Imaginamos o que poderia ser e assim vemos o que seria. É por isso que a imaginação constrói o real e que o real se acrescenta e magnifica com a imaginação.
Se cada uma das letras que escrevem as palavras deste «Editorial» tivesse uma cor que fosse dela, estas páginas chamavam o nosso olhar de uma maneira muito diferente desta em que o texto se está a ler.
O escritor Vladimir Nabokov tinha uma capacidade neurológica conhecida como «sinestesia grafema-cor», e era a cores que via as letras e os números que olhava. Essa aptidão sensorial concedia-lhe uma outra maneira de ver o ver e de ver o mundo.
O autor de Lolita e de Fogo Pálido alude a esta sua aptidão visual em vários textos e serve-se da narrativa dessa experiência sensorial associando-a ao seu imaginativo poder de criar metáforas para falar do desejo e das suas intensidades e oscilações, contradições e desordens.
Não raro, recorre à écfrase («descrição», do grego ekfrásis), esta antiga figura de linguagem pela qual a descrição de uma imagem torna presente a imagem que descreve, assim na Ilíada a descrição do escudo de Aquiles torna visível esse escudo memorável. Vários especialistas das neurociências e da psicologia estudaram, com interesse, os textos de Nabokov que tratam da sua forma de sinestesia, procurando entender melhor este fenómeno singular e sedutor.
No século anterior ao de Nabokov, num tempo em que os ponteiros dos relógios forçavam a aceleração do seu movimento regular, e num mundo em que as portas da percepção se abriam pouco a pouco e o ranger do seu rodar se ouvia com uma nitidez inquietante e prometedora, o poeta Arthur Rimbaud, insatisfeito com a clamorosa falta de invisível que o visível continha, fez da poesia que a sua imaginação, ao mesmo tempo fria e ardente, lúcida e alucinada, criava uma perigosa entrega à humanidade de novos tempos, de novos mundos e de novas palavras para a todos eles dizer.
A poesia de Rimbaud foi por ele escrita entre os quinze e os vinte anos de idade, com uma milagrosa invenção verbal e uma audaciosa atitude mediúnica («Carta do Vidente»), permanecendo, então e ainda hoje, ambas acintosamente inexplicáveis.
Essa altíssima poesia e o insolente abandono que pouco depois lhe pôs fim deram à sua aparição a surpresa radiante de um grandioso relâmpago, a cuja luz azul se vê o escândalo de uma civilização que submete a vida e a liberdade à mais feroz e inaceitável negação.
A vida e a obra deste grande mestre (sem o querer ser) da poesia moderna, precursor do surrealismo, dos beatniks e mesmo de Bob Dylan, de Patti Smith ou de Guy Debord, são, por isso, uma interminável e violenta denúncia do cativeiro, um irado manifesto de transformação da vida e uma imperiosa intimação de liberdade livre.
Na escrita-fala do poeta-vidente, pois assim ele quis que o poeta fosse, as cores e as letras que as dizem, ou as letras e as cores que as representam, são a cara e a coroa da moeda com que se paga para aumentar o pouco de realidade que há na realidade e dar à verdade um pouco mais de verdade do que é costume ela ter.
Em «Vogais», o seu famoso soneto em verso alexandrino, as letras e as cores dançam o seu estranho e agitado bailado de sentidos e de imagens:



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