Portfolio

Sonia Gomes: Livros que respiram

João Mourão e Luís Silva

Neste «Portfolio», folheamos as páginas da Electra e folheamos, ao mesmo tempo, as páginas do livro que elas trazem até nós. Esse livro foi intervencionado, recriado, reconfigurado, com recurso ao recorte e ao desenho, pela imaginação e a sabedoria de Sonia Gomes, uma das artistas brasileiras com maior projecção internacional. Com exposições nos mais prestigiados museus e galerias do mundo, está representada em colecções fundamentais, como as do MoMA e do Guggenheim, Nova Iorque; Centre Pompidou, Paris; National Gallery of Art, Washington; Tate Modern, Londres; e Museu de Arte e Pinacoteca de São Paulo. O portfólio preparado para esta edição da Electra é apresentado pelos curadores João Mourão e Luís Silva, que afirmam: «Estes volumes não são apenas objectos transformados; são testemunhos de um gesto que reescreve o mundo a partir da matéria.»

sonia gomes

Abrir um dos seis volumes da Enciclopédia de Fantasia intervencionados por Sonia Gomes é encontrar uma página que se tornou objecto: um recorte curvo deixa antever a folha seguinte, a sombra de uma margem ondula livremente, e um traço contínuo contorna uma frase e interrompe a seguinte. Não se trata de ilustrar contos, mas de traduzir a gramá- tica têxtil de Gomes para o formato de um livro: o desenho age como costura simbólica, o corte como abertura de tempo. A artista converte, desse modo, a leitura em gesto táctil e reinscreve a infância como território de reparação.

Desde 2018, Gomes trabalha sobre seis volumes de uma Enciclopédia de Fantasia oferecida à artista, reconfigurando-os com recurso ao recorte e ao desenho. Ao intervir num repositório de fábulas formatado por um cânone editorial europeu — sem perder de vista a diversidade de origens e reescritas orais que moldaram esses contos —, a artista reabre a matéria do livro a partir de um lugar afro-brasileiro, feminino e mestiço. Estes volumes não são apenas objectos transformados; são testemunhos de um gesto que reescreve o mundo a partir da matéria.

o corpo da página

As páginas abertas dos livros de Sonia Gomes são, antes de tudo, corpos-objecto. A artista aproxima-se do livro como quem se aproxima de um tecido — e isso não é apenas metáfora. Desde os anos 90, as suas esculturas nascem da manipulação de materiais têxteis, rendas e fios, onde a costura real liga e sustém formas. Nos livros, porém, não há costura nem colagem: há linha desenhada e papel recortado. A continuidade entre estas dimensões está no gesto: a linha que nas esculturas cose, aqui desenha; a incisão que perfura, aqui abre a página e areja o seu interior. A costura transforma-se em escrita visual; o remendo, em composição de fundo e cor.

Numa dupla página, um recorte elíptico abre a margem interna e deixa atravessar a luz; o contorno grafitado circunda um parágrafo e interrompe a moral do conto a meio; o texto, visível pelo novo enquadramento, destaca um conjunto de palavras que passam a funcionar como imagem. A leitura torna-se táctil: viramos a folha para confirmar o que o recorte promete, e o livro passa de sequência a montagem.

O livro deixa assim de ser superfície plana de significação para se tornar um corpo em potência, tecido por camadas de luz (as aberturas), de sombra (as sobreposições) e de ritmo (os traços). Nas imagens, um movimento circular percorre as páginas: margens redesenhadas criam molduras que lembram vitrais, janelas ou labirintos. Há uma vibração de cor — vermelhos intensos, lilases, verdes, tons de azul escuro — que dissolve a hierarquia da página. As palavras impressas tornam-se textura visual; silhuetas e formas delineadas a grafite, tinta ou lápis de cor flutuam como memórias que regressam. Longe de ser depósito fixo de sentido, o livro aparece como organismo em transformação.

