Quase como ontem: sobre o trabalho de Julia Wachtel
Julia Wachtel
Associada, no seu começo, à Pictures Generation (Nova Iorque, década de 80), Julia Wachtel é uma consagrada artista contemporânea, com exposições em prestigiadas galerias e museus, como o MoMA e o Whitney Museum. Na sua obra de uma grande sedução visual, de que este portfólio que preparou para a Electra é representativo, está presente um pensamento crítico inquieto, que interroga as imagens e a sua incessante proliferação actual. No «Assunto» da Electra 12, sobre a Fama, o trabalho desta artista teve uma relevante presença. No texto que escreveu para apresentar este «Portfolio», o poeta e ensaísta Arthur Solway, que tem colaborado em revistas como Artforum, Frieze e ArtAsiaPacific, faz uma bela e melancólica evocação de acontecimentos que deram forma ao nosso tempo e que fazem reconhecer na obra de Julia Wachtel «uma natureza reveladora». Adverte o conceituado escritor: «Sendo uma artista norte-americana da minha geração — nascidos em meados ou finais dos anos 50 —, o trabalho de Wachtel revela hoje, mais do que nunca, um astuto poder de associação, extremamente relevante no contexto sociopolítico actual.»
A manhã de Setembro estava amena enquanto esperava pelo metro para o centro de Manhattan. Nessa altura vivia em Brooklyn, no bairro operário, já semi-gentrificado, de Carroll Gardens. Como era habitual, comprei o New York Times e estava à espera na plataforma quando ouvi uma pessoa dizer que um avião tinha colidido com uma das torres do World Trade Center. Não sabia mais detalhes, acrescentou, mas prosseguiu comparando o incidente com um outro episódio semelhante, em 1945, quando um avião militar atingiu os andares 78.º e 80.º do Empire State Building, perdido no nevoeiro cerrado e conduzido por um piloto que calculou mal a altitude e a posição do avião.
Nesse dia, estava a ir para o trabalho mais cedo. O metro da linha F parou na estação; entrei, sentei-me e cheguei à paragem da rua 57 cerca de vinte minutos mais tarde. Saí rapidamente da estação, onde vi um monte de televisores numa janela ao lado da montra da Steinway Piano. Uns momentos antes, um segundo avião havia embatido na Torre 2. Os pisos superiores das Torres Norte e Sul estavam envoltos em chamas e fumo. Dentro de uma hora, ambas acabariam por colapsar completamente.
Quando cheguei ao escritório, todos os meus colegas estavam à volta de um computador a ver as notícias. Os dois aviões tinham sido sequestrados, mas não havia confirmação de que se tratasse de ataques terroristas. Cerca de vinte minutos mais tarde, um terceiro avião colidiu com o Pentágono, causando danos parciais e matando os 64 passageiros a bordo, bem como 125 trabalhadores do edifício. Um quarto avião, destinado ao Capitólio ou à Casa Branca, foi alegadamente tomado à força numa revolta dos passageiros que já sabiam o que se tinha passado em Nova Iorque. O avião despenhou-se nos arredores da aldeia de Shanksville, na Pensilvânia. Foi o único que não atingiu o seu alvo. Morreram os 33 passageiros e os sete membros da tripulação.
Disseram-nos que fôssemos para casa reunir-nos com as nossas famílias. Os cinco bairros de Nova Iorque estavam sob confinamento geral e os serviços de metro e de autocarro foram suspensos. Ouviam-se sirenes vindas de todo o lado. Foram destacados caças militares que patrulhavam os céus em voo baixo. Poucos minutos depois do primeiro ataque, a Autoridade Portuária de Nova Iorque e Nova Jérsia fechou todas as pontes e túneis com entrada e saída para a cidade. Percursos de evacuação foram imediatamente definidos. A única forma de sair de Manhattan, de sair da ilha, era a pé. Milhares de trabalhadores do centro foram conduzidos para a zona oriental e dirigidos para a zona sul ao longo da 2.ª Avenida, encurralados como refugiados de guerra, caminhando pelo meio da rua e junto a barreiras que ladeavam os passeios. Toda a Polícia estava sob alerta vermelho. Os carros da Polícia, dos bombeiros e de primeira intervenção eram os únicos autorizados a circular, e quase todos seguiam em direcção ao Ground Zero.
Para evacuarmos a pé, teríamos de atravessar a Ponte de Manhattan, que foi o que fiz depois de andar durante quase duas horas. Comecei a subir a Avenida Flatbush em direcção a Second Place e ao meu apartamento no terceiro andar. Quando finalmente cheguei a casa, fui directo ao meu quarto. Estava exausto, ainda em estado de descrença em relação ao que tinha acontecido, ao que tinha testemunhado.
