Com olhos brilhantes, capas memoráveis e tipografias indestrutíveis, tinha a capacidade de desenhar qualquer livro. A «princesa» Bea Feitler, a amazona que veio do Brasil, soube revolucionar, como uma super-heroína, a direcção artística de revistas como a Harper’s Baazar ou a Vanity Fair, fazendo-o com honestidade e elegância, sem negar as suas raízes: o velho continente.
Bea Feitler: a magnífica amazona do design
Do Rio de Janeiro para Nova Iorque, na sua curta vida de quarenta e quatro anos, a designer e directora de arte brasileira Bea Feitler foi tudo e fez tudo. Criou livros, álbuns, cartazes e capas icónicas, tendo trabalhado nas mais importantes revistas americanas do seu tempo, deixando em todas a marca do seu talento criador e visionário: Harper’s Bazaar, Ms., Rolling Stone, Vanity Fair. Privou ou colaborou com personalidades como Richard Avedon, Jacques-Henri Lartigue, Marvin Israel, Andy Warhol, Ruth Ansel ou Annie Leibovitz. Tinha o toque de Midas: tudo o que tocava transformava-se em ouro visual. É esta figura fundamental da história mundial do design gráfico que é aqui retratada por Serge Ricco, que, entre outras actividades nos domínios da imagem, foi director de arte da prestigiada revista francesa L'Obs.
Páginas duplas de Bea Feitler para a Harper’s Bazaar, editorial «The Non-Stop Polka Dot», com base em fotografias de Alberto Rizzo, 1971. © Harper’s Bazaar, Hearst Magazine Media, Inc. / Bruno Feitler / Visions in Motion Production, Inc., Nova Iorque
o momento decisivo
Bea Feitler, c. 1970. © Bruno Feitler / The New School Archives and Special Collection, Nova Iorque
Maio de 1968, ano de revolução: um carro atravessava França em direcção a Bruxelas. Lá dentro seguiam Bea Feitler e Richard Avedon, e, no porta-bagagens, uma mala cheia de «retratos de família». Iam apanhar o avião para Nova Iorque com um tesouro nacional francês, mas só eles sabiam disso. Não eram assaltantes nem ladrões. Eram a mais reconhecida directora de arte da indústria editorial norte-americana e o melhor fotógrafo dos EUA. Tinham passado alguns dias no apartamento do 16.º arrondissement do famoso fotógrafo Jacques-Henri Lartigue, então com setenta e quatro anos de idade, à volta de um livro que seria publicado com o título Diary of a Century. Lartigue ficou aliviado por poder salvar os seus arquivos da revolta da juventude parisiense que lhe desfilava à porta:
Richard Avedon, com a coragem inquebrável de um jaguar em perseguição da presa, quer ver tudo: todos os meus álbuns, todas as fotografias por catalogar, todos os negativos que ainda não revelei. Mais de dez mil fotografias por onde escolher, talvez duzentas, talvez cento e cinquenta para o livro que está a preparar — todas as minhas fotografias que achava que ia conseguir ver durante a sua última estada em Paris, desde as dez da manhã até à noite, no meu estúdio.
Dois anos depois, em 1970, Diary of a Century partilharia o panteão das obras-primas dos livros de fotografia ao lado de Observations (1959), de Richard Avedon, com design de Alexey Brodovitch da Harper’s Bazaar, e Moments Preserved (1960), de Irving Penn, com design de Alex Liberman da Vogue. Bea Feitler, então com trinta anos, recordará anos depois:
Quando fiz o design do meu primeiro livro, Diary of a Century, editado por Richard Avedon, havia muito pouco dinheiro para o projecto. Dediquei-lhe cerca de dois anos, mil páginas. Fiz o trabalho por paixão e quis ser creditada por ele. Desde então, insisto para que cada livro em que colaboro me credite na folha de rosto. E recebo também direitos de autor, o que é único entre designers de livros.
pensem cor-de-rosa!
