Assunto

Cores virais

Elena Manferdini

Elena Manferdini é uma arquitecta italiana radicada nos EUA, onde, para além de um percurso como professora em diversas universidades (ensina actualmente na Harvard Graduate School of Design), criou o Atelier Manferdini, um espaço multidisciplinar consagrado à arquitectura, ao design e à arte pública. Neste artigo, Manferdini desenvolve uma análise interpretativa do efeito que os ecrãs, na era digital, tiveram sobre o uso das cores, decifra as variações dos códigos cromáticos e entra no terreno da psicologia para mostrar como a cor tem um poder neuroestético. assunto 76 Elena Manferdini

Quando é que a cor deixou de ser apenas cor e começou a tornar-se um fenómeno viral?

Algures entre a ascensão do Instagram e a adopção generalizada dos smartphones como principais dispositivos visuais, algo mudou profundamente. A cor, outrora negligenciada, ressurgiu como um dos grandes atractores de atenção e de envolvimento digital. Hoje, desempenha um papel central como estímulo afectivo e comportamental — aquilo que pode ser descrito como dopamina on demand.

Na era dos conteúdos seleccionados [curated feeds] e dos sonhos algorítmicos, a cor tornou-se uma moeda cultural. Esta obsessão visual generalizada não é acidental. A neurociência revela que determinadas cores activam os centros de recompensa cerebral, estimulando respostas emocionais e comportamentais. Os tons saturados pelos quais passamos ao fazer scroll, com os quais interagimos ou que, o mais das vezes, partilhamos não são aleatórios — foram estrategicamente concebidos para captar a nossa atenção, prolongar a interacção e suscitar respostas. Quanto mais intensa a cor, maior o apelo visual; quanto mais cuidadosamente seleccionada a paleta, mais forte o nosso desejo de a consumir e replicar.

A cor na era digital actua na intersecção entre percepção, desejo, significado político e comportamento digital. Um scroll pelos nossos feeds revela não só as nossas preferências estéticas como os nossos hábitos emocionais e as nossas inclinações ideológicas. O rosa-choque, por exemplo, outrora associado à feminilidade de forma estereotipada ou mesmo infantilizante, foi reapropriado como um símbolo irreverente de protesto feminista, chegando mesmo a figurar em campanhas online como a Marcha das Mulheres. Da mesma forma, o preto tornou-se um emblema de luto colectivo e solidariedade durante os movimentos por justiça social. O quadrado preto publicado no Instagram em 2020, por exemplo, foi um momento de silêncio visual em apoio ao movimento Black Lives Matter e uma demonstração de aliança através da ausência, através da cor. Os tons do arco-íris, tradicionalmente associados ao Orgulho LGBTQ+, evoluíram para sinais mais amplos de inclusão e valores progressistas. Um filtro de arco-íris numa fotografia de perfil, ou um logótipo com esse tema durante o Mês do Orgulho, representa não só uma celebração, mas também uma declaração de valores corporativos ou individuais, alinhando-nos visivelmente com a equidade e a diversidade. Não são apenas cores, são tomadas de posição. Cada tonalidade comporta um conjunto de significados, que mudam consoante o contexto, o momento e a plataforma. A cor transforma-se assim num meio de comunicação que prospera nas redes sociais, onde a linguagem verbal muitas vezes diz mais do que o texto.

andy warhol shadows

Andy Warhol, Shadows [Sombras], 1979 © Fotografia: João Neves © The Andy Warhol Foundation for the Visual Arts, Inc. / Dia Art Foundation, Beacon, Nova Ioque / Artists Rights Society (ARS), Nova Iorque / SPA, Lisboa

 

"À medida que a estética digital influencia as decisões de design físico, corre-se o risco de a arquitectura passar a ser apenas uma superfície para consumo visual."

O projecto Color(ed) Theory Suite, de Amanda Williams, é um exemplo poderoso de como a cor pode transmitir significados específicos de índole racial, económica e geográfica. Nesta série, Williams pinta casas abandonadas na zona sul de Chicago em tons vívidos e monocromáticos, cada uma remetendo para um produto ou marca intimamente ligados à memória cultural negra. Cores como o laranja intenso dos Cheetos picantes (Flamin’ Red Hots), o rosa vivo do óleo hidratante Pink Oil Moisturizer e o roxo saturado da caixa do whiskey Crown Royal estão longe de ser arbitrárias. Servem de ligação visual a uma experiência colectiva, evocando marcas muitas vezes direccionadas para as comunidades negras e que também se tornaram parte integrante dos seus universos emocionais e visuais. Para quem está familiarizado com estas referências, a ressonância é imediata e profundamente pessoal; para os outros, o significado tem de ser decifrado, o que revela que a cor funciona como uma linguagem codificada — simultaneamente um significante cultural e um marcador histórico. Através deste trabalho, Williams desafia a ideia de que a cor é universal ou neutra, mostrando que, pelo contrário, esta é profundamente contextual, moldada pela identidade, pelo lugar e pela experiência vivida. Embora as casas já não existam, o seu impacto perdura, imortalizado em fotografias amplamente partilhadas e difundidas no Instagram. Estas imagens expandiram a memória cultural, funcionando também como comentário sobre a estética e as dinâmicas das redes sociais.

