Portfolio

Anna Maria Maiolino

Helen Molesworth

Anna Maria Maiolino é uma artista de origem italiana que vive e trabalha no Brasil, tendo alcançado projecção mundial. Entre outros prémios e distinções de prestígio, recebeu, em 2024, o Leão de Ouro da 60.ª Bienal de Arte de Veneza, consagração atribuída ao conjunto da sua poderosa obra, portadora de uma enorme singularidade artística e de um alto significado antropológico, cultural, social e político. A artista preparou, para este número da Electra, um portfólio de trabalhos seus, acompanhado de uma entrevista feita pela curadora norte-americana Helen Molesworth no âmbito do projecto The Forgotten Her Story. O MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia apresenta em Lisboa, até ao final de Agosto de 2026, a sua importante exposição Terra Poética.

Anna Maria Maiolino, Sem título, da série Tempestade de Ideias, 1995

Anna Maria Maiolino Por um fio, da série Fotopoemação, 1976. © Cortesia Studio A. M. Maiolino e The Forgotten Her Story

«Regresso a mim mesma e ao início.» 

A obra de mais de sessenta anos de Anna Maria Maiolino emerge da sua experiência enquanto imigrante e mulher, em parte moldada pelos anos da ditadura militar brasileira. O reconhecimento não chegou cedo, tendo os críticos inicialmente desvalorizado o seu trabalho como «óbvio». No entanto, é precisamente esse seu suposto carácter óbvio que Maiolino transformou numa linguagem de resistência.

No âmbito de The Forgotten Her Story, uma iniciativa de investigação em curso dedicada a recuperar e a dar protagonismo a histórias de mulheres cujo impacto cultural tem sido negligenciado, Anna Maria Maiolino reuniu-se com a curadora Helen Molesworth. Já não se encontravam desde a sua exposição de 2017 no Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles (MOCA), com co-curadoria de Molesworth.

No Musée National Picasso-Paris, na sala da instalação Terra Modelada, de Maiolino, as duas mulheres sentam-se rodeadas por formas de barro moldadas à mão, ainda húmidas, que conservam a marca das mãos de Maiolino. Ali, regressam a três elementos essenciais do vocabulário da artista: o barro, os ovos e a linha, enquanto arquétipos da experiência humana e do modo como os rituais constituem o fundamento da humanidade.

HELEN MOLESWORTH  Das coisas que fazes com barro, Terra Modelada é uma das minhas preferidas. O barro ainda está húmido quando moldas as formas.

ANNA MARIA MAIOLINO  Para mim, Terra Modelada é uma experiência espiritual. É uma homenagem ao trabalho do Homem e à sua mística: o trabalho da humanidade. Usamos as mãos desde que a humanidade fez a primeira ferramenta. Em Terra Modelada, a moldagem manual do barro dá origem a formas: segmentos que ressoam uns nos outros, mantendo-se ainda assim distintos.

HM  Fatta a mano. É como fazer pão ou massa fresca.

AMM  Sim. Podes conectar-te com a comida de forma escatológica, porque há coisas que acabam por ser descartadas. O corpo é muito inteligente nesse seu trabalho escatológico; funciona de forma bastante simples.

HM  Acreditaste sempre no corpo. Sempre foste muito honesta em relação à forma como comemos e defecamos.

AMM  O corpo é o nosso suporte e o nosso principal instrumento operativo: tudo vem do corpo e do que fazemos com ele. Hoje, o sentido do mito e do ritual quase se perdeu e, consequentemente, perdemos muita da nossa conexão com o corpo — o ritual de jantarmos juntos, ou de simplesmente desfrutarmos da companhia uns dos outros, celebrando o afecto. Lembro-me com prazer do tempo em que a minha família fazia pão todas as semanas e depois levávamos algum aos nossos vizinhos. Isto era uma celebração, um ritual que acho que perdemos. Temos de regressar ao corpo com amor. Verdadeiro amor.

HM  Mas o amor é difícil. Precisas de te abrir e ficar vulnerável. Podes magoar-te se amares de verdade. Lembro-me que em 2017, depois de Trump ter vencido as eleições pela primeira vez, te perguntei: «Que devo pensar sobre as ditaduras? E se isto se tornar uma ditadura?» E na altura disseste que tinha de prestar atenção, ouvir, olhar e saber sempre o que se passava. Estava a pensar que viveste no Brasil durante a ditadura militar. Como é que te sentiste a fazer arte durante esse período?

AMM  O artista encontra sempre uma forma de contornar a censura. Por exemplo, acho que em In-Out (Antropofagia) — uma curta filmada em Super 8 entre 1973 e 1974 — as metáforas eram demasiado sofisticadas para os censores perceberem o que estava a ser expresso. A poesia é uma arma muito poderosa e é evidente que há uma persona política dentro de mim.

HM  Posso dizer-te qual acho ser a tua posição política? Para mim, a política do teu trabalho reside na percepção de que a vida é longa. Levas contigo a tua mãe, a tua avó, e todas juntas avançam para o futuro. És do século xix e do século XX, e aqui estamos no século XXI. Mas o teu trabalho também diz algo sobre a história das mulheres na Terra. Sempre a cozinhar. Sempre a tomar conta dos outros. Temos de comer todos os dias. Não é uma questão, mas uma verdade política, uma verdade espiritual, uma verdade auto-evidente — temos de comer e alguém tem de cozinhar. Fatta a mano. O teu trabalho lembra-me Pompeia. Fui pela primeira vez há dois anos e quando lá estava pensei no teu trabalho, por causa das imagens do pão. Achamos que somos novos, mas fazemos isto desde o início dos tempos.

