No Outono de 1955, Kenneth Anger, o cineasta vanguardista norte-americano, deu início a uma estada de três meses em Itália, durante a qual trouxe à luz do dia um precioso acervo de frescos eróticos numa quinta do século XVIII, situada nos arredores da aldeia piscatória de Cefalù, na Sicília. Trinta anos antes, essa casa, conhecida como Villa Santa Barbara, fora a morada do ocultista inglês Aleister Crowley, que, juntamente com um pequeno grupo de discípulos, fundara um culto quase-religioso denominado Thelema. Uma amálgama de crenças ocidentais e orientais gerou polémica em virtude de uma série de ritos e cerimónias extravagantes que Crowley designava por «magia sexual» (sexual magick). Em 1923, Crowley e os seus seguidores foram escorraçados do país pela polícia secreta de Mussolini. Os murais eróticos que pintara nas paredes e nas portas interiores da quinta foram encobertos e o edifício acabou abandonado.
Anger restaurou estes murais, relatando-o em cartas dirigidas ao diplomata e escritor britânico Gerald Yorke, que fora não só discípulo de Crowley, mas também legatário do seu vasto arquivo em Londres1. Trabalhando dia e noite, à luz de um candeeiro a petróleo e com recurso a ferramentas simples, Anger expôs partes dos frescos raspando-os com uma faca e passando um pano húmido sobre a cal. Uma a uma, as imagens iam-se revelando: «um pé grotesco azul com garras vermelhas radiantes», «uma enorme serpente verde […] enroscada em torno de umas pernas vermelhas», «olhos demoníacos em meio-círculo» e um falo num «rico castanho-avermelhado». Mesmo na sua forma fragmentada, os frescos tinham uma coloração viva surpreendentemente intacta. Os danos resultantes do abandono do edifício foram atenuados graças à protecção conferida pela camada de cal. Algumas das descobertas mais significativas de Anger ocorreram nos aposentos de Crowley. Pintado a azul sobre uma faixa cor-de-laranja-abóbora, encontrava-se um verso de poesia brejeira: «Stab your demoniac smile to my brain, soak me in cognac, c...t and cocaine.» Uma racha na argamassa cruzava a palavra «c…t» e serpentava sobre um retrato pintado que Anger identificou como sendo de um dos discípulos de Crowley. Numa parede adjacente, descobriu ainda uma das figuras-chave do culto de Thelema, a mulher escarlate, que surgia de barriga para baixo, com a cabeleira ruiva solta para trás e a língua vermelha afiada de fora. Sobre ela erguia-se uma figura em púrpura-escuro, numa cena que Anger interpretou como um ritual sexual.
À luz dos pudicos costumes da Inglaterra vitoriana, Crowley surgira como pioneiro da dissidência sexual. Os ritos orgiásticos que concebera em Cefalù faziam lembrar os dos seus pares no movimento decadentista: «Todos os engenhos e artifícios da cortesã» e «todos os estimulantes conhecidos da medicina» deveriam servir para excitar a libido dos discípulos no sentido de estes atingirem a transcendência espiritual2. Na década de 50, a reputação de devasso eclipsara os seus eruditos escritos teóricos sobre a magick — termo que cunhou para distinguir o seu sistema esotérico da teosofia, do espiritualismo, do ocultismo e do misticismo. A religião de Thelema não conseguiu impor-se, e os seus ritos e cerimónias eram vistos como obscenidades excêntricas. Tudo isto teria condenado ao esquecimento os esforços de Anger em Cefalù, não fora ter-se-lhe juntado, nesse Outono, o seu grande amigo Alfred C. Kinsey, o mais famoso biólogo dos EUA.
Kinsey estava de viagem pela Europa na sequência da enorme atenção mediática em torno dos seus estudos científicos pioneiros — Sexual Behaviour in the Human Male (1948) e Sexual Behaviour in the Human Female (1953). Acabara de defender perante uma comissão parlamentar britânica a revogação das penas severas para delitos homossexuais, quando viajou até Itália para se juntar a Anger em Cefalù. Kinsey não tinha o propósito de aferir o valor estético daquelas pinturas. Queria antes estudá-las como elementos de investigação sexual.



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