Um dia, espero ser capaz de escrever como Erich Auerbach. O pai fundador da minha disciplina, a literatura comparada, sabia como desenvolver a argumentação num ensaio, ilustrando e expondo cuidadosamente os seus pontos de vista por meio de uma leitura próxima e distante das fontes. Nos meus tempos de estudante, na Istambul da década de 90, quando passar o tempo a ler livros era encarado como uma anomalia, aprendi a admirar tanto este filólogo alemão, a sua lucidez, o seu vasto conhecimento e a sua erudição, que decidi tornar-me académico.
Um típico ensaio da autoria de Auerbach começa com um conceito — «Figura», digamos — e explora o respectivo significado ao longo do tempo. Uma palavra, uma imagem, uma ideia desenrola-se diante dos nossos olhos com extrema perícia. Observar a trajectória de um conceito desde a Antiguidade Clássica até Dante permite-nos reflectir profunda e demoradamente a respeito da história, da política e das formas de representação. Inspira em nós uma postura análoga de empenho crítico na abordagem das obras de arte, dos textos e do mundo.
Sete décadas decorridas desde a sua morte, a leitura profunda e atenta constitui uma arte à beira da extinção neste tempo precário de distracção constante e atenção mitigada. Hoje em dia, uma sucessão infindável de clips oriundos das redes sociais, concebidos para acicatar a raiva e a conflitualidade, usurpou o papel que a leitura desempenhara durante séculos e séculos nas nossas vidas quotidianas. A civilidade alcançada por meio da reflexão aturada vai desaparecendo aos poucos, em prol de uma sabedoria performativa transmitida em directo nas plataformas das redes sociais. Nunca como hoje nos fez tanta falta o empenho apaixonado com que Auerbach estudava quer os textos quer a História.
Qual seria o conteúdo de um ensaio de Auerbach sobre a morte da leitura profunda numa época em que se assiste à ascensão dos nacionalismos? O ChatGPT seria bem capaz de nos fornecer a resposta, caso o alimentássemos com os dados adequados (prefiro resistir à tentação), mas a verdade é que nunca o saberemos. Auerbach morreu há muito e, além do mais, o seu método de reflexão vagarosa e ponderada está a desaparecer.
Ainda assim, na minha qualidade de comparatista com quarenta e cinco anos de idade, vivendo em Istambul, faço os possíveis por pensar como Auerbach. Dou longos passeios a pé junto ao estreito do Bósforo, que me ajudam a concentrar e a fantasiar a respeito de uma metempsicose entre as nossas duas almas. Tenho motivos racionais e históricos para alimentar essa fantasia da migração das almas. O grande comparatista judaico viveu na minha cidade natal, na década de 30. Escreveu Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental (1946) perto do meu apartamento. Quando trabalho em artigos extensos, que me exigem meses de pesquisa e leitura atenta, pergunto-me: «Como é que Auerbach abordaria este tema?» Isto estabelece uma fasquia inconcebivelmente alta para a redacção do artigo em causa, o que tem o condão de elevar o âmbito e a profundidade da minha escrita.



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