Arca de Noé

Sex Epistles: Kenneth Anger e o Kinsey Institute

Thomas Dylan Eaton

Esta narrativa começa com a descoberta de uns frescos eróticos numa casa habitada em Itália pelo mago e escritor inglês Aleister Crowley, também conhecido por ter protagonizado um estranho episódio com o poeta Fernando Pessoa. A partir desta descoberta, conta-se a relação do cineasta Kenneth Anger com o biólogo Alfred C. Kinsey e com o instituto de investigação por ele fundado, que revolucionou o entendimento sobre Eatona sexualidade humana. Num trepidante relato de rituais, transgressões, repressões, criações, é um momento importante da história da libertação sexual que é aqui revelado. Thomas Dylan Eaton, autor deste ensaio escrito para a Electra, é escritor e curador, tendo colaborado em revistas como a Artforum ou a White Review. Investigador e profundo conhecedor deste assunto, manteve uma extensa correspondência com Anger.

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Kenneth Anger e Alfred Kinsey em Palermo, Outubro de 1955 © Fotografia: Maraini Fosco / Gabinetto Vieusseux Property / Alinari Archives, Florença

 

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Kenneth Anger no interior da Abadia de Thelema © Fotografia: Maraini Fosco / Gabinetto Vieusseux Property / Alinari Archives, Florença

 

No Outono de 1955, Kenneth Anger, o cineasta vanguardista norte-americano, deu início a uma estada de três meses em Itália, durante a qual trouxe à luz do dia um precioso acervo de frescos eróticos numa quinta do século XVIII, situada nos arredores da aldeia piscatória de Cefalù, na Sicília. Trinta anos antes, essa casa, conhecida como Villa Santa Barbara, fora a morada do ocultista inglês Aleister Crowley, que, juntamente com um pequeno grupo de discípulos, fundara um culto quase-religioso denominado Thelema. Uma amálgama de crenças ocidentais e orientais gerou polémica em virtude de uma série de ritos e cerimónias extravagantes que Crowley designava por «magia sexual» (sexual magick). Em 1923, Crowley e os seus seguidores foram escorraçados do país pela polícia secreta de Mussolini. Os murais eróticos que pintara nas paredes e nas portas interiores da quinta foram encobertos e o edifício acabou abandonado.

Anger restaurou estes murais, relatando-o em cartas dirigidas ao diplomata e escritor britânico Gerald Yorke, que fora não só discípulo de Crowley, mas também legatário do seu vasto arquivo em Londres1. Trabalhando dia e noite, à luz de um candeeiro a petróleo e com recurso a ferramentas simples, Anger expôs partes dos frescos raspando-os com uma faca e passando um pano húmido sobre a cal. Uma a uma, as imagens iam-se revelando: «um pé grotesco azul com garras vermelhas radiantes», «uma enorme serpente verde […] enroscada em torno de umas pernas vermelhas», «olhos demoníacos em meio-círculo» e um falo num «rico castanho-avermelhado». Mesmo na sua forma fragmentada, os frescos tinham uma coloração viva surpreendentemente intacta. Os danos resultantes do abandono do edifício foram atenuados graças à protecção conferida pela camada de cal. Algumas das descobertas mais significativas de Anger ocorreram nos aposentos de Crowley. Pintado a azul sobre uma faixa cor-de-laranja-abóbora, encontrava-se um verso de poesia brejeira: «Stab your demoniac smile to my brain, soak me in cognac, c...t and cocaine.» Uma racha na argamassa cruzava a palavra «c…t» e serpentava sobre um retrato pintado que Anger identificou como sendo de um dos discípulos de Crowley. Numa parede adjacente, descobriu ainda uma das figuras-chave do culto de Thelema, a mulher escarlate, que surgia de barriga para baixo, com a cabeleira ruiva solta para trás e a língua vermelha afiada de fora. Sobre ela erguia-se uma figura em púrpura-escuro, numa cena que Anger interpretou como um ritual sexual.

À luz dos pudicos costumes da Inglaterra vitoriana, Crowley surgira como pioneiro da dissidência sexual. Os ritos orgiásticos que concebera em Cefalù faziam lembrar os dos seus pares no movimento decadentista: «Todos os engenhos e artifícios da cortesã» e «todos os estimulantes conhecidos da medicina» deveriam servir para excitar a libido dos discípulos no sentido de estes atingirem a transcendência espiritual2. Na década de 50, a reputação de devasso eclipsara os seus eruditos escritos teóricos sobre a magick — termo que cunhou para distinguir o seu sistema esotérico da teosofia, do espiritualismo, do ocultismo e do misticismo. A religião de Thelema não conseguiu impor-se, e os seus ritos e cerimónias eram vistos como obscenidades excêntricas. Tudo isto teria condenado ao esquecimento os esforços de Anger em Cefalù, não fora ter-se-lhe juntado, nesse Outono, o seu grande amigo Alfred C. Kinsey, o mais famoso biólogo dos EUA.

Kinsey estava de viagem pela Europa na sequência da enorme atenção mediática em torno dos seus estudos científicos pioneiros — Sexual Behaviour in the Human Male (1948) e Sexual Behaviour in the Human Female (1953). Acabara de defender perante uma comissão parlamentar britânica a revogação das penas severas para delitos homossexuais, quando viajou até Itália para se juntar a Anger em Cefalù. Kinsey não tinha o propósito de aferir o valor estético daquelas pinturas. Queria antes estudá-las como elementos de investigação sexual.

"Soldados de licença, empregados de mercearia, recrutas da Marinha e um vasto segmento de cidadãos norte-americanos visados pela Polícia por alegados crimes sexuais contra a natureza dirigiam-lhe perguntas prementes sobre as suas vidas íntimas."

