Quando é que a cor deixou de ser apenas cor e começou a tornar-se um fenómeno viral?
Algures entre a ascensão do Instagram e a adopção generalizada dos smartphones como principais dispositivos visuais, algo mudou profundamente. A cor, outrora negligenciada, ressurgiu como um dos grandes atractores de atenção e de envolvimento digital. Hoje, desempenha um papel central como estímulo afectivo e comportamental — aquilo que pode ser descrito como dopamina on demand.
Na era dos conteúdos seleccionados [curated feeds] e dos sonhos algorítmicos, a cor tornou-se uma moeda cultural. Esta obsessão visual generalizada não é acidental. A neurociência revela que determinadas cores activam os centros de recompensa cerebral, estimulando respostas emocionais e comportamentais. Os tons saturados pelos quais passamos ao fazer scroll, com os quais interagimos ou que, o mais das vezes, partilhamos não são aleatórios — foram estrategicamente concebidos para captar a nossa atenção, prolongar a interacção e suscitar respostas. Quanto mais intensa a cor, maior o apelo visual; quanto mais cuidadosamente seleccionada a paleta, mais forte o nosso desejo de a consumir e replicar.
A cor na era digital actua na intersecção entre percepção, desejo, significado político e comportamento digital. Um scroll pelos nossos feeds revela não só as nossas preferências estéticas como os nossos hábitos emocionais e as nossas inclinações ideológicas. O rosa-choque, por exemplo, outrora associado à feminilidade de forma estereotipada ou mesmo infantilizante, foi reapropriado como um símbolo irreverente de protesto feminista, chegando mesmo a figurar em campanhas online como a Marcha das Mulheres. Da mesma forma, o preto tornou-se um emblema de luto colectivo e solidariedade durante os movimentos por justiça social. O quadrado preto publicado no Instagram em 2020, por exemplo, foi um momento de silêncio visual em apoio ao movimento Black Lives Matter e uma demonstração de aliança através da ausência, através da cor. Os tons do arco-íris, tradicionalmente associados ao Orgulho LGBTQ+, evoluíram para sinais mais amplos de inclusão e valores progressistas. Um filtro de arco-íris numa fotografia de perfil, ou um logótipo com esse tema durante o Mês do Orgulho, representa não só uma celebração, mas também uma declaração de valores corporativos ou individuais, alinhando-nos visivelmente com a equidade e a diversidade. Não são apenas cores, são tomadas de posição. Cada tonalidade comporta um conjunto de significados, que mudam consoante o contexto, o momento e a plataforma. A cor transforma-se assim num meio de comunicação que prospera nas redes sociais, onde a linguagem verbal muitas vezes diz mais do que o texto.



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