a infância como território de reinvenção

A escolha da Enciclopédia de Fantasia é deliberada. Trata-se de uma colectânea de fábulas e contos infantis que moldaram o imaginário de gerações. Ao tomá-la como ponto de partida, Gomes propõe reescrever o modo como esse repertório opera. Os livros parecem contar as mesmas histórias, mas de dentro para fora. O texto impresso não é apagado: convive com linhas que o contornam, cortes que o interrompem e percursos gráficos que o desviam. Muda o ponto de vista: figuras femininas — princesas, fadas — tornam-se presenças múltiplas, vibrantes, por vezes fragmentadas, nunca passivas. Nesses contornos redesenhados, afirma-se o feminino como força criadora e resiliente. 

Este trabalho também reinscreve a infância no campo da memória e da história. Em Caetanópolis, Minas Gerais, onde cresceu como filha de mãe negra e pai branco, Gomes viveu num ambiente marcado pela herança da escravatura e pelas divisões raciais e sociais que moldaram o lugar. Aprendeu desde cedo a lidar com sobras de tecido — o que, na escultura, se converteu em têxteis reaproveitados e costuras como cicatrizes visíveis. Ao intervir agora sobre livros de fábulas, a artista transforma essa memória: faz da herança colonial um campo de invenção e escolha.

entre o texto e o têxtil

A aproximação entre texto e têxtil é central na obra de Sonia Gomes. A etimologia de «texto» (do latim textus, «tecido») encontra aqui tradução precisa. Nos livros, o texto impresso torna-se matéria gráfica: é atravessado por linhas, cortado e reconfigurado por aberturas e negativos, como se o papel fosse tecido. O que noutras peças seria linha de costura surge aqui como linha de desenho — contínua, serpenteante, por vezes interrompida e retomada, como uma escrita manual. Ler é também um acto físico: o olhar percorre a página como os dedos percorrem uma peça de roupa. Gomes recupera e exalta essa dimensão táctil pela espessura do papel, pelos vazios e pela intensidade do traço. 

Esta dimensão táctil dialoga com técnicas e cuidados relegados ao doméstico — saberes socialmente feminizados e frequentemente desvalorizados. Durante séculos, bordar e coser foram actividades associadas ao cuidado e à repetição. Na obra de Gomes, essas práticas migram para a arte contemporânea como linguagem de resistência. Nos livros, a linha desenhada introduz no espaço da cultura escrita — dominado por uma autoridade que foi, tantas vezes, masculina e branca — a marca de um corpo feminino e negro que escreve com outra gramática: a da forma e do ritmo visual.

o que se perde e o que se ganha

Se as aberturas criam respiro e passagem, também suspendem a linearidade da fábula. Perde-se legibilidade imediata; ganha-se montagem, atraso, atenção. Ao cortar uma frase a meio ou a encobrir uma moral com o desenho, Gomes desloca a promessa de «lição» para um campo sensível, onde a leitura é negociação entre ver e tocar.

gesto e memória

Desde as primeiras esculturas, Gomes trabalha o gesto como memória. As suas costuras não são decorativas; são modos de ligação, reparação, sobrevivência. Coser é lembrar. Nos livros, em vez de agulha e fio, o gesto desloca-se para o desenho e para a incisão: desenhar liga; cortar abre caminho.A memória corporal da costura transita para a página enquanto escrita de linhas. Cada traço prolonga um movimento do braço e da mão; cada recorte fixa uma decisão.

A escala íntima dos volumes — em contraste com a monumentalidade suspensa de algumas esculturas — convida à proximidade. Cada livro guarda uma confidência. Mas há também dimensão colectiva: como se cada corte e cada desenho tentassem reatar um fio histórico. A Enciclopédia de Fantasia — produto de uma cultura letrada — é feita de reescritas a partir de um corpo e de uma sensibilidade que lhes escapam. É um acto de reapropriação simbólica: a artista reinscreve-se, e reinscreve a sua comunidade, na história da imaginação.

entre a casa e o mundo

Sonia Gomes nasceu em 1948 e alcançou amplo reconhecimento internacional já depois dos sessenta anos de idade. Desde então, a sua obra circula globalmente, mas permanece ligada às origens em Minas Gerais. O atelier onde trabalha é uma extensão do ambiente doméstico — cheio de matérias, memórias, objectos encontrados. Essa confluência entre privado e público, íntimo e político, é um traço fundamental. 

