Figura

Erich Auerbach: o exilado mais famoso de Istambul

Kaya Genç

Kaya Genç é um reconhecido romancista, ensaísta e jornalista, laureado com o European Press Prize e doutorado em Literatura Inglesa. A sua cidade é Istambul, a mesma onde se exilou o grande romanista e filólogo alemão Erich Auerbach, que aí escreveu a sua obra-prima, Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental. Este texto de Kaya Genç é precisamente sobre a fascinante figura de Auerbach.

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Giorgio de Chirico, L'énigme de l'arrivée et de l'après-midi, 1912 © Fotografia: Fine Art Images / Bridgeman Images / Fotobanco.pt

 

Um dia, espero ser capaz de escrever como Erich Auerbach. O pai fundador da minha disciplina, a literatura comparada, sabia como desenvolver a argumentação num ensaio, ilustrando e expondo cuidadosamente os seus pontos de vista por meio de uma leitura próxima e distante das fontes. Nos meus tempos de estudante, na Istambul da década de 90, quando passar o tempo a ler livros era encarado como uma anomalia, aprendi a admirar tanto este filólogo alemão, a sua lucidez, o seu vasto conhecimento e a sua erudição, que decidi tornar-me académico.

Um típico ensaio da autoria de Auerbach começa com um conceito — «Figura», digamos — e explora o respectivo significado ao longo do tempo. Uma palavra, uma imagem, uma ideia desenrola-se diante dos nossos olhos com extrema perícia. Observar a trajectória de um conceito desde a Antiguidade Clássica até Dante permite-nos reflectir profunda e demoradamente a respeito da história, da política e das formas de representação. Inspira em nós uma postura análoga de empenho crítico na abordagem das obras de arte, dos textos e do mundo.

Sete décadas decorridas desde a sua morte, a leitura profunda e atenta constitui uma arte à beira da extinção neste tempo precário de distracção constante e atenção mitigada. Hoje em dia, uma sucessão infindável de clips oriundos das redes sociais, concebidos para acicatar a raiva e a conflitualidade, usurpou o papel que a leitura desempenhara durante séculos e séculos nas nossas vidas quotidianas. A civilidade alcançada por meio da reflexão aturada vai desaparecendo aos poucos, em prol de uma sabedoria performativa transmitida em directo nas plataformas das redes sociais. Nunca como hoje nos fez tanta falta o empenho apaixonado com que Auerbach estudava quer os textos quer a História.

Qual seria o conteúdo de um ensaio de Auerbach sobre a morte da leitura profunda numa época em que se assiste à ascensão dos nacionalismos? O ChatGPT seria bem capaz de nos fornecer a resposta, caso o alimentássemos com os dados adequados (prefiro resistir à tentação), mas a verdade é que nunca o saberemos. Auerbach morreu há muito e, além do mais, o seu método de reflexão vagarosa e ponderada está a desaparecer.

Ainda assim, na minha qualidade de comparatista com quarenta e cinco anos de idade, vivendo em Istambul, faço os possíveis por pensar como Auerbach. Dou longos passeios a pé junto ao estreito do Bósforo, que me ajudam a concentrar e a fantasiar a respeito de uma metempsicose entre as nossas duas almas. Tenho motivos racionais e históricos para alimentar essa fantasia da migração das almas. O grande comparatista judaico viveu na minha cidade natal, na década de 30. Escreveu Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental (1946) perto do meu apartamento. Quando trabalho em artigos extensos, que me exigem meses de pesquisa e leitura atenta, pergunto-me: «Como é que Auerbach abordaria este tema?» Isto estabelece uma fasquia inconcebivelmente alta para a redacção do artigo em causa, o que tem o condão de elevar o âmbito e a profundidade da minha escrita.

"Nascido no seio de uma família judaica abastada de Berlim, em 1892, Auerbach conheceria uma época violenta. Depois de estudar Direito e de se doutorar pela Universidade de Heidelberg em 1913, foi ferido ao combater nas fileiras do Exército austro-húngaro, na Primeira Guerra Mundial."