Tinha deixado as janelas do quarto totalmente abertas quando saí para o trabalho naquele dia, que começou como qualquer outra manhã de terça-feira. O chão de madeira estava agora coberto por um pó fino vindo do East River. Ao olhar para o lado ocidental pela janela do quarto, conseguia ver o local onde as Torres Gémeas se erguiam — agora reduzidas a enormes colunas de fumo. Todas as superfícies do apartamento estavam cobertas por uma fina camada de cinza.
Não consigo recordar com clareza o que fiz depois de regressar a casa. Lembro-me de tentar ligar às pessoas, preocupado com os seus paradeiros. Os telefones estavam em baixo. Tudo o que retenho daquele dia é uma incerteza inquietante, um sentimento de mal-estar difuso, e a percepção de que nada poderia servir de comparação para tamanha catástrofe. Parecia-me como que o prelúdio para o fim do mundo ou o epílogo do que o mundo seria a partir daqui. O que mais poderia acontecer?
Nunca tinha escrito sobre esse dia.
No rescaldo do 11 de Setembro de 2001, a revista The New Yorker publicou um poema do poeta Adam Zagajewski (1945–2021), intitulado «Tenta louvar o mundo estropiado». Foi impresso em página inteira e num corpo de letra maior do que o habitual para a poesia. Parece-me apropriado reproduzi-lo na íntegra:
Tenta louvar o mundo estropiado1
Recorda os longos dias de Junho e os morangos silvestres, as gotas de vinho rosé. Recorda-te das urtigas, que metodicamente
invadiam
as herdades abandonadas dos exilados.
Tens que louvar o mundo estropiado. Olhaste os iates e os navios elegantes;
um deles preparava-se para uma longa viagem, aos outros esperava-os um salgado nada.
Viste fugitivos que iam para lado nenhum, ouviste os carrascos a cantarem alegremente.
Deverias louvar o mundo estropiado. Recorda os momentos em que vocês
estavam juntos
num quarto branco e as cortinas se mexiam.
Regressa em pensamento ao concerto, quando
a música explodiu.
No Outono colheste bolotas no parque
e o redemoinho das folhas cobria as cicatrizes
da terra.
Louva o mundo estropiado
e a pena cinzenta que um tordo perdeu,
e a luz delicada que se afasta e desaparece
e regressa de novo.
O poema de Zagajewski ficou comigo durante muitos anos, com a sua urgência contemplativa e a sua chamada à resiliência. Recentemente, deparei com uma entrevista na Boston University Today, onde o poeta é questionado sobre as origens do poema:
«Tenta louvar o mundo estropiado», publicado no rescaldo do 11 de Setembro de 2001, foi inspirado pelos eventos desse dia?
Não, o poema foi escrito mais de um ano e meio antes do 11 de Setembro. Lembro-me de ter escrito a primeira linha numa viagem de comboio algures na Polónia ou na Alemanha. O mundo mutilado era o mundo da minha infância. Pensei, se bem me lembro, neste paradoxo: a minha infância apresenta-se na minha memória como bastante idílica — qualquer psiquiatra diria que não, claro —, e no entanto o mundo em que cresci não era particularmente feliz.
Algo na presciência do poema de Zagajewski — a que volto tantas vezes, e me traz memórias do 11 de Setembro — me lembra da natureza reveladora dos trabalhos de Julia Wachtel.
Sendo uma artista norte-americana da minha geração — nascemos em meados ou finais dos anos 50 —, o trabalho de Wachtel revela hoje, mais do que nunca, um astuto poder de associação, extremamente relevante no contexto sociopolítico actual. Ao longo de quase quatro décadas, as preocupações ou os imperativos centrais da sua obra têm abordado muitos dos assuntos mais prementes: classe, desigualdade, degradação e poder. Aquele velho lugar-comum de que uma imagem vale por mil palavras nunca foi tão verdadeiro; é-o na forma como Wachtel destrinça as suas imagens, as suas justaposições sagazes, como se estivesse a colocar questões para que quem olha chegue às suas próprias conclusões e preencha os espaços em branco.
Os cartoons que tantas vezes aparecem nas pinturas de Wachtel funcionam como narradores ou comentadores auxiliares? Por vezes, surgem como trapalhões azarados; por outras, são pregoeiros de feira. Os cartoons, na sua dimensão crítica, inscrevem-se profundamente na história da imprensa e da televisão. O «Join or Die» de Benjamin Franklin, publicado no Pennsylvania Gazette em 1754 e há muito considerado o primeiro cartoon político, apelava à liberdade e à unidade colonial perante a ameaça do expansionismo francês e das populações nativas americanas. Quando era miúdo, adorava ver desenhos animados: o Beep Beep, o Porky, o Bugs Bunny, Os Flintstones e Os Jetsons eram os meus preferidos. Também era fã das bandas desenhadas dos jornais, como os Peanuts e o seu Charlie Brown, personagem desamparada e desgostosa, talvez o meu primeiro contacto com a depressão infantil. Até nessa altura, estes cartoons apresentavam as suas versões idealizadas dos valores americanos, das dinâmicas familiares e de emoções comoventes. Pobre e hesitante Porky!
