Registo

Marilyn Monroe: persona e sombra

Mario Pezzella

Quem a viu nunca mais deixou de a ver. Nos cem anos do nascimento de Marilyn Monroe, ícone universal perpétuo, o conceituado filósofo italiano Mario Pezzella, especialista de estética do cinema, escreve sobre o que Marilyn, com a sua inocente beleza culpada, era e no que o mundo a tornou. E diz-nos como ela, entre a fama e o vazio, viveu a sua atormentada vida de mulher e a sua fulgurante carreira de actriz na procura desesperada de um rosto que não negasse o seu. Neste ensaio de grande profundidade interpretativa, o antigo professor da prestigiada Scuola Normale Superiore, de Pisa, afirma: «A sua vida é marcada pelo esforço desesperado de fazer coincidir o seu gesto de actriz com a sua alma profunda, tentativa que nunca chega a conseguir realizar plenamente.»

O cinema de Hollywood tende a criar imagens de sonho, associadas a arquétipos míticos, capazes de suscitar um mecanismo de identificação no espectador. Acontece por vezes um actor ou um realizador encarnar de maneira permanente estes modelos repetitivos e, se deles se quiser distanciar, terá de enfrentar o próprio sistema de produção — quando essa «desidentificação» não lhe é imediatamente impedida. John Wayne ou Humphrey Bogart são incarnações do herói; outros terão de corresponder ao cliché do vilão ou da jovem ingénua, da mãe extremosa ou da devoradora femme fatale. Em muitos casos, figuras idênticas repetem e actualizam o percurso das fábulas e dos mitos para atingir o inconsciente colectivo. Estas imagens de sonho também têm, obviamente, um valor histórico; exprimem desejos, recalcamentos ou terrores que condicionam o imaginário do seu tempo. O ícone Marilyn Monroe surgiu como apoteose da Beleza — desprovida de complexidade e, no fundo, totalmente reconfortante, pela sua ausência de espírito — perante as angústias e o imaginário patriarcal dos anos 50 do século XX.

Se, para usar o termo de Carl Gustav Jung, aquela era a «máscara» que o espírito do tempo lhe colocou sobre o rosto — a sua persona —, então o verdadeiro espírito de Marilyn encontrava-se em absoluta contradição com ela, ao ponto de lhe corroer o instinto vital e deixar prevalecer a morte. O que hoje nos interessa na sua figura não é tanto o significado sociológico e psíquico da máscara que lhe coube incarnar, mas a desesperada rebelião da sua persona contra o poder patriarcal que a criou. Com o passar do tempo, o estereótipo inverteu-se quase por completo e Marilyn passou a representar uma geração de mulheres revoltadas contra a opressão a que eram votadas, acabando por correr o risco de se tornar o ícone da vítima ou o bode expiatório do sistema do espectáculo. Não há nada de errado nisso, desde que não se perca a qualidade individual e singular da sua persona e da sombra que teve de a acompanhar. Consideremos, então, estes três aspectos: a máscara espectacular, a vida e sensibilidade por detrás dela (o seu «rosto») e a sombra que acabou por lhe destruir a vida. Para isso, recorreremos amplamente aos fragmentos manuscritos da própria actriz1, consciente, pelo menos em certa medida, do seu destino.

Andy Warhol

Andy Warhol, Four Marilyns (Reversal Series), 1986 © Fotografia: Scala, Florença / Christie’s Images, Londres

 

"A imagem de Marilyn assemelha-se, assim, à boneca perfeita de um conto de Hoffmann, que desperta a paixão perversa do protagonista com a sua beleza encantada, revelando, no fim, ser um autómato."

Comecemos pela máscara. Como já tive a oportunidade de observar noutras ocasiões2, a sociedade do espectáculo em que vivemos produz uma inversão sistemática do imaginário e da realidade: os fantasmas e os simulacros substituem tanto quanto possível a corporeidade e a materialidade, funcionando, para usar a terminologia de Lacan, como objets petit a — fetiches dotados de potência aurática, mágica — destinados a afastar qualquer sentimento de falta ou de vazio; são promessas de prazer ilimitado e completo, mas sempre frustrado. Neste sentido, o estereótipo espectacular de Marilyn sobrepôs à sua pessoa real e ao seu corpo vivo um fantasma imaterial de felicidade; a negação e o sacrifício que, nesse processo vampiresco, atingem a alma e o corpo de quem o sofre devem ser eles mesmos negados e ocultados para que subsista apenas a fascinação final, destinada a suscitar a identificação do espectador. A imagem de Marilyn assemelha-se, assim, à boneca perfeita de um conto de Hoffmann, que desperta a paixão perversa do protagonista com a sua beleza encantada, revelando, no fim, ser um autómato: o produto de um refinado mecanismo3. Tal como neste conto, a engrenagem do cinema das grandes produções permanece escondida e inconsciente, para que a espectralidade possa afirmar o seu domínio incontestado.

