«Nenhuma criatura», segundo Tomás de Aquino, «pode alcançar um estádio mais alto na sua natureza sem deixar de existir».1
Henri Michaux: Por todos e contra todos
A Electra tem o privilégio de revelar, nesta edição, obras inéditas do grande escritor, poeta e artista visual Henri Michaux (1899–1984). São obras que, depois, serão expostas em três galerias de Munique, Zurique e Nova Iorque. Viajante insaciável dos mundos exteriores e interiores, foi uma figura capital da vida intelectual europeia do século XX. Autor de uma obra de inesgotável originalidade e de grande audácia experimental, existencial e artística, que liga, surpreendentemente, saberes e sabedorias, géneros e disciplinas diferentes, há em Michaux a procura incessante por novas linguagens e a recusa da fixidez, da estabilidade e do déjà vu. Os importantes desenhos aqui dados a conhecer, que integram o Arquivo Henri Michaux, são apresentados por um belo texto do curador Tim Geissler.
Henri Michaux, Sem título, 1974
Começar com Michaux é um acto destinado a falhar. Acontece com ele o mesmo que com o acaso. Cada pensamento, cada impulso, cada certeza desintegra- -se nesse preciso momento. «Escrevo para me percorrer. Pintar, compor, escrever: percorrer-me. É essa a aventura de estar vivo.»2
O acaso e a desintegração são a sua fórmula, permeada por uma antimatéria que gostaria de se adentrar infinitamente nos mais pequenos capilares da existência. Michaux conseguiu criar um protocolo da vida que não corresponde a um estigma nem segue uma lógica. É antes uma busca, na escrita e no desenho, do momento em que nos desorientamos e tropeçamos, de tal maneira que a nossa existência, numa realidade auto-infligida, cai desamparada.
Quando me pediram um texto para a revista Electra sobre o autor e pintor Henri Michaux, sabia que, se recusasse, seria apenas por medo de falhar. Michaux, que estava sempre no encalço do falhanço, teria presumivelmente gostado.
A sua busca de vestígios remonta às décadas de 1920 e 1930 em Paris, uma cidade que era à época o centro da poesia e da pintura. O belga Henri Michaux (1899–1984) era já um escritor de êxito quando descobriu por si mesmo o desenho. As primeiras obras em papel preto surgem em longas viagens pela América Latina, Índia e China entre 1927 e 1937. Nos anos 40 a sua obra gráfica ganha ímpeto; surgem grandes grupos de obras em papel. Nos anos 50 criou os Desenhos de Mescalina, muito aclamados, e logo depois os Mouvements. Pode-se ler acerca destes eventos biográficos e das tentativas de classificação das suas obras segundo geometrias que lhes são específicas em inúmeras publicações, tais como o catálogo Michaux, Momente.
Aqui importa muito mais compreender o que são os seus desenhos: «Os livros são aborrecidos de ler. Não há livre circulação. Somos convidados a seguir. O caminho está traçado e é um só. O quadro é completamente diferente: imediato, total. À esquerda, também, à direita, em profundidade, à vontade. Não há um trajecto, há mil, e as pausas não estão indicadas. Assim que queremos, temos o quadro de novo, inteiro. Num instante, tudo está lá. Tudo, mas nada conhecido ainda.»3 O poeta não vê o desenho como uma obra fechada. Interessa-lhe muito mais a serialidade e saber que cada movimento aplicado se insere numa sequência de exercícios e pensamentos que não se deixa dissolver nem quer nunca chegar ao fim. Tudo o que é linear lhe parece repulsivo e suspeito, em suma: pinto «para me descondicionar»4. Para se desabituar e para constantemente se desconstruir.
As obras escolhidas para a revista Electra fazem parte de um grupo maior de folhas que serão expostas em três galerias. As exposições decorrerão em Munique, Zurique e Nova Iorque5 e serão exclusivamente dedicadas a obras inéditas em papel e cartão.
Devemos ao Arquivo de Henri Michaux a possibilidade de publicar de forma selectiva e pontual estas raridades. O que elas têm de imediato e directo, a sua serialidade e efemeridade são representativas dos conjuntos aqui apresentados. Michaux, como o descreveu o seu bom amigo e companheiro de armas E. M. Cioran, era alguém «que punha tudo em marcha para não chegar à meta». Michaux não se interessava apenas pelo desenho, mas também pelo material de suporte. A folha de papel reage ao pigmento aguado. O papel é parcialmente humedecido e as fibras quase parecem ganhar uma vida própria que interage com a sua contraparte. O papel é humedecido, a aguarela dissolve-se, indicando uma forma que serve de referência, o acaso fixa-se. Este procedimento — ou dissolução, como ele lhe chamaria — resulta em grupos de obras que nascem em sessões que são autênticas maratonas, por vezes durando dias, até à exaustão total. Há momentos em que a mão que pinta se torna independente e em que surge uma rede de símbolos que se entrecruzam infinitamente.
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