Assunto

Michel Pastoureau: «A visão moralista das cores privilegiou o branco e o preto.»

Afonso Dias Ramos

O consagrado historiador Michel Pastoureau, autor de inúmeros estudos de referência sobre a história social dos símbolos nos últimos dois milénios, conversa com a Electra sobre a evolução do papel e significado da cor na moda, na religião, na arte, na literatura, na ciência e na vida quotidiana, revisitando algumas das suas principais obras sobre este tema.

andy warhol shadows

Andy Warhol, Shadows [Sombras], 1979 © Fotografia: João Neves © The Andy Warhol Foundation for the Visual Arts, Inc. / Dia Art Foundation, Beacon, Nova Ioque / Artists Rights Society (ARS), Nova Iorque / SPA, Lisboa

 

Possivelmente o maior perito actual na história social, visual e cultural da cor, Michel Pastoureau é historiador, medievalista e professor catedrático na École Pratique des Hautes Études, em Paris, onde, a partir de 1983, se tornou responsável pela cátedra de História da Simbologia Ocidental, depois de ter trabalhado no departamento de moedas, medalhas e antiguidades da Biblioteca Nacional de França. Conhecido pelas suas contribuições radicais em disciplinas diferentes, publicou mais de quarenta livros sobre a história das cores, dos animais e dos símbolos, e o seu trabalho também lidou, durante mais de quarenta anos, com a história dos emblemas e os campos associados da heráldica, da sigilografia e da numismática, recorrendo a fontes históricas, literárias e artísticas.

Além de obras extensas sobre o tema da cor, como o Dicionário das Cores do Nosso Tempo (1992), o Petit livre des couleurs (2005), com Dominique Simonnet, ou o premiado livro autobiográfico Les couleurs de nos souvenirs (2010), Michel Pastoureau escreveu também uma série monumental e aclamada de livros sobre cores no mundo ocidental, Azul (2000), Preto (2008), Verde (2013), Vermelho (2016), Amarelo (2019), Branco (2022) e, recentemente, Rosa (2024), traduzidos em dezenas de línguas e publicados também em Portugal. Numa conversa com a Electra, o autor revê a sua longa ligação às cores, que se espraia durante séculos de história, e cruza disciplinas como religião, política, economia, sociologia, literatura e arte. Como afirmou Pastoureau, a história da cor pertence à «história móvel do conhecimento».

AFONSO DIAS RAMOS  Como é que um historiador acaba a trabalhar sobre a cor?

MICHEL PASTOUREAU  Creio que comecei a trabalhar sobre a cor por se tratar de um tema que não existia nos meus anos de estudante. Mas antes de mais, talvez me tenha começado a interessar pela cor porque venho de uma família com muitos pintores e com muita pintura. Três tios meus eram pintores, e o meu pai também tinha muitos amigos artistas, por isso passei muito tempo em ateliers de artistas em Paris. Desde pequeno, desenvolvi o hábito de olhar para a pintura. Já era levado a visitar museus durante a minha infância, e isso nunca me aborreceu. Pelo contrário, dava-me imenso prazer. Cresci em contacto com a pintura.

ADR  Mas as suas abordagens à cor conjugam muitos campos que não a pintura. Explora a literatura, etimologia, religião, ciência… Isto ainda seria possível nesta era de hiperespecialização das universidades?

MP  Seguramente não seria possível hoje em dia. Nem nas ciências exactas, nem nas sociais. Apesar de todos reconhecerem intelectualmente o quão bom é trabalhar no cruzamento interdisciplinar, a universidade obriga a etiquetas específicas. Se o objectivo é ter uma carreira, é preciso ser-se altamente especializado. No meu caso, formei-me como historiador e não como historiador da arte, mas também me interessava por imagens e pelas cores. Além disso, também estudei filologia latina. Tudo isto, em conjunto, permitiu-me abordar a cor a partir de registos diferentes, em termos de vocabulário, da produção de pigmentos e corantes ou da história da moda, da ciência e da arte. Por essa razão, o meu trabalho entrecruza informação de todo o tipo de fontes. Hoje em dia, seria muito mais difícil. Os meus alunos não poderiam certamente fazer aquilo que fiz. Isto é claro quando se trabalha numa biblioteca, agora com salas especializadas. Quando eu era estudante, as grandes bibliotecas continham livros sobre filologia, química ou história da arte, todos na mesma sala. Seria difícil nos tempos que correm, uma vez que as bibliotecas se parecem com as secções separadas dos grandes armazéns.