Terá sido este o início do meu próprio mundo mutilado? Certamente não tão terrível como crescer e viver como Zagajewski, numa Polónia em guerra sob um regime totalitário brutal. Nem de certeza tão trágico como a torrente de imagens televisivas de crianças famintas em Gaza ou da morte e destruição contínuas na Ucrânia.
A poeta Edna St. Vincent Millay escreveu: «A infância é o reino onde ninguém morre. Isto é, ninguém que importa.» Há, ainda, a observação de Albert Einstein: «A busca pela verdade e pela beleza é uma esfera de actividade em que nos é permitido permanecermos crianças durante toda a nossa vida.» E, mesmo assim, fazemos scroll, até à próxima imagem, e depois à próxima, até todo e qualquer sentido de inocência parecer desvanecido.
Wachtel anda à cata no nosso mundo saturado de imagens. A Internet, claro, há muito que substituiu as nossas antiquadas fontes de imagens — em livros e na literatura, ou através dos meios fotográficos convencionais. Há muito tempo que o mundo se tornou digital, tudo está pixelizado. Há uns anos, em Mykonos, lembro-me de parar para ver a famosa colina de moinhos de vento da ilha, e o primeiro pensamento que me veio à cabeça foi o clássico de Miguel de Cervantes, Dom Quixote. Pensei na loucura de Quixote, no ataque aos seus adversários imaginados, e de como nunca mais seria capaz de olhar para moinhos de vento da mesma maneira — nunca mais.
Nos seus trabalhos recentes, que continuam a combinar habilmente a pintura com a serigrafia, Wachtel tem desenvolvido uma visão alargada do mundo na qual regista a actual cultura contemporânea. São trabalhos comoventes, de um premente sentido de trepidação ou mal-estar para com a degradação da humanidade e a sua incapacidade para ir além de uma épica tragicomédia ou dose diária de absurdo.
Recordo o Fim de Partida, de Samuel Beckett: «Não há nada mais engraçado do que a felicidade, reconheço [...]. Sim, sim, é o que há de mais cómico no mundo. E nós rimo-nos, rimo-nos cá com uma vontade, no princípio. Mas é sempre a mesma coisa. Sim, é como aquela história engraçada que já ouvimos várias vezes, ainda lhe achamos graça, mas já não nos rimos.»2
Outro poema que permanece comigo ao longo dos anos é «Musée des Beaux Arts», de W. H. Auden. As estrofes iniciais e finais, em particular:
Quanto ao sofrimento nunca se enganaram
Os Velhos Mestres: como entenderam
A sua morada humana; como acontece, Enquanto outros comem ou abrem uma janela
ou dão um passeio obscuro…
No Ícaro de Brueghel, por exemplo: tudo volta Pacificamente as costas ao desastre;
o lavrador terá
Ouvido o mergulho, o grito desamparado;
Mas, para ele, não foi um fracasso importante;
como de costume
O sol brilhava nas pernas brancas que
desapareciam na água
Verde; e o frágil, luxuoso barco que terá visto
Algo espantoso, um rapaz caído do céu,
Tinha um destino a atingir e para ele
suavemente navegou.3
Tal como no poema de Zagajewski, Auden parece sugerir que os acontecimentos do nosso quotidiano, de outra forma mundanos e corriqueiros, podem ser fugidios e, no entanto, mágicos, mesmo perante a crise ou o infortúnio. Pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer momento, num abrir e fechar de olhos. Por muito ingénuo ou tonto que possa parecer, continuo a acreditar no poder duradouro e transformativo da arte, das grandes pinturas, dos grandes poemas e músicas — e que os artistas têm o poder de mudar a forma como vemos e experienciamos o mundo. Wachtel encontra-se entre eles. Presciência e paradoxo fazem sempre parte da paleta.
Quando volto a essas aparentemente distantes memórias daquela amena manhã de Setembro, também não posso deixar de pensar noutro evento a que alguns jornalistas chamaram «o maior crime artístico do século xx». Em 2024, assinalou-se o quinquagésimo aniversário do extraordinário percurso funambulista de Philippe Petit entre as Torres Gémeas em 1974. O seu espectáculo clandestino, que desafiou a morte, foi como nenhum outro na história da cidade. A performance, que aconteceu a mais de 400 metros do chão, durou uns meros 45 minutos antes de a Polícia chegar e prender Petit. O procurador retirou todas as acusações de invasão de propriedade e outros crimes, com a condição de que o artista apresentasse um espectáculo de acrobacias aéreas gratuito para crianças no Central Park. Até hoje, quando me lembro tristemente das vítimas do 11 de Setembro, de todos aqueles que morreram tragicamente e daqueles que saltaram das torres em chamas para a morte durante o ataque, penso, por vezes, num francês de vinte e quatro anos que dançou no céu.



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