Não é apenas enquanto crítico e académico que a obra de Auerbach me ilumina. Sou também romancista. Ao escrever o meu segundo livro, Şehir [A cidade], uma autoficção baseada no tempo que passei em Amesterdão como estudante de pós-graduação (em 2004–2005), revisitei uma e outra vez as ideias e conceitos de Auerbach. Como representar a realidade?, eis a questão fulcral do seu pensamento. Como incorporar no texto os aspectos mundanos? Como converter a minha experiência numa parcela da história?

Para Auerbach, o realismo era a porta de entrada na história, na filosofia e na beleza. Caso um texto assentasse na realidade empírica, ao invés de partir de conceitos metafísicos e teológicos, alcançava, segundo ele, um cariz secular, realista. Ao abraçarem este género de realismo secular quando os respectivos temas diziam respeito a acontecimentos e personagens do foro religioso, vários textos da tradição literária judaico-cristã tiveram o condão de transformar o conceito de mimesis.

Nas obras-chave que Auerbach passou em revista nos seus ensaios e livros, clarões de realidade interrompem e rompem as normas consensuais no campo da retórica e da narrativa, o que não deixou de chocar e perturbar os leitores seus contemporâneos. Era assim que a realidade se imiscuía nos poemas épicos, na lírica e nos romances. Enquanto romancista, certifiquei-me de que a minha prosa absorvia tanta realidade terrena quanto possível. Melhor do que qualquer oficina ou mestrado de escrita criativa, Auerbach revelou-me a história e as técnicas ao serviço desta empreitada.

Hiroshi

Hiroshi Sugimoto, Canton Palace Theater, Ohio, 1980 © Hiroshi Sugimoto

 

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Nascido no seio de uma família judaica abastada de Berlim, em 1892, Auerbach conheceria uma época violenta. Depois de estudar Direito e de se doutorar pela Universidade de Heidelberg em 1913, foi ferido ao combater nas fileiras do Exército austro-húngaro, na Primeira Guerra Mundial. De regresso a casa, foi condecorado com a Cruz de Ferro. Testemunhar a destruição do mundo levou-o a desviar os seus interesses académicos para a filologia românica. Leo Spitzer (1887–1960) tornou-se seu orientador em Marburgo, no momento em que este havia encetado a investigação para a sua tese de pós-doutoramento sobre Dante.

À época, na Alemanha, não era nada fácil aceder a um cargo de professor uni- versitário. Auerbach era judeu e, não obstante o apoio de Spitzer, deu por si isolado.

Na década de 1920, exerceu funções de bibliotecário na Biblioteca do Estado da Prússia, em Berlim, realizando trabalho de campo para esta instituição. Ao percorrer a sua obra desse período, impressionou-me até que ponto se mostrou prolífico. «A descoberta de Dante pelo romantismo» (1929) explora o modo como a Divina Comédia assinala um ponto de ruptura na tradição ocidental, na medida em que o juízo de Deus passa a manifestar-se numa dimensão «terrena» e «mundana». No seu esforço para retratar a vida objectiva, ou a realidade, Dante confere à existência um cariz eterno, fixando-a em imagens perenes: as personagens que ele próprio encontra no Paraíso, no Purgatório e no Inferno foram ali parar por escolha própria. Ainda que diga respeito ao «outro mundo», a representação que Dante fez destas esferas foi objectiva e realista.

"O retrato que faz de Istambul não deixa de ser impressionante aos olhos de hoje: Judeus, gregos, arménios, todas as línguas, uma vida social grotesca."

Em 1930, Auerbach era já professor de Filologia Românica na Universidade de Marburgo. Publicou a sua tese, com o título «A técnica narrativa da novela dos alvores do Renascimento em Itália e em França», antes de dar à estampa vários outros ensaios e livros que abordam a ética e a responsabilidade, a estética da tradição judaico-cristã, e ainda os conceitos de tempo em Vico e em Hegel, entre outros temas.

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