Bea Feitler fez dupla com Ruth Ansel na direcção de arte da Harper’s Bazaar, prestigiada revista de moda para a qual foi escolhida em 1961 por Marvin Israel, seu professor na Parsons School of Design. Nancy White, então editora da Harper’s, recordaria: «Bea era uma criatura irrequieta, sempre a aprender, a aprender a toda a hora. E levava para a revista tudo aquilo em que se envolvia.»
Fotografada por Alberto Rizzo, a sua série de bolinhas e sapatos coloridos ficaria como um monumento à Pop Art, tal como as latas de sopa Campbell’s de Andy Warhol. Na forma como organiza e enquadra os planos das páginas, sente-se o amor pela dança e pelo ritmo a orientar-lhe o olhar e o pensamento.
Páginas duplas de Bea Feitler para a Ms., 1972–73. © Ms. Magazine / Bruno Feitler
É o artigo que me diz como será o design, e assim tento encontrar correspondências visuais, seja através de um título forte que detenha o leitor, de uma ilustração simples ou de uma série de fotografias. Com tanta oferta por aí, um bom design não é um luxo, mas sim uma necessidade.
"Avedon, Feitler e Ansel lutariam por ter Donyale Luna, uma modelo negra, pela primeira vez nas páginas de uma grande revista de moda. A reacção dos subscritores, ameaçando cancelar as assinaturas, e dos anunciantes, que retiraram a publicidade, foi inesperada e assustou a direcção da Harper’s Bazaar"
Mas também a capa da edição de Abril de 1965, com a modelo inglesa Jean Shrimpton imortalizada por Avedon, acabaria por ficar para a História. O seu piscar de olho a três dimensões contornado por um círculo cor-de-rosa é a quintessência das capas das revistas de moda modernas, prestes a abandonarem a alta-costura em direcção ao pronto-a-vestir. Avedon lembra-se muito bem deste momento de pura criação:
A Ruth começou por explicar que podíamos cortar a forma do capacete espacial em papel florescente, mas não chegou a terminar: a Bea já estava a recortá-la. Cola de fixação temporária, amostras de cor, três milímetros entre o capacete cor-de-rosa e o fundo cinzento. Não: um milímetro e meio. Estava na sala e não sei dizer como aconteceu. Passou-se tudo em minutos — foi absolutamente mágico ver a Bea, clássica, e a Ruth, moderna, a trabalharem como se fossem uma só.
Nesse mesmo ano, Avedon, Feitler e Ansel lutariam por ter Donyale Luna, uma modelo negra, pela primeira vez nas páginas de uma grande revista de moda. A reacção dos subscritores, ameaçando cancelar as assinaturas, e dos anunciantes, que retiraram a publicidade, foi inesperada e assustou a direcção da Harper’s Bazaar, que só muito mais tarde voltaria a trabalhar com modelos negros. Na mesma altura, Edmonde Charles-Roux, directora da Vogue Paris, foi despedida subitamente por querer incluir a mesma modelo na sua capa. Naquele tempo, e para a indústria da moda, as modelos negras não eram interessantes. Foram precisos cinquenta anos para as coisas mudarem!
Ainda em 1965, Avedon, que fora descoberto nos anos 50 por Alexey Brodovitch nas aulas de design, em Filadélfia, deixaria a Harper’s para se juntar a Alex Liberman na rival Vogue, mas sobretudo para reencontrar a sua antiga editora, Diana Vreeland, cujo lema era: «Os olhos precisam de viajar.»
Bea Feitler nunca deixou de viajar para o velho continente durante as semanas da moda: «Preciso também de ir à Europa para mergulhar na cultura, fundamental para qualquer trabalho artístico. Adoro França e a sua história, sobretudo a parte dos reis.»
Em 1971, um novo editor quis transformar a Harper’s Bazaar numa revista mais informativa, e tanto Bea como Ruth foram despedidas, quase ao mesmo tempo. Contudo, Bea não se deixou enganar:
É um clássico. Se alguma coisa não funciona ou não vende, a responsabilidade recai sempre sobre a parte visual. Para mim, se o conteúdo não presta, ainda se pode salvar visualmente… embora isso não o torne bom. As pessoas compram uma revista porque estão interessadas nela, e se lhes dermos conteúdos interessantes, se forem apelativos, conseguimos leitores para a vida.
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