemporânea. As suas obras têm sido mostradas em inúmeras bienais internacionais, incluindo São Paulo, Istambul, Xangai, Taipé, Gwangju, Veneza, na documenta ou na Manifesta, e teve exposições individuais em instituições prestigiadas como o ICA, em Londres (2014); o MOCA, em Los Angeles (2016); o Art Institute of Chicago (2021); o Stedelijk Museum, em Amesterdão (2022); e a Fondazione Prada, em Milão (2025). Em 2021, foi-lhe atribuída a Cruz Federal de Mérito pelo presidente Frank-Walter Steinmeier pelas suas contribuições para a arte, que declinou em protesto contra a forma como o governo alemão lidou com a crise da covid-19. Tornou-se recentemente professora de media digitais contemporâneos na Academia de Belas Artes de Munique, e entre os seus livros mais relevantes estão The Wretched of the Screen (2012), sobre a circulação contemporânea de imagens, ou Duty Free Art: Art in the Age of Planetary Civil War (2017), sobre o papel da arte na era da globalização digital. Em conversa com a Electra, Hito Steyerl fala da sua nova publicação, Medium Hot: Images in the Age of Heat (2025), uma série de ensaios que exploram o modo como o uso dos grandes modelos de linguagem (LLM) e da criação algorítmica de imagens tem transformado o nosso entendimento do mundo, levantando sérias questões em torno da cultura, do ambiente, da política e da história.

AFONSO DIAS RAMOS  Sempre teve alguma relutância em descrever-se como «artista». Como foi o seu percurso desde a realização de filmes documentais até aos espaços da arte contemporânea? E que papel desempenhou a escrita?

HITO STEYERL  Estudei cinema em Tóquio e em Munique com a ideia de me tornar realizadora de documentários. Contudo, a indústria colapsou por essa altura e nunca cheguei a começar. Mas, por alguma razão, passei a expor cada vez mais o meu trabalho no meio artístico. Fui lá parar por coincidência, ou por engano. Quanto à escrita, fui trabalhando naquilo que me dava algum dinheiro, incluindo no jornalismo. Ao mesmo tempo, sou professora há cerca de trinta anos, por isso tudo se passou de forma bastante natural. Na verdade, a certa altura não sabia se iria ser académica ou outra coisa qualquer… E foi assim que vim aqui dar.

ADR  Vê essas actividades como complementares?

HS  A escrita envolve seguramente um conjunto de competências diferentes do registo dos ensaios videográficos ou das instalações artísticas. O mesmo acontece com o cinema, a arquitectura, a tecnologia e toda uma panóplia de práticas. Escrever é uma competência à parte. Mas diria que hoje se encontra ameaçada ou, pelo menos, posta em causa pela chamada «inteligência artificial». E não sei muito bem como irá sobreviver daqui para a frente.

ADR  Tem reflectido muito sobre a ideia de «estupidez artificial». Será essa a expressão mais adequada para descrever o que se passa hoje?

HS  Já deixou de ser. Entretanto, as coisas tornaram-se muito mais complexas, e neste momento os LLM são bastante competentes e conseguem escrever inteiramente por mim. Resta-me lidar com isso e encontrar novos mecanismos.

ADR  Em 2009, lançou um importante ensaio sobre a «imagem pobre», no qual defendia o potencial subversivo das imagens de má qualidade que circulavam na Internet. Agora fala de uma «imagem poderosa». O que significa esta mudança?

HS  Comecei a escrever esse texto sobre a «imagem pobre» numa altura em que o YouTube existia há cerca de dois anos. A ideia de que as imagens em movimento poderiam circular online era então algo muito recente. Não é, obviamente, o caso de hoje. Nessa altura, entraram em circulação vários filmes a que não tive acesso durante muitos anos, porque nunca passavam no cinema, nem na televisão. Tinham simplesmente desaparecido da face da Terra e depois vieram a reaparecer na Internet. E, claro, a circulação de imagens também acelerou e expandiu-se muito, e mesmo a sua resolução foi-se aperfeiçoando. Nesse momento específico, a resolução era PAL e continha 576 pixels. Hoje em dia, o padrão é o HD ou 4K, até mais. Nesse sentido, a «imagem pobre» tal como eu a tinha descrito já não existe. A resolução da imagem deixou de sinalizar o seu estatuto no mundo das imagens, uma vez que agora pode ter qualquer definição. O novo parâmetro a considerar é: quanto poder sustenta uma imagem? E quando falo de «poder», refiro-me ao consumo de energia e ao tempo de processamento, isto é, à energia necessária para albergar imagens e para se aceder a elas, mas também às formas de poder que tornam umas mais visíveis que outras.

"Mas agora falamos de uma rede de imagens em que cada uma faz aquilo que bem entende e comunica com as outras."

ADR  Harun Farocki cunhou em tempos a expressão «imagens operacionais» para descrever o novo regime visual. Ainda faz sentido?

HS  Sem dúvida. Acho, inclusivamente, que subimos mais um degrau e entrámos no domínio das imagens dotadas de agência. As «imagens operacionais» são imagens programadas, têm uma função. Isto é, produzem efeitos no mundo. Mas agora falamos de uma rede de imagens em que cada uma faz aquilo que bem entende e comunica com as outras, em vez de se dirigir a um observador ou a qualquer elemento tangível no mundo. Também deixou de fazer sentido chamar-lhes «imagens», uma vez que não são visuais para os humanos.

ADR  E, neste contexto, como actua o termo «imagem inoperativa» por si proposto?

HS  Em 1986, o filósofo francês Jean-Luc Nancy formulou esse termo em relação à comunidade. Afirmou que muitas comunidades se definem pelo trabalho ou que de alguma forma têm de trabalhar em conjunto. Mas isso não o convencia. Nancy achava que toda a comunidade que se definisse a si mesma com base nestes termos de pertença correria sempre o risco de degenerar em modalidades reaccionárias, de tentar livrar-se de pessoas que não fossem consideradas como parte dela. Foi nesse contexto que propôs a ideia de «comunidade inoperante», para referir uma comunidade que não funciona segundo uma lógica produtiva. Creio que também uma «imagem inoperante» ou uma «obra de arte inoperante» poderia ser concebida precisamente para não funcionar, para recusar o trabalho que dela se espera, para não produzir lucro, excedente ou qualquer tipo de efeito, limitando-se a existir por si mesma.

ADR  Também propôs a ideia provocatória de uma «arte degenerativa» em oposição às imagens generativas da IA. Que arte seria essa?

HS  Não sei bem… A ideia surgiu porque esse termo foi cunhado na Academia de Belas Artes de Munique, onde actualmente lecciono. Na década de 30, a expressão «arte degenerada» serviu de bode expiatório para todo o tipo de arte de que não gostavam, como a arte moderna. Mas depois pensei sobre o facto de termos actualmente uma arte generativa ou imagens generativas que, em muitos casos, estão também ligadas aos novos regimes autoritários emergentes por todo o mundo. E como poderíamos desfazer este nó? Será possível reaproveitar a ideia de arte degenerativa para contrariar o actual impulso generativo da direita?

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