Warburg
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© Fotografia: Kenneth Anger / Warburg Archives, Londres

 

No seu livro de 1948 sobre o comportamento sexual masculino, Kinsey defendia que os investigadores da sexualidade modernos teriam de explorar além da escassez de material dos tratados científicos dos seus pares e debruçar-se sobre a abundância de informação sexual em bruto dispersa por diversos campos da actividade humana. Compilou uma lista de referência, que se tornaria a base da sempre crescente biblioteca sexual do recém-fundado Institute for Sex Research, no estado norte-americano do Indiana3. As categorias incluíam biologia, medicina, psicologia, aconselhamento matrimonial e aplicação da lei penal. Havia ainda uma enumeração deta- lhada de géneros literários e artísticos, incluindo aqueles considerados moralmente perigosos. No fim da lista, depois de «Objectos fetichistas», surgia a secção «Materiais sobre cultos sexuais»4.

A presença de Kinsey em Cefalù teve grande repercussão. Anger conseguiu convencer a revista Picture Post a encomendar um artigo sobre a descoberta dos murais de Crowley, e o fotógrafo italiano Fosco Maraini foi contratado para documentar as pinturas. Kinsey explicou à Picture Post que pouco sabia sobre o «lado mágico» do culto de Cefalù. O que lhe interessava era o sexo: «Entrevistei várias pessoas que conheceram Crowley quando ele esteve na América e tenho os livros dele na minha biblioteca. O que me espanta é ele ter conseguido viver uma vida, à partida, intolerável para a época…»5

Em Cefalù, uma variante do culto fálico, em que os órgãos sexuais eram tidos como símbolo físico de Deus e do Sol e fonte de poder criativo, viu-se confrontada com o complexo de culpa, de matriz vitoriana, de que sofriam os seguidores anglo-americanos de Crowley. Frank Bennett, um discípulo, resumiu-o de forma lapidar num diário escrito em Cefalù em 1921. Aí, fala sobre a «culpa e os problemas» a que poderia ter sido poupado se tivesse conhecido a filosofia de liberdade sexual de Crowley mais cedo, em vez do «maldito ensinamento de que todos os desejos eram coisas da carne e, por conseguinte, do diabo». E, indignado, acrescenta: «Eu, um homem perfeitamente saudável, fiz tudo para reprimir estes desejos naturais e, ainda assim, apercebia-me a cada instante que eles perduravam […], tão fortes, senão mais fortes do que nunca.»6 Há um paralelo evidente entre a angústia sexual de Bennett e as cartas empolgadas que Kinsey recebia de norte-americanos comuns na sequência do êxito dos seus estudos sobre a sexualidade masculina e feminina. Soldados de licença, empregados de mercearia, recrutas da Marinha e um vasto segmento de cidadãos norte-americanos visados pela Polícia por alegados crimes sexuais contra a natureza dirigiam-lhe perguntas prementes sobre as suas vidas íntimas. Kinsey sentiu-se compelido a ajudá-los, pois o projecto de investigação sobre o comportamento sexual humano convencera-o de que grande parte dos «desvios» descritos por médicos e punidos pela lei eram, na realidade, comuns e correntes.

Kinsey afastou-se radicalmente dos seus prede- cessores no campo da investigação sexual. A sua formação em zoologia e os anos passados a estudar variedades da vespa-da-galha norte-americana foram os alicerces de uma abordagem inédita. Aplicou métodos de investigação taxonómica em grande escala, retirados da biologia, ao estudo da sexualidade humana. No cerne dos seus métodos de investigação estava a entrevista individual: três horas ininterruptas de uma sucessão rápida de perguntas. Para o estudo sobre a sexualidade masculina, de 1948, contou com a participação de cerca de seis mil norte-americanos. Kinsey apresentou as suas conclusões na fria linguagem estatística das médias, medianas e coeficientes. A sua hipótese de que «a natureza raramente lida com categorias discretas»7 ficou patente nas variações acentuadas da actividade sexual dos homens ao longo da vida. As noções há muito estabelecidas sobre o que era considerado normal ou patológico, moral ou imoral, heterossexual ou homossexual revelaram-se inadequadas, por isso a experiência erótica passou a ser representada num espectro fluido, que na década de 50 ficou conhecido como a «Escala de Kinsey».

[...]

1. A «Yorke Collection» do arquivo de Aleister Crowley encontra-se no Warburg Institute, em Londres, e inclui as vinte e uma páginas de cartas manuscritas que Kenneth Anger enviou a Gerald Yorke em Cefalù (30.09.1955–13.10.1955). 
2. Instructions for Sex Magick at Cefalù, XV. Of Eroto-comatose lucidity, Yorke Collection, Londres: The Warburg Institute, c. 1914.
3. O Institute for Sex Research foi fundado na Universidade de Indiana em 1947. Em 1983, foi rebaptizado como The Kinsey Institute. 
4. Alfred C. Kinsey, Wardell B. Pomeroy, Clyde E. Martin, Sexual Behaviour in the Human Male, Filadélfia: W. B. Saunders Company, 1948, pp. 22–23. 
5. Jenny Nicholson, «Where Does the Devil Get You?», Picture Post, Yorke Collection, Londres: The Warburg Institute, 03.12.1955. 
6. Frank Bennett, Magical Record of Frater Progradior in a Retirement at Cefalù, Diário, Yorke Collection, Londres: The Warburg Institute, 19.08.1921.
7. Alfred C. Kinsey, Wardell B. Pomeroy, Clyde E. Martin, Sexual Behaviour in the Human Male, op. cit., p. 639. As ideias de Kinsey nesta secção, sobre o equilíbrio heterossexual-homossexual («The Heterosexual-Homosexual Balance»), contam-se entre as vertentes mais polémicas do primeiro relatório.