Abrir um dos seis volumes da Enciclopédia de Fantasia intervencionados por Sonia Gomes é encontrar uma página que se tornou objecto: um recorte curvo deixa antever a folha seguinte, a sombra de uma margem ondula livremente, e um traço contínuo contorna uma frase e interrompe a seguinte. Não se trata de ilustrar contos, mas de traduzir a gramá- tica têxtil de Gomes para o formato de um livro: o desenho age como costura simbólica, o corte como abertura de tempo. A artista converte, desse modo, a leitura em gesto táctil e reinscreve a infância como território de reparação.
Desde 2018, Gomes trabalha sobre seis volumes de uma Enciclopédia de Fantasia oferecida à artista, reconfigurando-os com recurso ao recorte e ao desenho. Ao intervir num repositório de fábulas formatado por um cânone editorial europeu — sem perder de vista a diversidade de origens e reescritas orais que moldaram esses contos —, a artista reabre a matéria do livro a partir de um lugar afro-brasileiro, feminino e mestiço. Estes volumes não são apenas objectos transformados; são testemunhos de um gesto que reescreve o mundo a partir da matéria.



Partilhar artigo