A imagem espectacular revela uma inversão do mundo real: esta deve ser tanto mais perfeita, imaculada e privada de sombras quanto mais profundo for o vazio ou a falta de sentido da ordem simbólica que procura compensar. A positividade artificial e mecanicamente construída de um simulacro deve substituir a vida enfraquecida e entorpecida. A exibição imaginária é tanto mais obsessiva quanto mais prevalecem na realidade a imaterialidade e a abstracção, e se volatilizam os corpos reais e o desejo por eles. Os fantasmas apresentam-se como objectos privilegiados da libido e devem apaziguar a inquietação gerada pela crise da experiência e das relações corporais, sexualizadas e afectivas, exercendo uma força sedutora que torna a solidão suportável. Assim se delineia um imaginário colectivo que não pretende simplesmente ser um ornamento da realidade, mas também substituí-la por uma estetização geral e difusa: «Lá onde o mundo real se converte em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico.»4

O ícone espectacular de Marilyn foi investido de uma semelhante potência fantasmática: e não me refiro tanto aos filmes em que participou, muitas vezes de grandes realizadores e alguns dotados de espírito irónico e crítico, mas a todo o contexto exterior, à construção da personagem pública, do mito que devia sobrepor-se à pessoa em todos os aspectos da sua vida. Uma construção que, no entanto, está inevitavelmente ligada a uma cisão traumática da psique.

O fetiche confronta-nos com o paradoxo de um objecto inatingível que satisfaz uma necessidade humana precisamente por ser como é. Enquanto presença, o objecto-fetiche é, sim, qualquer coisa de concreto e até de tangível; mas enquanto presença de uma ausência, isto é, ao mesmo tempo imaterial e intangível, remete continuamente para lá de si mesmo, para algo que não pode nunca realmente ser possuído.5

Desta cisão entre a máscara e a pessoa encontramos testemunhos dramáticos em Fragments. Poems, Intimate Notes, Letters, escritos pelo punho de Marilyn e descobertos após a sua morte, sobre os quais Tabucchi escreveu no prefácio [à edição italiana]: «Marilyn está perfeitamente consciente de ser um mito (ou um novo mito) e, ao mesmo tempo, interroga o seu sentido.»6 Num poema sem data, podemos ler:

Vida — eu pertenço a ambas as tuas direcções de algum modo permanecendo suspensa para baixo a maioria das vezes, mas forte como uma teia de aranha ao vento — eu tenho mais vida na geada fria cintilante Mas os meus raios perlados têm as cores que eu vi num quadro — Ah, vida eles enganaram-te.7

Quais são as duas direcções, os dois percursos divergentes? Talvez um conduza para fora, para a construção da imagem mítica e pública, e o outro para o interior da alma, na compreensão profunda de si. Os dois caminhos nunca se encontram e conduzem a uma existência invertida, colocada numa posição intolerável e insustentável, suspensa de cabeça para baixo, uma vertigem contínua. Marilyn sabe ter em si fragilidade e força ao mesmo tempo, como uma teia de aranha, finíssima mas resistente. Sente em si o fulgor de possibilidades por expressar; mas é difícil fazê-las florescer, porque a vida foi um engano e a impede de se realizar verdadeiramente. De que engano se trata? Podemos supor que se refere àqueles que sobrepuseram à sua existência interior a aparência exterior; à profundidade da pessoa, a superfície da imagem mítica.

1. Marilyn Monroe, Fragments. Poesie, appunti, lettere, Milão: Feltrinelli, 2010.
2. Mario Pezzella, «Il volto e il fantasma. Andy Warhol e Marilyn Monroe», K. Revue trans-européenne de philosophie et arts, n.º 2, Janeiro de 2019. 
3. E. T. A. Hoffmann, «L’uomo della sabbia», Racconti, Novara: De Agostini, 1963, p. 132 «Uma jovem mulher alta, de compleição esguia, com proporções de absoluta pureza, encontrava-se sentada, esplendidamente vestida […], pude admirar o seu rosto, belo como o de um anjo. […] Não parecia dar-se conta de mim. Sobretudo, os seus olhos tinham algo de fixo, quase diria que lhes faltava a capacidade de ver: parecia-me que dormia de olhos abertos.» 
4. Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, Trad. Francisco Alves, A. Monteiro, Lisboa: Edições Mobilis in Mobile, 1991, p. 15.
5. Giorgio Agamben, Stanze, Turim: Einaudi, 1977, p. 41. 
6. Marilyn Monroe, op. cit., p. 16.
7. Ibid., p. 39. Todas as traduções seguem o original em língua inglesa (Nova Iorque: Farrar, Straus and Giroux, 2010). Contudo, a indicação de páginas refere-se à mencionada edição italiana. (N. do T.)

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