Nos livros, essa dimensão doméstica é amplificada. Transformar um livro — objecto quotidiano — em obra de arte devolve ao íntimo dignidade estética. Gomes não procura monumentalidade; procura presença. Cada linha, cada recorte, cada zona deixada em branco é um modo de habitar o mundo e de marcar o tempo com a própria mão. Os livros são, nesse sentido, auto-retratos dispersos: fragmentos de uma autobiografia feita de gestos — ou melhor, de palavras transformadas em gestos.

a desobediência da forma

Se há uma ideia que atravessa a prática de Gomes, é a desobediência da forma. Nada obedece a uma partitura rígida. As esculturas nascem de encontros fortuitos entre materiais; os volumes ganham corpo por improviso. Nos livros, esse princípio traduz-se na liberdade do traço e na audácia do corte. A linha atravessa colunas, contorna parágrafos, interrompe frases — não para destruir, mas para abrir passagens. A desobediência é também cultural: ao intervir sobre um compêndio infantil, a artista desafia hierarquias entre erudito e popular, escrita e oralidade, e faz dialogar livro e têxtil, conto e canto, papel e corpo.

as camadas da imaginação

Cada volume da Enciclopédia de Fantasia transformado por Gomes é um exercício de metamorfose. Em algumas páginas, ornamentos lineares enroscam-se no texto como heras; noutras, cortes abrem janelas, deixam ver camadas seguintes, produzem suspensões de sentido. Há também espaços em branco que arejam, em contraste com a exuberância cromática de certas áreas. A sequência linear cede lugar à deriva: já não seguimos a narrativa; vagueamos entre fragmentos e ritmos. O livro, que antes propunha leitura em linha recta, torna-se campo de navegação.

a linha como escrita

Se há uma escrita em Sonia Gomes, ela é feita de linhas. Nas esculturas, a linha é fio que cose e sustém; nos livros, é desenho que liga e reorganiza. Ao desenhar sobre o papel, a artista inscreve uma escrita ilegível, mas significativa: escrita do corpo, que obedece à lógica do impulso e do ritmo. A linha atravessa o texto impresso, interrompe-o, reorienta-o — e nesse gesto inscreve outra narrativa.

Essa escrita é também forma de cuidado. Na escultura, a costura recompõe o que foi rasgado. No livro, o desenho e o recorte cumprem uma função análoga: abrem feridas e suturam-nas simbolicamente, revelam e cuidam. Incisões e trajectórias tornam-se cicatrizes visíveis — não camufladas, mas celebradas como lugar de beleza. Nessa inversão reside uma força profunda: a transformação do dano em possibilidade estética e ética.

encantamento e resistência

A Enciclopédia de Fantasia é, originalmente, um repositório de histórias de evasão. Nas mãos de Sonia Gomes, o encantamento torna-se forma de resistência. A fantasia não é fuga; é reinvenção. As páginas não nos afastam do mundo; devolvem-nos a ele, multiplicado e inacabado. Ao reencantar o livro, a artista reencanta a ideia de arte como espaço de reparação e de comunhão. Estes livros intervencionados são lugares de encontro entre passado e presente, Brasil e mundo, feminino e colectivo, sonho e memória — uma poética do vínculo. A linha que liga — seja fio na escultura, seja traço no livro — é a mesma que, simbolicamente, mantém o mundo unido. 

No fim, o que permanece é a imagem de páginas abertas como um coração em marcha: livro-objecto, texto-corpo, linha que orienta a leitura e o cuidado. Estes seis volumes mostram como Gomes traduz a gramática têxtil para o campo do livro de artista e como reconfigura a infância enquanto espaço de invenção e reparação.