No último quartel do século XX havia razões muito fortes para se afirmar que o pessoal é político. O movimento #MeToo pode ser visto como a sua consequência directa (ainda que tardia). No entanto, talvez seja mais rigoroso entender o #MeToo e o que se lhe seguiu como a convergência de duas abordagens. Uma abordagem estritamente retributiva centrada na denúncia dos infractores, envolvendo os tribunais e a prisão de modo a compensar o dano causado com a devida punição. Embora esta abordagem conte com os efeitos dissuasores colectivos da punição, permanece assente numa premissa individualista de responsabilidade pessoal. Outra abordagem, desta vez transformadora, incrimina não só os indivíduos abusadores, mas também uma ampla «cultura da violação», que foi certamente favorecida pela raridade da punição efectiva destes crimes, mas que teve uma vasta extensão nas nossas estruturas sociais, nos imaginários colectivos e nos preconceitos. É apenas a este nível que o pessoal pode ser compreendido como político: o dever colectivo das nossas instituições políticas comuns é proteger as mulheres do abuso sexual. Aquilo que um violador se sente autorizado a fazer não é (apenas) uma questão de «escolha pessoal», mas (também) uma questão de responsabilidade colectiva e política — o que suscita a questão de saber que políticas, leis, regulamentos e instituições devem ser implementados para prevenir, tanto quanto possível, os processos causais gerais que conduzem à violência efectiva.
Quando levada ao seu limite consequencial, a justiça transformativa não tenta apenas identificar as causas estruturais que ajudam a explicar o comportamento individual1. Na sua investigação sobre o significado do consentimento, Clara Serra demonstrou de forma convincente que interrogar as infra-estruturas causais que condicionam os nossos comportamentos pessoais conduz a questões perturbadoras sobre o estatuto ético (se não jurídico) da nossa capacidade individual de escolher e consentir2. O actual ataque generalizado contra o «wokismo» pode ser interpretado como uma reacção defensiva ideológica contra as implicações verdadeiramente transformadoras de compreender o pessoal como político. Além de uma tradicional «guerra cultural» entre a (extrema-)esquerda e a (extrema-)direita, o que está em jogo não é apenas a nossa orientação política, mas também as nossas concepções partilhadas de causalidade e de individualidade — na medida em que estas concepções estão a ser reformuladas por uma consciencialização crescente da importância das infra-estruturas.



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