Esta coreografia algorítmica da cor introduziu novas tensões éticas. As tendências de cor correm o risco de homogeneizar referências culturais, esvaziando o contexto em favor do apelo estético. No domínio da arquitectura, isto levanta questões sobre a forma como a cor — outrora profundamente ligada ao lugar, ao material e às histórias locais — é cada vez mais filtrada pelos nossos smartphones. À medida que a estética digital influencia as decisões de design físico, corre-se o risco de a arquitectura deixar de ser vista como um veículo de experiência vivida para passar a ser apenas uma superfície para consumo visual. A fronteira entre o autêntico e o encenado torna-se cada vez mais difusa.

E num mundo onde o #semfiltro é apenas mais um filtro, o desafio não é tanto a forma como vemos a cor, mas o que deixamos de ver por causa dela. Não vemos as texturas dos materiais. Não vemos como uma superfície muda com o tempo. Não sentimos as qualidades térmicas da cor no espaço. Não testemunha- mos como a cor se desgasta, interage com a luz ao longo do dia ou acumula pó, fuligem ou impressões digitais.

Com o aumento constante das exigências visuais, a nossa capacidade para aderir a formas de envolvimento mais lentas e profundas pode começar a degradar-se. No domínio da arquitectura e do design, isto pode levar a espaços visualmente chamativos, mas experiencialmente monótonos. A cor, neste contexto, deixa de ser uma experiência específica do lugar, materialmente incorporada, que emerge a partir dos materiais locais, da luz natural, do desgaste ou da memória cultural. Pensemos na disseminação global do «rosa Millennial» ou do «amarelo Gen Z» aplicados indiscriminadamente em contextos culturais muito distintos, despojando a cor da sua especificidade. Isto levanta questões incómodas: que formas de apagamento são camufladas pelo brilho suave da harmonia cromática? A cor na arquitectura corre o risco de se tornar emocionalmente carregada, mas culturalmente vazia.

a cor, o cérebro e o scroll: uma questão neuroestética

andy warhol shadows

Andy Warhol, Shadows [Sombras], 1979 © Fotografia: João Neves © The Andy Warhol Foundation for the Visual Arts, Inc. / Dia Art Foundation, Beacon, Nova Ioque / Artists Rights Society (ARS), Nova Iorque / SPA, Lisboa

 

Na arquitectura e no design contemporâneos, entrámos na era da cor viral, em que estratégias cromáticas são utilizadas não apenas para realçar a estética, mas também para fomentar a interacção, influenciar o estado de espírito e reconfigurar a forma como os ambientes são experienciados, tanto no ecrã como no espaço. Uma parede deixa de ser apenas um elemento de design — torna-se um pano de fundo para um momento partilhável, um cenário cuidadosamente preparado dentro da paisagem performativa das nossas vidas mediatizadas. Hoje, a cor não permanece estática. Ela torna-se viral.

"A cor tem um poder neuroestético capaz de desencadear a libertação de dopamina, o químico cerebral da sensação de bem-estar."

Para compreender porque a cor nos cativa, seduz e, por vezes, vicia, é preciso ir além do design. Precisamos de entrar no cérebro. A cor estimula os nossos sistemas neurológicos de recompensa. Por outras palavras, a cor tem um poder neuroestético capaz de desencadear a libertação de dopamina, o químico cerebral da sensação de bem-estar, tal como o fazem o açúcar, a novidade e a validação social. Estudos mostram que cores saturadas evocam respostas emocionais mais intensas e um envolvimento visual imediato. Quanto mais brilhante ou intensa for, maior a probabilidade de captar a nossa atenção e produzir excitação emocional.

A investigação em neuroestética, uma disciplina que combina neurociência e teoria da arte, demonstrou que estímulos visuais como a cor activam directamente o córtex orbitofrontal, uma região do cérebro associada ao prazer, à recompensa e à tomada de decisão. Nesse sentido, a cor é mais do que uma ferramenta de design — é um estimulante neurológico.

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