AMM  Quando me sinto incerta ou perdida no meu trabalho, regresso a mim mesma e ao início. Começo a pensar nas várias culturas e nas origens da humanidade. Digo que sou uma mulher comum e que fazer arte me torna mais humana e me traz felicidade. A arte é a forma suprema da expressão humana.

HM  E achas que a arte te tornou mais humana também porque a fazes com as mãos?

AMM  Moldar o barro com as minhas mãos dá-me grande prazer. É um material plástico e sensual que permite criar qualquer forma que se queira. O barro é terra. É o arquétipo da matéria.

HM  Exacto, o barro é terra. Pode assumir qualquer forma. Existe em toda a parte porque é terra, o primeiro material que usámos como humanidade. Outra coisa que usas, e que sempre me emocionou muito, é o ovo.

AMM  Sim, o ovo é um símbolo de vida. Gostava de contar uma história da minha infância sobre o ovo. A minha mãe criava galinhas para alimentar os seus nove filhos e ela pedia-me para ir buscar ovos ao gali- nheiro. Nunca vou esquecer a sensação de segurar um ovo ainda quente nas minhas mãos, acabado de pôr pela galinha. Há um poema meu que diz:

cogito que se 
Leonardo da Vinci tivesse nascido antes da 
galinha teria inventado o OVO 
com a Divina Proporção e Extrema Razão 

no OVO nada sobra 
sem machucar sai do pequeno orifício do corpo
simplesmente sai e sempre original 
entra no mundo 

O OVO é o OVO 
Protótipo da inteireza 
Diante desse paradigma de vida e de mistério
Reverencio a galinha e a invejo

HM  Ouvi esse poema, e conhecendo o trabalho que tens desenvolvido em volta do ovo, concordo contigo. Se o ovo não existisse antes de Leonardo da Vinci, ele tê-lo-ia inventado porque é perfeito. É duro e mole. Cheio e vazio. Delicado e forte. E as mulheres produzem óvulos. Mas então pergunto-me o seguinte: porque é que as mulheres são odiadas há centenas e centenas de anos?

AMM  Porque constituímos uma ameaça; somos uma força criativa da natureza.

HM  É assim tão simples? Depois deste tempo todo continua a haver imensa ansiedade em relação à criatividade feminina e ao que significa ser uma artista mulher, ou seja, uma pessoa capaz de produzir um óvulo e de criar uma criança, mas também capaz de fazer arte. Mas é preciso dizer que fazer boa arte é muito difícil.

AMM  Se fores honesto e sincero, o teu trabalho é válido. Na arte, como em qualquer profissão, temos de ser éticos.

HM  Tens oitenta e três anos de memórias. Deixa-me fazer-te outra pergunta. Há já muito tempo que a tua vida tem estado ligada à arte. O que te surpreende mais nessa condição de artista?

AMM  Sinto-me uma estrangeira na vida. É algo que me acompanha desde os meus tempos de infância em Itália. Eu nasci num tempo muito difícil, durante a Segunda Guerra Mundial, e sempre me perguntei: «Porque é que estou viva? Quero morrer.» Quero regressar, sinto saudades de tempos muito longínquos. É uma sensação estranha, uma nostalgia por algo irreconhecível ou desconhecido, que me fazia sentir bastante desajustada.

HM  Quero voltar à jovem Anna, à menina que não sabia porque estava na Terra, nem porque tinha nascido. Achas que uma vida dedicada à arte te ajudou a estabelecer uma ligação à Terra?

AMM  Sim. A arte permitiu-me conectar-me com a vida e isso curou-me. Acredito que a arte transcende o real. A arte é sagrada.

HM  No teu trabalho também usas bastante o fio.

AMM  O fio é uma linha. Kandinsky falou muito eloquentemente sobre a linha. Tal como na música, os artistas plásticos usam o segmento, a continuidade, o ponto. Para mim, é uma questão de ambivalência espacial. Por exemplo, em Por um Fio, falo da continuidade do tempo, que é também a continuidade através das gerações. Existo porque a minha mãe existe; a minha filha Verônica existe porque eu existo. Isto remete para a continuidade da humanidade, o infinito. Cada um de nós é um ponto ao longo da linha. Eu uso fio ou linha, porque são materiais domésticos.

HM  Achas que fazes arte também para reparar algum do mal do mundo?

AMM  Sim, é isso que os artistas fazem. Não sou a única. A arte é transformação. Com uma ideia do passado podes fazer uma obra nova, ou podes levantar uma nova questão. Nesse sentido, a arte é verdadeiramente uma transformação. Ora, isto é uma dádiva, mas também é um desafio para os curadores. Acho que um bom curador é um poeta.

HM  Também acho. Porque é que queres fazer coisas mais simples, quando muitos artistas querem coisas mais complicadas?

AMM  Porque a vida é bela. Para quê fazer coisas que me cansam e perturbam? Quero ter prazer enquanto artista.

HM  Resumindo, trabalhas com a argila, o ovo, o fio, e também pintas. Há alguma coisa que queiras fazer que ainda não tenhas feito?

AMM  Adoro desenhar porque é como respirar. Permite-me organizar o pensamento. É curioso, porque quando estou triste, não desenho. Passei muito tempo sem desenhar, mas há alguns dias voltei a fazê-lo. Flui de mim, simplesmente.

Anna Maria Maiolino, In-Out (Antropofagia), 1973

Anna Maria Maiolino, In-Out (Antropofagia), 1973. © Cortesia Studio A. M. Maiolino