ADR  Os seus inúmeros livros relacionam sempre as cores com a história e com a sociedade. Será que não existe algo de universal na cor?

MP  Não creio. A meu ver, a cor é profundamente cultural. Não existem verdades universais. Algumas práticas até podem ser semelhantes e repetirem-se, mas há sempre grandes diferenças quanto ao significado de certas cores e códigos, ou quanto ao funcionamento de certas hierarquias e percepções da cor. É muito comum encontrar enormes dificuldades mesmo na simples tradução do nome das cores para outras línguas. Até entre as línguas europeias que se relacionam de forma próxima, os termos para as cores nunca são totalmente sinónimos. Se eu disser bleu [azul] em francês, é um som líquido. Mas se disser blue em inglês, soa mais líquido ainda. Existe algo na sonoridade que se perde na tradução e, por isso, as cores jamais serão entendidas da mesma maneira mediante os diferentes ouvidos europeus.

"Nenhuma das mudanças na sociedade, nenhuma nova tecnologia de luzes ou materiais, conseguiu alterar a resposta à questão: qual é a sua cor favorita?"

andy warhol shadows
andy warhol shadows

Andy Warhol, Shadows [Sombras], 1979 © Fotografia: João Neves © The Andy Warhol Foundation for the Visual Arts, Inc. / Dia Art Foundation, Beacon, Nova Ioque / Artists Rights Society (ARS), Nova Iorque / SPA, Lisboa

 

ADR  O azul foi, por sinal, o primeiro livro da sua série sobre cores, e expôs a mudança radical na forma como era entendida na Antiguidade e agora. Como é que uma cor tão mal-amada se tornou na cor preferida da Europa?

MP  Sim, esse foi o fio condutor da história do azul na Europa, por isso decidi começar por ele: era bastante fácil reconstituir a sua história. Os gregos e os romanos não apreciavam muito o azul, hoje a cor favorita dos europeus. Trata-se de uma mudança lenta decorrida em diversas etapas, como atestam muitos documentos. Impôs-se a questão de saber porque ocorreu essa mudança. Existiram muitas causas. No entanto, não há dúvida de que a mais importante se prendeu com o declínio significativo do vermelho, a cor favorita da Antiguidade, então omnipresente até na vida social. Se percorrermos uma rua qualquer da Europa hoje em dia, quase não vemos vermelho. Mas na era romana, por exemplo, teríamos visto vermelho por toda a parte. O moralismo em torno das cores levou a uma recessão do vermelho, cedendo assim lugar para o aparecimento de outra cor.

"Na Grécia Antiga, pagava-se mais ao pintor de estátuas do que ao próprio escultor."

ADR  Considera que o azul só se tornou popular com o romantismo?

MP  Isso mesmo. Tanto quanto se pode generalizar, o azul tornou-se a cor favorita dos europeus por volta do século XVIII, e isso nunca mudou. Desde que se conhecem inquéritos de opinião e estatísticas sobre este tema, nos inícios do século XIX, as sondagens deram sempre os mesmos resultados. Para os historiadores, tal é extremamente interessante, na medida em que nenhuma das mudanças na sociedade, nenhuma nova tecnologia de luzes ou materiais, conseguiu alterar a resposta à questão: qual é a sua cor favorita? Há cento e cinquenta anos que o azul vem em primeiro lugar, à frente do verde, do vermelho, do preto, do branco e, por fim, do amarelo. E também é muito interessante que os resultados sejam os mesmos para os homens e para as mulheres. Não existe praticamente diferenças.

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