O cinema de Hollywood tende a criar imagens de sonho, associadas a arquétipos míticos, capazes de suscitar um mecanismo de identificação no espectador. Acontece por vezes um actor ou um realizador encarnar de maneira permanente estes modelos repetitivos e, se deles se quiser distanciar, terá de enfrentar o próprio sistema de produção — quando essa «desidentificação» não lhe é imediatamente impedida. John Wayne ou Humphrey Bogart são incarnações do herói; outros terão de corresponder ao cliché do vilão ou da jovem ingénua, da mãe extremosa ou da devoradora femme fatale. Em muitos casos, figuras idênticas repetem e actualizam o percurso das fábulas e dos mitos para atingir o inconsciente colectivo. Estas imagens de sonho também têm, obviamente, um valor histórico; exprimem desejos, recalcamentos ou terrores que condicionam o imaginário do seu tempo. O ícone Marilyn Monroe surgiu como apoteose da Beleza — desprovida de complexidade e, no fundo, totalmente reconfortante, pela sua ausência de espírito — perante as angústias e o imaginário patriarcal dos anos 50 do século XX.
Se, para usar o termo de Carl Gustav Jung, aquela era a «máscara» que o espírito do tempo lhe colocou sobre o rosto — a sua persona —, então o verdadeiro espírito de Marilyn encontrava-se em absoluta contradição com ela, ao ponto de lhe corroer o instinto vital e deixar prevalecer a morte. O que hoje nos interessa na sua figura não é tanto o significado sociológico e psíquico da máscara que lhe coube incarnar, mas a desesperada rebelião da sua persona contra o poder patriarcal que a criou. Com o passar do tempo, o estereótipo inverteu-se quase por completo e Marilyn passou a representar uma geração de mulheres revoltadas contra a opressão a que eram votadas, acabando por correr o risco de se tornar o ícone da vítima ou o bode expiatório do sistema do espectáculo. Não há nada de errado nisso, desde que não se perca a qualidade individual e singular da sua persona e da sombra que teve de a acompanhar. Consideremos, então, estes três aspectos: a máscara espectacular, a vida e sensibilidade por detrás dela (o seu «rosto») e a sombra que acabou por lhe destruir a vida. Para isso, recorreremos amplamente aos fragmentos manuscritos da própria actriz1, consciente, pelo menos em certa medida, do seu destino.



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